quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

OS AMIGOS


Venkat Reddy




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor



José Tolentino Mendonça 
in, A Noite Abre Meus Olhos






terça-feira, 28 de janeiro de 2020

SONETO





Também eu tenho um "hobby": é viver
minuto após minuto a minha vida,
se possível do lado em que souber
que vale mais a pena ser vivida.

Já deixei de sonhar com andorinhas
e com o deus à venda nos prospectos.
Recuso-me a entrar em capelinhas
pois faço à transparência os meus projectos.

Sei bem que os incapazes me detestam
e nem os preguiçosos aguentam
comigo a funcionar a todo o gás.

Contudo, cada um vale o que vale.
Porquê ambicionar ser imortal
se nunca saberei se fui capaz?



JOAQUIM PESSOA
in, SONETOS PERVERSOS





segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

São Sebastião





Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.


Rainer Maria Rilke






quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MAN versus WOMAN






"A man has got to do
What a man has got to do.
And a woman?
A woman has got to do
Even more!
Celebrate your humankind
Or celebrate your womankind?
She is where we come from
She is who we go to
Looking for protection
Looking for love
Looking for everything
Looking for who we are.
Finding our source
Finding our missing half
Looking ahead
One with each other
Parallel paths
Joint efforts
Strong bonds
Even if invisible
But there
Always.
What must we prove?
That we are different
But the same
Under the deep blue sky.
Even. Forever."






terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Metamorfose


Laura Zalenga



Ao pé dos cardos sobre a areia fina 
que o vento a pouco e pouco amontoara 
contra o seu corpo (mal se distinguia 
tal como as plantas entre a areia arfando) 
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto? 
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas, 
quantos luares nas águas ou nas nuvens, 
tisnado haviam essa pele tão lisa 
em que a penugem tinha areia esparsa? 
Negros cabelos se espalhavam onde 
nos braços recruzados se escondia o rosto. 
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos 
no breve espaço em que o seu bafo ardia? 
Mas respirava? Ou só uma luz difusa 
se demorava no seu dorso ondeante 
que de tão nu e antigo se vestia 
da confiada ausência em que dormia? 
Mas dormiria? As pernas estendidas, 
com um pé sobre outro pé e os calcanhares 
um pouco soerguidos na lembrança de asas; 
as nádegas suaves, as espáduas curvas 
e na tão leve sombra das axilas 
adivinhados pêlos... Deus ou deusa? 
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto? 
Ou não dormia? Ou não estaria ali? 
Ao pé dos cardos, junto à solidão 
que quase lhe tocava do areal imenso, 
do imenso mundo, e as águas sussurrando - 
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa? 
Imagem, só lembrança, aspiração? 
De perto ou longe não se distinguia.



Jorge de Sena




domingo, 19 de janeiro de 2020

Recordação





E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
            de certo ano que passou.            


Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Canção do Cego







Sou cego – escutem – é uma maldição,
um contrassenso, uma contradição,
não é uma doença qualquer.
Eu ponho a mão no braço da mulher,
minha mão cinzenta no seu cinza gris,
e ela só me leva para onde eu não quis.
Vocês andam, volteiam e gostam de pensar
que fazem um som diferente em seu andar,
mas estão errados: eu sozinho
vivo e vozeio o vazio.
Trago comigo um grito sem fim
e não sei se é a alma ou são as entranhas
o que grita em mim.
Já cantaram esta canção? Ninguém o saberia,
ao menos não com este acento.
Para vocês uma luz nova todo dia
vem e aquece o claro aposento.
E de olhar a olhar passa aquela energia
que induz à indulgencia e ao alento.


Rainer Maria Rilke




domingo, 12 de janeiro de 2020

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO






Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Carlos Drummond de Andrade




sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

As Palavras






Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde

As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco

Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas

Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?

As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos

As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras?Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas

As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana

As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado

Que enfrentam as palavras?O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas.



António Ramos Rosa
in, Gravitações






quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Tecemos a nossa Essência





Tecer o dia que nasce;
Uma tarde que se transforma;
Uma noite que se prepara e chega...
Lua que pode mudar e dar formas.
Tecemos a nossa linha de equilíbrio
E saudamos a sabedoria dos nossos ancestrais.
Tecer o que foi perdido e agora mais do que nunca encontrado.
Tecemos a jornada da alma
Para nos sentirmos eternamente plenos.
Tecer... Tecemos e continuaremos a tecer...
As buscas em movimentos,
Assim como as nossas formas...
Hoje sou uma lebre,
Amanhã um lobo, aranha por uma vida inteira.
Corujas sábias...
A Donzela que está em meu coração,
A Mãe que em meu ventre encontro,
Anciã na mente e na sabedoria.
Procuramos a força da água em nosso corpo
Que encontramos em nosso sangue e saliva;
O fogo, o calor do nosso corpo,
Assim quando juntamos as nossas mãos e as aquecemos;
A terra, nosso corpo físico, abraçar as árvores,
Sentir a terra sob os nossos pés;
Ar, nossa respiração, o sopro da inspiração.
Tecemos o nosso dia, a nossa vida, buscamos a totalidade...
Assim dançamos com a nossa vida, com os sentires, com a nossa inspiração.
Dançamos como mulheres Aranhas...
Com os fios que tecem...
Com a energia em movimento...
Com os nossos ciclos...
Tecer cada dia um novo fio...
As descobertas que brilham em nossa alma e se transformam em essência.
Então, vamos dançar cada fio que tecemos!? 


Alëssah Ní Mór-Ríogain






quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Nosso Medo Mais Profundo





Nosso maior medo não é sermos inadequados. 
Nosso maior medo é não saber que nós somos poderosos, 
além do que podemos imaginar.
É a nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos assusta. 

Nós nos perguntamos: 
“Quem sou eu para ser brilhante, lindo, talentoso, fabuloso?”.
Na verdade, quem é você para não ser? 
Você é um filho de Deus.

Você, pensando pequeno, não ajuda o mundo. 
Não há nenhuma bondade em você se diminuir, 
recuar para que os outros não se sintam inseguros ao seu redor.

Todos nós fomos feitos para brilhar, como as crianças brilham. 
Nós nascemos para manifestar a glória de Deus dentro de nós. 
Isso não ocorre somente em alguns de nós; mas em todos.

Enquanto permitimos que nossa luz brilhe, 
nós, inconscientemente, 
damos permissão a outros para fazerem o mesmo.
Quando nós nos libertamos do nosso próprio medo, 
nossa presença automaticamente libertará outros.



Marianne Williamson
in, A Return To Love







segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

SONETO SUPERDESENVOLVIDO






É tão suave ter bons sentimentos 
consola tanto a alma de quem os tem 
que as boas acções são inesquecíveis momentos 
e é um prazer fazer bem 

Por isso se no verão se chega a uma esplanada 
sabe melhor dar esmola que beber laranjada 
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada 

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu 
independentemente da maneira como se alcançou 
ainda por cima se tem lugar garantido no céu 
gozo acrescido ao muito que se gozou 

Teria este (se não tivesse outro sentido) 
ser natural de um país subdesenvolvido


Ruy Belo