sábado, 29 de fevereiro de 2020

SEM FORMA





Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


Adam Zagajewski






sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ODE À MULTIPLICIDADE



Anh Nguyen 





Não compreendo tudo e até
me alegro por o mundo — como um irrequieto
oceano — superar a minha capacidade
de entendimento do sentido da água, da chuva,
dum mergulho no Lago do Padeiro, perto
da fronteira entre a Alemanha e a Chéquia, em
Setembro de 1980; um pormenor, sem grande
importância, um profundo lago germânico.
Deixem o não-oxigenado Ego serenamente
respirar, deixem o nadador cortar a linha
do meridiano, é de noite, os mochos acordam
do sono diurno, ao longe
preguiçosamente rodam os carros. Quem alguma vez
tocou a filosofia, está perdido,
não o salvará o poema, há-de
ficar sempre um resto, um arrependimento, uma saudade
impossível de quantificar. Quem alguma vez adquiriu a noção da desvairada
corrida da poesia não vai conhecer nunca mais
o pedregoso sossego da prosa familiar,
em que cada capítulo é o ninho
duma geração. Quem alguma vez viveu não
se vai esquecer do mutável prazer das estações
do ano, até com as bardanas e as urtigas
há-de sonhar, e com as aranhas não muito
mais feias do que as andorinhas. Quem alguma vez deparou
com a ironia vai-se rir às gargalhadas
durante a conferência do profeta. Quem alguma vez
rezou com mais do que uma boca seca
há-de lembrar-se para sempre da presença dum estranho eco
proveniente de uma das paredes. Quem alguma vez
ficou calado, não vai querer falar
no momento da sobremesa, quem ficou paralisado pelo choque
do amor há-de voltar aos livros de
rosto transfigurado.
Ergues-te, ó alma singular, perante
o excesso. Dois olhos, duas mãos,
dez engenhosos dedos e
um único Ego, um gomo de laranja,
a mais jovem das irmãs. O prazer
de ouvir não estraga o prazer
de olhar, mas a embriaguez da liberdade corrompe
o sossego dos restantes e suaves sentidos.
Sossego, espesso nada, cheio de doce
sumo como as peras em Setembro.
Os breves instantes de felicidade desaparecem
sob uma avalanche de oxigénio, no Inverno a gralha-calva
solitária golpeia com o bico o branco
gelo da lagoa, noutro momento
um par de pica-paus assustados
com um machado procura para lá
da minha janela um choupo suficientemente doente.
Uma mulher ausente escreve longas
cartas e a saudade intumesce como
ópio; no museu egípcio num papiro
castanho está espalhada essa mesma
saudade, mais velha alguns milhares
de anos, inabalável e inabalada.
As cartas de amor acabam sempre
no museu. Os curiosos são mais
tenazes do que os apaixonados. O Ego
sorve o ar com avidez, a razão acorda
do sono diurno, o nadador sai
da água. Uma bela mulher faz o papel
duma mulher feliz, os homens fingem ser
mais corajosos do que realmente são,
o museu egípcio não esconde as fraquezas
humanas. Existir, oxalá se possa ainda existir,
entregando-se talvez ao poder
duma das estrelas frias. E às vezes
troçar dela, por ser fresca e escorregadia
como uma rã num charco. O poema cresce
na contradição mas não consegue recobri-la.



Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Tão Miseráveis


Nicolas Bruno




Porquê tanta mentira, tamanhos disfarces,
tanto veneno corrompendo a nossa vida,
e os dias que passam,
e as nossas bocas seladas para a palavra de amor e de carinho?
Porquê o silêncio quando estuamos de amor,
a máscara, a voz contrafeita, o falar doutra coisa?
Que maldição nos corrompe
para assim nos fecharmos no quarto enregelado?

Miséria... e os dias passam
e a vida vai tecendo à nossa volta o seu arame farpado,
e lá vamos,
a boca fechada, a palavra intacta,
tão miseráveis que nem sabemos já da nossa degradação...


Adolfo Casais Monteiro  






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Explicação da Espera



Luiz Laercio




Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O Frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.

Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!


DANIEL FARIA
in, POESIA 




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Fonte de Sangue






Parece-me, por vezes, que o meu sangue escorre
Em ritmados soluços, tal como uma fonte.
Oiço-o tão bem escorrer com um murmúrio infinito,
Mas apalpo-me em vão para encontrar a ferida.

Através da cidade, como num baldio,
Lá vai ele, transformando as calçadas em ilhas,
Satisfazendo a cada criatura a sede
E avermelhando em todo o lado a natureza.

Pedi já várias vezes a capciosos vinhos
Que acalmem por um dia o terror que me mina;
O vinho aclara a vista e afina o ouvido!

Procurei no amor um sono e um olvido;
Mas o amor é um colchão de agulhas, para mim,
Só pra dar de beber às cruéis raparigas!



Charles Baudelaire
in, As Flores do Mal





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Eu TA NÁ SIA


Luisa Azevedo






Tinha receio da morte até que a vida me cansou.
Até que maldisse a sorte e a vida me desgastou
ao ponto de sofrer

Este candelabro, corpo físico da minha dor,
já não sustenta a vela a arder, Alma flamejante.
E se nada se reinventa, tudo é sem cor doravante
e ante o nada, nada a fazer,
que dor não é futuro,
que a dor não é viver.

E se nada é o que já foi, nada é, e nada resta,
o que nos prende? que vida é esta?
- Esta vida já findou.

Que a chama desta vela suba aos céus e se liberte,
que fuja no desacerto do que fui e do que sou,
que se liberte do corpo que a cercou
que desperte, a bendita Alma, que desperte,
desta massa falida que restou.

Que me liberte então o apego mundano do que fui,
os laços daqueles que tanto me amam,
dos tantos que me odeiam
dos tantos que me esqueceram,
dos tantos que venci,
dos nem tantos que me venceram.

Que seja egoísta por um dia, um dia derradeiro,
um dia que seja o último e na fé se torne o primeiro

Se só chega quem parte,
que o medo de ficar vença o medo de partir

Por vontade, deixem que a minha Alma,
a minha Alma parta a sorrir!



JOÃO MORGADO
in, CONTINUUM - ANTOLOGIA POÉTICA





terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O torso arcaico de Apolo


Torso de Miletus (c. 480-70 a.C.). 
Louvre, Paris.





Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.


Rainer Maria Rilke






sábado, 15 de fevereiro de 2020

Dia 284






Estou vivo. Poderei acreditar nisso? Sei apenas que me
encontro no centro das coisas. No limite das coisas. Onde
gerações de mortais têm falhado. Lanço-me na inquietação,
vou ardendo nos troncos que alimentam as fogueiras brancas
do futuro. A poesia pode levar-me a casa. Os meus joelhos,
os meus ombros, estão próximos da linguagem, do sangue
dos sentidos, da irrepetível história do universo. Surpreende-me
a alegria da lâmpada, os animais que bebem da fonte do
crepúsculo, a hesitação e o medo que se abraçam nas esquinas,
a complexidade do que é simples. Também eu tenho um
punhal na minha gaveta. É um verso de Browning, uma lâmina
dramática e fria para o frio da língua. A felicidade está doente,
o frio dos meus joelhos sabe-o, é grande a coragem dos que
ainda querem saber das coisas, dos que não se interessam
pela purificação da ignorância e do esquecimento.
Sou amante do meu próprio amor, gosto de aplaudir a vida
recolhido na minha cabana cheia de estrelas e de amigos, a
minha memória é um cristal irreverente e interminável.
No dia seguinte do dia seguinte do dia seguinte, encontrarei a
saída do labirinto e saberei finalmente se, fora de mim, existe
um segredo, um qualquer segredo que eu deveria conhecer e
não poderia nunca ter esquecido.
A minha vida escapa-me mas, na verdade, só o que eu não sei
me preocupa.



JOAQUIM PESSOA
in, ANO COMUM





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A Pedreira





1.
Como nascer?
Buscarei a luz que corre como a água
sobre as pedras dos montes, dizendo: está seco,
está seco,
está seco o leito do rio,
de imediato tropeçarei,
de imediato, como um menino,
contra uma corda tensa,
tropeçarei contra o umbral,
uma água irá ferir meu coração,
tirar-me-á a paz.

Procurar a fonte?
Ou andar, andar sempre,
seguir o curso da água,
nunca se opor à onda?

E opor-se é já confessar?

Talvez nasça primeiro o pensamento,
o grande esforço
(como quando tentamos
abrir a porta contra o vendaval ou quando queremos
amarrar uma barca
a uma frágil estaca, contra a corrente).

2.
Devo sempre pensar eu no todo
até ao fim, sempre, sempre?

Não posso eu pensar
só em mim, no meu bem-estar?

Não posso dizer:
sou um caso raro?

É necessário sempre recordar
que não sou mais que um ser
contingente e transitório?

3.
Se a verdade estiver em mim, deve fulgir.
Não a posso esconder, ao escondê-la
ocultaria a minha pessoa.

4.
(Pensando num caminho de madeira para a travessia )
Penso num caminho de madeira
em que dou os meus passos.
Será esse caminho o meu coração vibrante de emoções
como ele feito de junturas?
Será o meu pensamento um caminho para a travessia ?
(Penso propriamente no que
busca o meu coração,
e não sei se estou
mais repleto de emoções ou de conhecimento.)

Tudo já acontece neste caminho.
Embora o meu caminho seja multo diferente.
Oscilo de outro modo.
Sinto o vento
como outro vento que me fere.

Força e debilidade
gritam-me,
a minha força é o contraste, é um fruto
da minha debilidade, o mundo
entende-o de outro modo.

Por cima da água, veloz, voando,
este caminho aferra-se tenazmente às margens.

Este eixo é uma imagem
de quem o ultrapassa.
Molha-se em cada onda.
E vibra sempre que os elementos
se entrechocam, treme.

Nela o homem esquece
o peso das horas, suspensas no alto
e correndo para baixo.

5.
E, no entanto, estou de pé. Visto-me
com o perfil das ondas
que passam e me deixam sempre aqui.

É outro o meu movimento.
Além brilha a minha imagem, a minha figura fechada
no seu parêntesis transparente.
Aqui está a minha verdade, rubrico-a
com a minha vida, o meu sangue.

6.
Espera. Tem paciência.
Eu te convoco de todos os leitos dos rios,
das nascentes da luz,
das raízes das árvores
e das planícies ao sol.

E tudo existe em mim.
Em mim o espanto, em mim a espera.

Quando o meu peso dual
encontrar a minha profundidade
transparente, ninguém
poderá dizer que simplifico.



KAROL WOJTYLA
in, A PEDREIRA E OUTROS POEMAS





segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

SE EU FOSSE A TI







Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, seu fosse a ti.


Juan Vicente Piqueras





quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Instruções para sair do deserto






Não fujas do que sentes. Não te escondas 
no que dizes. Não digas mentiras.
Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes. 
Não sofras por medo de sofrer mais.
Não mendigues jamais o que mereces.
Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.
Funda no fogo firme da su fogueira
o teu lar, o teu ofício. E agradece ao ar
que entre e saia de ti. Sê a janela
do que vive. Olha com cuidado.
Há olhares que podem envenenar o mundo.
Não deixes que apodreça o que sentes
dentro de ti. Faz exame de consciência
de vez em quando mas nunca esqueças
que é possível que sejas inocente.
Abre o teu coração couraçado 
à união do céu com o mar,
da luz com a sombra,
do canto dos grilos com o das cigarras.
Pinta de azul a alma. Troca
o que foste pelo que não serás.
Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.
Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.
Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.
As dos pés também, no mar, em marcha.
Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,
as tuas pegadas de amanhã, esperam-te, chamam por ti.
Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua
de sal. E sai de ti, do que pensas
de ti. Sai desse quarto
escuro onde escreves os poemas 
que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.
Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Vira a página. Vê. Olha. Sê atento
e fica atento. Não esqueças o que vives .
Não esqueças o que acabas de viver.
Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai
em busca de uma voz nova, longínqua.
Não fujas do que sentes. Não permitas 
que a vida se perca no vazio,
que a morte ao chegar encontre 
já feito o seu trabalho. Olha o céu 
como quem diz adeus,
como quem agradece.


Juan Vicente Piqueras





sábado, 1 de fevereiro de 2020

Come As You Are







Come as you are,
tarry not over your toilet.
If your braiding has come loose, 
if the parting of your hair be not straight, 
if the ribbons of your bodice be not fastened, 
do not mind.
Come as you are, 
tarry not over your toilet.

Come with quick steps over the grass.
If your feet are pale with the dew, 
if your anklets slacken, 
if pearls drop out of your chain, 
do not mind.
Come with quick steps over the grass.

Do you see the clouds wrapping the sky?
Flocks of cranes fly up from the further riverbank and 
fitful gusts of wind rush over the heath.
The anxious cattle run to their stalls in the village.
Do you see the clouds wrapping the sky?

In vain you light your toilet lamp; 
it flickers and goes out in the wind.
Surely, 
who would know that 
with lamp-black your eyelids are not touched? 
For your eyes are darker than rain clouds.
In vain you light your toilet lamp; 
it goes out.

Come as you are, 
tarry not over your toilet.
If the wreath is not woven, who cares? 
If the wrist-chain has not been tied, 
leave it by.
The sky is overcast with clouds; 
it is late.
Come as you are, 
tarry not over your toilet.


Rabindranath Tagore