domingo, 29 de março de 2020

The things that count


William Smith 





Now, dear, it isn’t the bold things,
Great deeds of valour and might,
That count the most in the summing up of life at the end of the day.
But it is the doing of old things,
Small acts that are just and right;
And doing them over and over again, no matter what others say;
In smiling at fate, when you want to cry, and in keeping at work when you want to play -
Dear, those are the things that count.

And, dear, it isn’t the new ways
Where the wonder-seekers crowd
That lead us into the land of content, or help us to find our own.
But it is keeping to true ways,
Though the music is not so loud,
And there may be many a shadowed spot where we journey along alone; 
In flinging a prayer at the face of fear, and in changing into a song a groan -
Dear, these are the things that count.

My dear, it isn’t the loud part
Of creeds that are pleasing to God,
Not the chant of a prayer, or the hum of a hymn, or a jubilant shout or song. 
But it is the beautiful proud part 
Of walking with feet faith-shod; 
And in loving, loving, loving through all, no matter how things go wrong; 
In trusting ever, though dark the day, and in keeping your hope when the way seems long -
Dear, these are the things that count.


Ella Wheeler Wilcox






sexta-feira, 27 de março de 2020

Sedento


Alexander Lefler




Havia meses que não escrevia 
nem um único poema. 
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder 
e nas causas da obediência. 
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação), 
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
e o silêncio da noite. 
Via os girassóis a pendurarem 
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído 
passeasse por entre os jardins. 
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos 
se escondiam nas curvaturas dos muros. 
Dava longos passeios, 
sedento duma coisa só:
dum relâmpago, 
duma mudança, 
de ti. 



Adam Zagajewski






sábado, 21 de março de 2020

O quadro do futuro






Havemos de ir ao futuro
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar no sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram
Os nossos avós a encher de luzes a árvore de natal
Os nossos filhos, e os filhos deles
espantados e atrevidos como nós
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar todos juntos numa festa à nossa espera
mesmo os amigos que perdemos no caminho
Hão-de lá estar todos com balões de várias cores, bolo-rei
e ao fundo da sala um cartaz do tamanho da nossa idade
onde se lê: ainda bem que vieram
Havemos de ir juntos ao futuro
ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo
havemos de nos encontrar lá
Havemos de ir ao futuro e, no futuro, 
estará finalmente tudo, como dantes.


Filipa Leal
in, «Vem à quinta-feira»



terça-feira, 17 de março de 2020

Estas Almas Incertas






Quero um mal de morte
A estas almas incertas.
Tortura-as a honra que vos fazem,
Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores.
Porque não vivo
Preso à sua trela,
Saúdam-me com um olhar agridoce.
Onde passa uma inveja sem esperança.

Ah! Porque não me amaldiçoam!
Porque não me viram francamente as costas!
Aqueles olhos suplicantes e extraviados
Hão-de enganar-se sempre a meu respeito.



Friedrich Nietzsche
in, "A Gaia Ciência"







domingo, 15 de março de 2020

O Solitário





Detesto seguir alguém assim como detesto conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca!
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a
          ninguém,
E só aquele que o inspira pode comandar.
Já detesto guiar-me a mim próprio!
Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
De me perder durante um grande pedaço,
Acocorar-me a sonhar num deserto encantador,
E forçar-me a regressar de longe aos meus penates,
Atrair-me a mim próprio... para mim.


Friedrich Nietzsche
in, "A Gaia Ciência"






quarta-feira, 11 de março de 2020

O encantador de serpentes





Quando na praça, ondeando, o encantador
toca a flauta que embala e entorpece,
às vezes ele atinge ao seu redor
alguém, em meio à turba, e o adormece,

e o faz entrar no círculo da flauta,
que quer e quer e quer e vai e volta,
até que emerja a cabeça alta
do réptil, que do seu cesto se solta,

alternando tontura e lassidão,
o que expande e tensiona e o que represa —;
basta um olhar daquele indiano, então,
para infundir no outro uma estranheza

que te mata. Como se de repente
o céu caísse. De súbito estrias
racham-te o rosto. Há especiarias
na memória boreal e a tua mente

de nada serve. Inútil, a magia.
O sol fermenta, vêm febres ferventes,
os raios têm maléfica alegria
e o veneno cintila nas serpentes.


Rainer Maria Rilke





terça-feira, 10 de março de 2020

Um Mover De Mão







se ao menos eu sentisse totalmente 
o movimento da terra em volta do sol. 
se eu pudesse conhecer o segredo 
da germinação sem roubar da terra 
a vida enorme, o rebentar largamente. 

se me fosse permitida a amplitude, 
a alegria, o agora das planícies 
em fim de tarde, e eu não mais 
precisasse de trabalhar a atenção, 
assim descalço sobre a realidade. 

promete-me que amanhã virá a lua 
e que, na imensidão da noite iluminada, 
cantaremos o mar um para o outro. 

promete-me que no fim terei existido.


Vasco Gato
in, Contra Mim Falo





sexta-feira, 6 de março de 2020

RECONHECIMENTO DO AMOR





Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não queiras a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido
na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.

Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE





terça-feira, 3 de março de 2020

O Futuro





Aos Domingos, iremos ao jardim. 
Entediados, em grupos familiares, 
Aos pares, 
Dando-nos ares 
De pessoas invulgares, 
Aos Domingos iremos ao jardim. 
Diremos nos encontros casuais 
Com outros clãs iguais, 
Banalidades rituais 
Fundamentais. 
Autómatos afins, 
Misto de serafins 
Sociais 
E de standardizados mandarins, 
Teremos preconceitos e pruridos, 
Produtos recebidos 
Na herança 
De certos caracteres adquiridos. 
Falaremos do tempo, 
Do que foi, do que já houve... 
E sendo já então 
Por tradição 
E formação 
Antiburgueses 
- Solidamente antiburgueses -, 
Inquietos falaremos 
Da tormenta que passa 
E seus desvarios. 

Seremos aos domingos, no jardim, 
Reaccionários.


Reinaldo Ferreira




domingo, 1 de março de 2020

Lamento De Uma Jovem

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A inclinação que nos vem do passado,
quando crianças, sempre tão constante,
de sermos sós, era algo delicado;
para os demais era luta cada instante,
e cada qual tinha o seu lado,
o seu perto, o seu distante,
um chão, um cão, um quadro.

E eu ainda achava que a vida
nunca cessaria de doar,
e que é em nós mesmos nosso lar.
Não sou em mim a minha preferida?
O que é meu não há mais de ter confiança
e me entender como quando era criança?

Súbito, estou como entre alheios,
e em algo que me ultrapassa
a solidão se muda em mim,
quando, do alto dos meus seios,
meus sentimentos clamam por asas
ou por um fim.


Rainer Maria Rilke