sábado, 30 de novembro de 2019

POEMA DO DESAMOR






Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato



ALEXANDRE O´NEILL
in, DEZANOVE POEMAS
POESIAS COMPLETAS




quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Arte Privada


Alexander Yakovlev






Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso 
como se de uma arte privada se tratasse. 

A ti, a quem falo de poesia, a ti 
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo, 
que não há nada a compreender, 
porque nada nos condena à fala 
antes que as palavras aconteçam. 

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho 
e nunca terminado: um princípio de verão, 
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas colinas. 

A rua de dia de semana 
e o arquipélago da solidão despertando 
para as poucas coisas que procuro 
e que o poema irá entretecer 
se entretecer. 
A virtude que, cega, 
vai conhecendo o seu caminho. 

Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras, 
e se ficamos tristes não era para ficarmos, 
pois não existem momentos irrepetíveis. 

Eles aninham-se no sangue 
e voltam a mergulhar-nos na experiência: 
um dia de Verão, um bosque, colinas 
onde a serpente de alcatrão se enrola. 
A ausência de tráfego como motivo. 

A pouco e pouco vou recuperando a gravura. 
Agora sei que havia uma ave sobre as colinas, 
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela, 
nos meus poemas. Que havia água, 
o cheiro das inusitadas chuvas 
pela manhã de Junho. 

O rumor da imagem colado aos dedos. 
O ocre escuro das areias espalhado na mesa 
é um símbolo da infância, 
mas não o reconheço ainda. 
O poema é uma enumeração que não teve lugar, 
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso, 
não o reconheço ainda. 

Enquanto isso tem lugar em mim o advento 
do que me define, 
e o barro de que sou feito coze por dentro. 


Luís Quintais
in, A Imprecisa Melancolia




terça-feira, 26 de novembro de 2019

Eu Falo Das Casas E Dos Homens


Kenan Talas






Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava matematicamente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa e ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma 
esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos 
vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição 
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus 
meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite 
à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada... 


Adolfo Casais Monteiro




domingo, 24 de novembro de 2019

O Que Somos





Uma vertigem, 
a dor que não passa, 
um sabor que nos falta, 
uma ardência que nos gasta. 

Por tudo isto nos movemos 
sem conhecer, muito bem, 
o destino final. 

Os amores, 
as estórias que necessitamos contar. 

De repente, 
vindo de um sítio inexplicável, 
alguém nos dá um beijo. 

Duas lágrimas embelezam uma face. 
Partes de um todo escondido.
É quase uma loucura, 
servida numa bandeja de fogo, 
a amálgama de sentimentos 
que faz de nós sua casa. 

Correr como uma criança, 
não olhar aos obstáculos, 
ultrapassar o impossível. 
Dar e pedir colo.

Somos, 
por vezes, 
a impossível convivência. 
Quase bichos. 
A muito estranha maneira de estar. 
A resposta sem sentido. 
As desculpas e o perdão. 
Tudo sem confissão nem genuflexório. 
Só festas e olhares de crianças perdidas. 
A absolvição sem rezas nem sacrifícios. 
Apenas uma dádiva, 
um colar de braços 
e uns lábios que se colam aos nossos. 
Os corpos ligados.

Somos uma montanha russa 
de sentimentos por estabilizar. 
Somos muitas vezes a louca e abrupta descida, 
o looping infernal. 
De cabeça para baixo, 
enchemos a consciência 
de tudo o que nos erra pelo corpo. 
Ficamos prenhes de coisas novas.

Nunca mais seremos os mesmos.


JORGE C. FERREIRA



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Moment


Margaret Atwood
by Tim Walker




The moment when, after many years
of hard work and a long voyage,
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
Climbing the hill, planting the flag, proclaiming.

We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way round.


~ Margaret Atwood





terça-feira, 19 de novembro de 2019

Your Mother Is Always With You





Your mother is always with you…
She’s the whisper of the leaves
as you walk down the street.

She’s the smell of bleach in
your freshly laundered socks.

She’s the cool hand on your
brow when you’re not well.

Your mother lives inside
your laughter. She’s crystallized
in every tear drop…

She’s the place you came from,
your first home. She’s the map you
follow with every step that you take.

She’s your first love and your first heart
break….and nothing on earth can separate you.

Not time, Not space…
Not even death….
will ever separate you
from your mother….

You carry her inside of you….



Sherry Martin 





sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A VIDA





A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.



NUNO JÚDICE
in, TEORIA GERAL DO SENTIMENTO






quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Poem 12 in Gitanjali


Carlo Cafferini






I have been traveling long
My way is also long
When I had first started it was early dawn.
From planet to planet, from star to star
I have left my footprints along a winding path
Through so many hills and dales
Through so many lands.
To come close one has to travel far
It is very difficult indeed
But not to one who is straight at heart.
Traversing many alien countries
The traveler comes to his own land at last
Only after wandering in the outside world
One can find one’s own inner God.

To say, ‘Here you are’,
I looked in so many places, so many ways I walked
But you are there everywhere in this world
Which we flood with tears
Crying, ‘Where are you, O where!’


Rabindranath Tagore
Poem 14
in, The Collection Gitimalya
Transcreation by Kumud Biswas




Encontrei outra tradução, que partilho aqui:



The time that my journey takes is long and the way of it long.

I came out on the chariot of the first gleam of light, and pursued my
voyage through the wildernesses of worlds leaving my track on many a star and planet.

It is the most distant course that comes nearest to thyself,
and that training is the most intricate which leads to the utter simplicity of a tune.

The traveler has to knock at every alien door to come to his own,
and one has to wander through all the outer worlds to reach the innermost shrine at the end.

My eyes strayed far and wide before I shut them and said `Here art thou!'

The question and the cry `Oh, where?' melt into tears of a thousand
streams and deluge the world with the flood of the assurance `I am!'



Rabindranath Tagore
in, Gitanjali
Poem 12
Translation by Bertram Kottmann

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Queixa das almas jovens censuradas





Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.



Natália Correia
in, Antologia Poética





terça-feira, 5 de novembro de 2019

LITANIA DA SOMBRA






Não perguntem nada: nós estamos dentro
do aro de frio, no frio do muro,
tão longe, tão longe da feira do Tempo!
Não perguntem nada.
Nós estamos mudos.

Puseram açaimes nas ventas do vento,
ergueram açudes nas águas do Mar…
Não perguntem nada: nós estamos dentro,
ou fora de tudo.
Não perguntem nada.
Tumulto na estrada? O bicho na concha.
Miséria na casa? O farol na montra.
Não perguntem nada, não perguntem nada:
há sempre de gládios
a ríspida sombra.

Não perguntem nada: as razões são longas.
Não perguntem nada: as razões são tristes.
Não perguntem nada: nós estamos contra.
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.


DAVID MOURÃO-FERREIRA
in, OS QUATRO CANTOS DO TEMPO





domingo, 3 de novembro de 2019

Visto Do Alto






Na estrada do campo há um besouro morto.
Os três pares de patinhas, dobrou-os com esmero sobre o ventre.
Em lugar do desvario da morte - asseio e ordem.
É moderado o horror desta visão,
âmbito rigorosamente circunscrito entre escalracho e menta.
A tristeza não se pega.
O firmamento é azul.

Para nosso sossego, é uma morte como que mais chã
há um morrer para os homens outro para os bichos,
que perdem - queremos crer - menos sentido e mundo,
ao partirem - quer-nos parecer - de um palco menos trágico.
As suas almas miudinhas não nos assustam as noites,
respeitam distâncias,
conhecem os usos.

E eis aqui este besouro morto no caminho,
num estado indeplorável, luzindo a um ínfimo sol.
Pensa-se nele o simples tempo de o avistar:
parece que não lhe sucedeu nada de importante.
Parece que o importante só a nós diz respeito.
Para vida que é só nossa, uma morte só nossa,
morte que goza de prioridade absoluta.


Wislawa Szymborska
in, Um amor Feliz






sábado, 2 de novembro de 2019

Com a Altura da Idade a Casa se Acrescenta





Com a altura da idade a casa se acrescenta.
Não é que aumente a quantidade ao espaço.
Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
maior distância quando se fica a olhá-lo.
Ou, se quiserem, uma realeza
se instala à volta dessa altura de anos,
de forma a que os objectos apareçam
na luz de quase já nem os amarmos.
Então a casa distende-se na intensa
inteligência de estarmos
a ver as coisas amarem-se a si mesmas.
Ou com a forma a difundir seu espaço.


Fernando Echevarría
in, Figuras