segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Solitário







Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.


Rainer Maria Rilke
in, "O Livro das Imagens"





sexta-feira, 24 de abril de 2020

Inteligência Bruta






Regulando a inteligência um pouco abaixo
não é que perca força, mas algo se aproxima
do escuro. Talvez por haver sombras mais de perto

a vida em parte dói, em parte morre, e a atenção
começa a ser movida pelas iras. De tão forte
há crescimento de armas, golpes assustados
e aquele que persegue acaba por sangrar.

O sangue mancha tudo e excita o que era limpo
e cheirando a sangue o predador procura luras
escava o que magoa, remexendo em mais profundo.

São vastos os poderes de uma inteligência bruta
soprando grande império em devastação no mundo.


Carlos Poças Falcão





quinta-feira, 23 de abril de 2020

DEMORA





hoje seremos outros ao acordar:
da janela aberta, orquestrando nevoeiros,
escutaremos o sibilar insuspeito da penumbra
a inquietude do acorde menor
escreverá a letras de fogo a solidão das asas.

dormes um pouco mais:
um gotejar de vazio convence-te a ficar
mas nada explica esta demora
o corpo terno hibernando de mansinho
dando um indefeso descanso à sombra diligente

lá fora o dia acossado pelo medo à mercê das luzes estridentes
e aqui a tua pele espreguiça quente, beijando os lençóis descartáveis
enquanto os músculos se rendem a este crime perfeito perpetrado
a bandeira a meia-haste no palácio do sono
protege o casulo transparente em que habitas por agora

sem arrependimentos,
perdemos a tinta fresca do café,
as fotografias anónimas no túnel do marquês
e o paciente virar dos placares publicitários
amanhã vou entregar-me à deriva

deixarei de ser bicho-de-conta sem pressa
e procurarei abrigo nas paragens de autocarro



RICARDO GIL SOEIRO
in, CALIGRAPHIA DO ESPANTO




quarta-feira, 22 de abril de 2020

Males de Amor






as cordas da roupa estão lassas.
não sei porquê.
nada penduro nelas de pesado.
o que se despe
é sempre mais leve
do que o muito que se guarda.
tenho de encontrar alguém que as repare.
aproveito e verá também o chuveiro.
há muito que pinga.
como este indomável e constante dizer
em que caio
para não sufocar.
o dia está abafado
e eu assim me sinto.
meio asfixiado.
tenho de encontrar quem desbloqueie a janela.
está empenada.
tal como as articulações [ou serão os músculos?],
os dias e, tantas vezes, os sonhos.
estão cansados.
não sei se mais os primeiros, se os últimos.
e eu também.
canso-me facilmente.
a subir os dias,
a pendurar os sonhos,
a encharcar-me de memórias.
a pulsação acelera
e eu…
tenho de ver se encontro alguém que me veja isto.
já fui a uma cardiologista
mas ela confessou pouco saber de amor.


João Costa





domingo, 19 de abril de 2020

A si próprio, para o seu diário





Primeiras horas da manhã; ainda não escreves
(nem tentas escrever), preguiçosamente lês apenas.
Tudo é imóvel, sossegado, cheio, como
se fosse uma prenda oferecida pela musa da lentidão,

como aquele tempo, na infância, nas férias, quando durante muito tempo
se estudava o mapa colorido antes da excursão, o mapa
que tanto prometia,

ou mesmo antes de adormecer, quando ainda não há sonhos,
mas já se pressente o sobrevir deles de várias partes do mundo,
a marcha deles, o peregrinar, o velar deles ao pé da cama do doente
(doente de vigília) e a animação entre figuras medievais

contraídas numa eterna imobilidade por cima da catedral;
as primeiras horas da manhã, o silêncio
                                                               - ainda não escreves,
ainda tanto percebes.
                                  Aproxima-se a alegria.




Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras






quarta-feira, 15 de abril de 2020

TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO


İlhan Maraşlı





Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia.
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


Adam Zagajewski







segunda-feira, 13 de abril de 2020

Elegíacos






Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.


Fiama Hasse Pais Brandão
in, Cenas Vivas





domingo, 12 de abril de 2020

Páscoa






pai chão. 
sexta-feira. o dia em que, dizem, mataram o cristo. 
não sei se mataram. oiço-o, vivo, a pulsar por aí. 
vejo-o, sol, a romper e a aclarar as manhãs. 
sinto-o, presente, nos que se alinham com a substância divina.
homem.
gerado não criado e consubstancial ao pai.
milagre.
metáfora.
chão que pisamos, nós todos, por via da mãe.
o mistério da fé que permanece mistério 
apenas para os que não acreditam. 
não que o mataram, mas que nasceu, numa jerusalém do amor, 
o país sem fronteiras dos que abrem os braços aos outros.
a paixão da entrega, a confiança no bem, o reino que não terá fim, 
sempre que ressuscitarmos para a vida.
a paz esteja contigo.
a páscoa.

'pessah', em hebraico, 
que significa passagem e nós a caminho. 
passageiros sempre em trânsito, 
de um lado para o outro, 
de uma estação para a seguinte, 
de colo em colo, mão em mão, 
criando pontes, laços, afectos.

anunciamos a nossa morte, 
proclamamos a nossa ressurreição, 
guia-nos a consciência do nosso mistério ou,
 se assim não for, 
seguimos surdos e cegos, 
às apalpadelas no escuro.
sem pai e sem mãe 
e sem céu e sem chão.
crucificados.
e aquém, muito aquém, do amor. 


Inês de Barros Baptista





sábado, 11 de abril de 2020

Confusão





Pelos caminhos incertos
dum país de sonho e bruma
vou desvairado à procura
de qualquer coisa que sinto
fugir-me por entre os dedos.
Não sei bem o que persigo
- e que importa isso à vida? -
o essencial é apenas
perseguir alguma coisa
para não ser absurdo
o tanto tempo perdido
a divagar neste mundo.


Adolfo Casais Monteiro





quinta-feira, 9 de abril de 2020

A Intimidade do Sono







Acalmam-se os ventos,
as tempestades das ideias,
a desconexão dos nortes.
Acordar é, também, a surpresa
de se ter viajado nos caminhos do sono
onde se revela a existência
de outros mundos em paralelas existências.

Deixem-me acordar devagar
neste mundo incorrecto.
Deixem-me acordar sem neuras
nesta pressa de viver até morrer.
Deixem-me o sabor nectariano
das memórias ou, então, deixem-me
o entendimento de simbólicos pesadelos
para recordar o erro.

Deixem-me a saudade
do regresso. A preparação futura
da reintegração. Deixem-me
pelo menos os orvalhos sem ácidos,
as madrugadas iniciáticas
e deixem-me o caminho
das experiências onde me resolvo
no entendimento com o eterno
que dentro de mim reside.

Deixem-me a Obra por realizar
esta busca do Ouro da palavra.
Este mistério de nos dizermos
desde que princípio.
Deixem-me o poder das falas,
da comunicação, deixem-me
sem ódios e só com o laboratório das ideias.
Deixem-me a possibilidade das trocas
e que cada câmbio seja notícia de paz.
Deixem-me acordar
dentro do meu Paraíso.


LUÍS FILIPE SARMENTO
in, A INTIMIDADE DO SONO






terça-feira, 7 de abril de 2020

POR MUITO TEMPO ACHEI QUE A AUSÊNCIA É FALTA





Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, 
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, 
essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade





sexta-feira, 3 de abril de 2020

Vivo na esperança de um gesto







Vivo na esperança de um gesto 
Que hás-de fazer. 
Gesto, claro, é maneira de dizer, 
Pois o que importa é o resto 
Que esse gesto tem de ter. 
Tem que ter sinceridade 
Sem parecer premeditado; 
E tem que ser convincente, 
Mas de maneira diferente 
Do discurso preparado. 
Sem me alargar, não resisto 
À tentação de dizer 
Que o gesto não é só isto... 
Quando tu, em confusão, 
Sabendo que estou à espera, 
Me mostras que só hesitas 
Por não saber começar, 
Que tentações de falar! 
Porque enfim, como adivinhas, 
Esse gesto eu sei qual é, 
Mas se o disser, já não é... 


Reinaldo Ferreira




quinta-feira, 2 de abril de 2020

NÓS SOMOS




Como uma pequena lâmpada subsiste 
e caminha no vento, nestes dias, 
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo. 

Caminhamos, um país sussurra, 
dificilmente nas calçadas, nos quartos, 
um país puro existe, homens escuros, 
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, 
uma terra existe nesta terra.

Como uma pequena gota às vezes no vazio, 
como alguém só no mar, caminhando esquecidos, 
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, 
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, 
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor, 
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos, 
uma voz num portal e a manhã é de sol.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, 
uma carta que segue, um bom dia que chega, 
hoje, amanhã, ainda, a vida continua, 
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, 
nas mãos que se dão, nos punhos torturados, 
nas frontes que persistem. 


António Ramos Rosa
in, "Sobre o Rosto da Terra"







quarta-feira, 1 de abril de 2020

Do Tempo ao Coração


Anek S




Morte, que te insinuas
como um navio torto,
avançando às escuras
no meu corpo,

do teu cruzeiro turvo
as rugas do meu rosto
vão marcando o percurso
rancoroso!

Conheces-me por dentro.
Por fora me assinalas.
E contas com o tempo.
E tens mapas

do regime dos ventos.
E gráficos. E cartas.
E não te impacientas,
porque sabes,

de antemão sabes tudo:
desde o começo, o porto
melhor para o mergulho
da âncora no lodo!




David Mourão-Ferreira