quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A Vida Na Hora





A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.      
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado –
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo – pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.



Wislawa Szymborska
in, Poemas





domingo, 27 de outubro de 2019

Opinião sobre a pornografia





Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua.


Wislawa Szymborska
in, Poesia





quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Editor Whedon





To be able to see every side of every question;
To be on every side, to be everything, to be nothing long;
To pervert truth, to ride it for a purpose,
To use great feelings and passions of the human family
For base designs, for cunning ends,
To wear a mask like the Greek actors—
Your eight-page paper—behind which you huddle,
Bawling through the megaphone of big type:
“This is I, the giant.”
Thereby also living the life of a sneak-thief,
Poisoned with the anonymous words
Of your clandestine soul.
To scratch dirt over scandal for money,
And exhume it to the winds for revenge,
Or to sell papers
Crushing reputations, or bodies, if need be,
To win at any cost, save your own life.
To glory in demoniac power, ditching civilization,
As a paranoiac boy puts a log on the track
And derails the express train.
To be an editor, as I was—
Then to lie here close by the river over the place
Where the sewage flows from the village,
And the empty cans and garbage are dumped,
And abortions are hidden.


Edgar Lee Masters




segunda-feira, 21 de outubro de 2019

As Coisas





Semeiam
lembranças de um fogo antigo,
as coisas,
e agarram-se a nós
com desmedida violência, 
ou nós a elas, tanto faz.

As coisas voltam-se para nós
e participam encantadamente
dos nossos gestos,
os que determinam
a nossa vida
por exclusão
dos que, em suspenso,
ficaram na nossa vontade.

Entregues ao que nos consome,
desenham-se e alongam-se
as coisas sobre a terra.


Luís Quintais



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Janela





Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa.
Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal.
Quero comer devagar e gravemente 
como aquele que sabe o contorno carnudo 
e o peso grave das coisas.

Não quero possuir a terra mas ser um com ela.
Não quero possuir nem dominar 
porque quero ser: esta é a necessidade.

Com veemência e fúria 
defendo a fidelidade ao estar terrestre.
O mundo do ter perturba e paralisa 
e desvia em seus circuitos 
o estar, o viver, o ser.

Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário.
Dai-me a limpeza de que não haja lucro.
Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo.
Chegou o tempo da nova aliança com a vida.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN





quarta-feira, 16 de outubro de 2019

TO IMAGINATION


Ewa Cwikla 





When weary with the long day's care,
And earthly change from pain to pain ,
And lost, and ready to despair,
Thy kind voice calls me back again:
Oh, my true friend! I am not lone,
While then canst speak with such a tone!

So hopeless is the world without;
The world within I doubly prize;
Thy world, where guile, and bate, and doubt,
And cold suspicion never rise;
Where thou, and 1, and Liberty,
Have undisputed sovereignty.

What matters it, that all around,
Danger, and guilt, and darkness lie,
lf but within our bosom's bound
We hold a bright, untroubled sky,
Warm with ten thousand mingled rays
Of suns that know no winter days?

Reason, indeed, may oft complain
For Nature's sad reality,
And tell the suffering heart, how vain
lts cherished dreams must always be;
And Truth may rudely trample down
The flowers of Fancy, newly-blown:

But, thou art ever there, to bring
The hovering vision back, and breathe
New glories o'er the blighted spring,
And call a lovelier Life from Death.
And whisper, with a voice divine,
Of real worlds, as bright as thine.

I trust no to thy phantom bliss,
Yet, still, in evening's quiet hour
With never-failing thankfullness,
I welcome thee, Benignant Power;
Sure solacer of human cares,
And sweeter hope, when hope despairs!



À IMAGINAÇÃO

Quando da labuta diária estou cansada,
E do terreno devir de dor em dor,
E perdida me sinto, quase desesperada,
Tua voz terna chama-me ao labor:
Ah, fiel amiga! Não estou só,
Enquanto puderes falar-me nessa voz!

Nada espero do mundo exterior;
O mundo interior, prezo-o a dobrar;
O teu mundo, onde dúvida, ódio, desamor
E fria suspeição jamais hão-de medrar;
Onde tu, e eu, e a Liberdade,
Temos incontestada e suprema autoridade.

Que importa, se à nossa volta
Paira o perigo, a culpa, o breu,
Se há em nossa alma à solta
Um radioso e sereno céu,
Aquecido por dez mil raios luminosos
De sóis que não conhecem dias invernosos?

Na verdade, pode queixar-se a Razão
Da triste realidade da própria Natureza,
E dizer ao amargurado coração
Que são vãos os sonhos que ela tanto preza;
E pode a Verdade espezinhar rudemente,
Da Fantasia, as flores imanescentes:

Mas, atenta, tu refreias sempre
Meus voos delirantes e, enquanto
Derramas novas glórias sobre a nefanda nascente,
Extrais da Morte uma Vida de maior encanto.
E com voz divina me falas, ciciante,
De mundos reais, como o teu tão fascinantes.

Não me rendo à tua fátua bênção;
Porém, no silêncio do entardecer,
Com indefecível gratidão,
Eu te acolho, Benigno Poder;
Consolo, se a vida nos exaspera,
Esperança mais doce, quando a esperança desespera!



EMILY BRONTË (ELLIS BELL)
in, POEMAS ESCOLHIDOS DAS IRMÃS BRONTË
tradução de ANA MARIA CHAVES





domingo, 13 de outubro de 2019

AI, MARGARIDA





Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.



ÁLVARO DE CAMPOS





sábado, 12 de outubro de 2019

Ainda não é tarde





Ainda não é tarde, dizem os amigos 
aos quarenta anos. Amam as canções 
e as cidades estranhas que o desejo 
guarda: a pressa de Junho nas escadas 
do metro e essa livraria à beira do rio -
só a descobrimos no último dia, a pena

que foi. No fim da estação regressam 
iguais com histórias diferentes, gratos 
souvenirs. Ainda não é tarde, nada 
está perdido (e ninguém lhes dá 
a idade que têm). Aos quarenta anos 
não sabem dizer o que aconteceu, 

mas quando se juntam à roda da mesa 
na vaga euforia que a hora consente, 
já quase acreditam que podem voltar 
à pequena praça, à luz entrevista de 
um quarto de hotel, onde a noite é nova 
e toda a beleza se há-de cumprir.


Rui Pires Cabral
in, Morada





sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NÃO POSSO ADIAR O AMOR PARA OUTRO SÉCULO





Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


ANTÓNIO RAMOS ROSA
in, VIAGEM ATRAVÉS DUMA NEBULOSA 




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Elogio da vida monástica






Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.


Jorge de Sena
in, 40 Anos de Servidão





sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A Litania da Cinza


Per Aspera Ad Astra
de Nicholas Roemmelt





Escuta, mãe (consegues ouvir-me na alquimia
da tinta?):
Não me esperes para além da poesia.
Ganharei coragem…
Não resumas a tua vida a um acumular constante
de infernos no corpo,
a este fel repetido, arremessado à sede como lança
capaz de matar o enlevo dos dias.

Mãe, as nossas vidas são pés de roseira…
Sinto falta dos almoços felizes de domingo,
da tua voz prostrada em fado a beijar-me
os ouvidos,
dos sorrisos mãe, que outrora, um ao outro
devolvíamos.
Perdoa-me, querida mãe.
Atravesso um deserto longe dos teus olhos,
mas no silêncio, mãe, no silêncio, ainda habito
contigo.

Quis o destino que o amor e a morte
se fundissem em poesia.


JOSÉ ALBERTO POSTIGA
in, A LITANIA DA CINZA





quarta-feira, 2 de outubro de 2019

TEAM WORK





It's all very well to have courage and skill
And it's fine to be counted a star,
But the single deed with its touch of thrill
Doesn't tell the man you are;
For there's no lone hand in the game we play,
We must work to a bigger scheme,
And the thing that counts in the world to-day
Is, How do you pull with the team?

They may sound your praise and call you great,
They may single you out for fame,
But you must work with your running mate
Or you'll never win the game;
Oh, never the work of life is done
By the man with a selfish dream,
For the battle is lost or the battle is won
By the spirit of the team.

You may think it fine to be praised for skill,
But a greater thing to do
Is to set your mind and set your will
On the goal that's just in view;
It's helping your fellow man to score
When his chances hopeless seem;
It’s forgetting self till the game is o're
And fighting for the team. 


Edgar Albert Guest