segunda-feira, 29 de junho de 2020

And so on, and so forth






Mas vejam que miséria quando o clube
perde em casa, quando chove no molhado
do recreio a tarde toda, quando o carteiro

faz greve e o outono se insinua –
vejam que miséria este défice de razões
para pôr em movimento a roda perra

do dia, esta pomba trucidada pela ambulância
que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta
transfigura – mas vejam que miséria

quando a arte não resgata e a orquestra
não anima e o amor torna mais árdua
a triste faina da vida.


Rui Pires Cabral




sexta-feira, 26 de junho de 2020

UM CORPO QUE SE AMA






Para quem o deseja e quem o ama

 um corpo é sempre belo no seu esplendor

 e tudo nele é belo porque é sagrado

 e, mesmo na mais plena posse, inviolável.


Um corpo que se ama é uma nascente viva

 que de cada poro irrompe irreprimível

 e toda a sua violência é a energia ardente

 que gerou o universo e a fantasia dos deuses.


Tudo num corpo que se ama é adorável

 na integridade viva de um mistério

 na evidência assombrosa da beleza

 que se nos oferece inteiramente nua.


Não há visão mais lúcida do que a do desejo

 e só para ela a nudez é sagrada

 como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.

 Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.


ANTÓNIO RAMOS ROSA

in,  A ROSA INTACTA






quarta-feira, 24 de junho de 2020

O Solitário






Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.


Rainer Maria Rilke





segunda-feira, 22 de junho de 2020

Erótica é a Alma









Todos vamos envelhecer... 
Querendo ou não, 
iremos todos envelhecer.
 
As pernas irão pesar, 
a coluna doer, 
o colesterol aumentar. 

A imagem no espelho 
irá se alterar gradativamente e 
perderemos estatura, lábios e cabelos.
A boa notícia é que 
a alma pode permanecer com 
o humor dos dez, 
o viço dos vinte e 
o erotismo dos trinta anos.
 
O segredo não é reformar por fora.
É, acima de tudo, 
renovar a mobília interior: 
tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, 
abrir as janelas, arejar o ambiente.

Porque o tempo, 
invariavelmente, 
irá corroer o exterior. 
E, quando ocorrer, o alicerce 
precisa estar forte para suportar.

Erótica é a alma que se diverte, 
que se perdoa, 
que ri de si mesma e 
faz as pazes com sua história. 
Que usa a espontaneidade para ser sensual, 
que se despe de preconceitos, 
intolerâncias, desafetos.

Erótica é a alma que 
aceita a passagem do tempo com leveza e 
conserva o bom humor 
apesar dos vincos em torno dos olhos e 
o código de barras acima dos lábios.

Erótica é a alma que 
não esconde seus defeitos, 
que não se culpa 
pela passagem do tempo.

Erótica é a alma que 
aceita suas dores, 
atravessa seu deserto e 
ama sem pudores.

Aprenda: bisturi algum 
vai dar conta do 
buraco de uma alma negligenciada 
anos a fio.




Fabíola Simões






sábado, 20 de junho de 2020

Felicidade







Que a felicidade não dependa do tempo, 
nem da paisagem, 
nem da sorte, 
nem do dinheiro. 

Que ela possa vir com toda a simplicidade, 
de dentro para fora, 
de cada um para todos. 

Que as pessoas saibam falar, 
calar, e acima de tudo 
ouvir.
 
Que tenham amor ou então 
sintam falta de não tê-lo. 
Que tenham ideais e medo de perdê-lo. 
 Que amem ao próximo e respeitem sua dor, 
para que tenhamos certeza de que 
viver vale a pena.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE




sexta-feira, 19 de junho de 2020

HE LOVED BEAUTY THAT LOOKED KIND OF DESTROYED


Leszek Bujnowski  




Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.



Rui Pires Cabral




quarta-feira, 17 de junho de 2020

PARTIDA








Depois
Há a angústia da solidão
O canto de pássaros
A incerteza dos amanhãs
O nó que afoga e não passa
A noite

Depois
Há as casas manchadas de sombras
Um punhado de lágrimas
Os lábios que se unem
Como asas de uma mesma flor
Os elos de um até já

Depois
Há a nostalgia da praia deserta
As rosas vermelhas esquecidas
As horas mortas e cansadas dos dias opacos

Depois
São as minhas lágrimas a quererem despertar
No silêncio do olhar
Sofrendo horas de carne e cinzas

Depois
São os meus poemas
De braços nus à chuva a quererem poisar em tua boca
Confiantes na noite onde mãos abandonadas
Colhem flores esquecidas nas tardes

Depois
Depois amor
É chegada a hora 
da partida


Francisco Amaral Jorge




segunda-feira, 15 de junho de 2020

Vilancete Castelhano de Gil Vicente







Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrimas for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.


Carlos de Oliveira
in, Trabalho Poético



sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Fruto






Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

...

E nós somos como frutos. Estamos 
suspensos lá no alto, em ramos singularmente
emaranhados, fustigados por muitos
ventos. O que possuímos é a nossa
maturidade, doçura e beleza. Mas a força
que produz tudo isso corre em um único
tronco a partir de uma raiz que se tornou
vasta e se estende por mundos em todos
nós. E, se quisermos dar testemunho da
sua força, cada um de nós tem de a utilizar
no sentido mais solitário. Quanto mais
solitário, mais solene, pungente e poderosa é
a sua comunalidade.


Rainer Maria Rilke
in,“Quatro Poemas Esparsos”



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Virás, Hoje?






Desejaria estender tapetes de púrpura
E desejaria, em toda a região
Encher de bálsamo extraído de pichéis de ouro
As lâmpadas das flores até acima.

E que todas ardessem o tempo suficiente
Para que, cegos pelo dia vermelho,
Nos reconhecêssemos na noite pálida
E a nossa alma se transformasse em estrela.

Ó generosa, tu dás sonhos às minhas noites, 
cânticos às minhas manhãs, 
objectivos aos meus dias e 
desejos solares aos meus crepúsculos vermelhos. 
Tu dás sem fim. 
E eu ajoelho-me e estendo os braços 
para receber a tua graça. Ó generosa! 
Sou tudo aquilo que queres. 
E serei escravo ou rei conforme ralhes ou sorrias. 
Mas és tu que me fazes ser.

Isto, dir-to-ei muitas vezes, muitas vezes. 
A minha confissão amadurecerá, 
cada vez mais simples e nua. 
E o dia em que tiver conseguido torná-la 
perfeitamente simples e em que a compreendas
perfeitamente, será o primeiro dia 
do nosso Verão. Que durará mesmo para além 
dos dias do teu René.

Virás, hoje?



Rainer Maria Rilke





terça-feira, 9 de junho de 2020

Nem Sempre Acerto


Sebastian Łuczywo 




Para os outros a bola era a meia
altura, mas a ti batia-te na cara.
E ias muito zangado para dentro
de casa como se eu tivesse feito
de propósito e te tivesse atirado
a bola à cara. Eu era lá capaz de fazer
uma coisa dessas, também já fui
muito pequenino, sabes, chegaram 
a levar-me ao psiquiatra, eu não
ia fazer uma coisa dessas. Quando
me apetece atirar a bola contra
alguém, atiro-a contra uma parede
ou uma árvore. O problema
é que nem sempre acerto na árvore
(na parede acerto sempre, porque
é grande) e às vezes, sem querer,
estás a ouvir, sem querer, acerto
em alguém que vai a passar.


Helder Moura Pereira
in, “Eu Depois Inventei o Resto”





segunda-feira, 8 de junho de 2020

Palmeiras





Nascemos da sede. Somos palmeiras 
que vão crescendo à força de perder 
as suas folhas. E os seus troncos são feridas, 
cicatrizes que o vento e a luz curam, 
quando o tempo, o que faz e o que passa, 
ocupa o coração e o torna ninho 
de perdas, erige 
nele o seu templo, a sua áspera coluna. 
Por isso as palmeiras são alegres 
como os que souberam sofrer em solidão
e se agitam no ar, varrem as nuvens 
e entregam nas suas copas 
cânticos à luz, fontes de fogo, 
leques a Deus, adeus a tudo. 
Estremecem como testemunhas de um milagre 
que só elas conhecem. 
Somos como a sede das palmeiras, 
e cada ferida aberta para a luz
nos vai tornando mais altos, mais alegres. 
Os nossos troncos são perdas. Trono
é a nossa dor. É mau 
sofrer mas é preciso ter sofrido 
para sentir, aninhado no sangue, 
o assombro dos sobreviventes 
ao ar agradecidos e explodir 
de júbilo no meio do deserto.


Juan Vicente Piqueras





domingo, 7 de junho de 2020

Go All The Way





If you’re going to try, go all the way.
Otherwise, don’t even start.
This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind.
It could mean not eating for three or four days.
It could mean freezing on a park bench.
It could mean jail.
It could mean derision.
It could mean mockery — isolation.
Isolation is the gift.
All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it.
And, you’ll do it, despite rejection and the worst odds.
And it will be better than anything else you can imagine.
If you’re going to try, go all the way.
There is no other feeling like that.
You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire.
You will ride life straight to perfect laughter.
It’s the only good fight there is.



Charles Bukowski





quinta-feira, 4 de junho de 2020

Invento o mundo







Invento o mundo, segunda edição, 
segunda edição corrigida, 
no riso, para os idiotas, 
no choro, para os melancólicos, 
nos pentes, para os carecas, 
nos sapatos, para os cães. 

Um capítulo: 
Fala das Plantas e dos Bichos, 
onde para cada espécie 
competente dicionário. 
Mesmo o mais simples bom dia 
que tu trocas com um peixe, 
na vida te fortalece, 
a ti, ao peixe e a todos. 

Este improviso de bosque -
há muito pressentido 
e de súbito em palavras acordado! 
Esta epopeia de corujas! 
Estes adágios do ouriço 
compostos 
quando estamos convencidos 
de que está só a dormir! 

O Tempo (capítulo II) 
tem direito a intrometer-se 
em tudo, seja no bom ou no mau. 
E, contudo, o que corrói as montanhas 
e afasta os mares e usa 
estar presente no giro das estrelas, 
não há-de ter o mais pequeno poder 
sobre os amantes, 
porque nus de mais, 
porque abraçados de mais, o espírito 
eriçado como pássaro num ombro. 

A velhice é só moral 
em vida de criminoso. 
Por isso todos são jovens! 
Sofrer (capítulo III) 
não tira o peso ao corpo 
e a morte 
virá enquanto dormires. 

E sonhares 
que afinal nem é preciso respirar, 
que o silêncio sem respiração 
é boa música, 
és pequeno, uma faúlha, 
e se te tocam apagas-te. 

Morte, só uma assim. Dor maior 
experimentaste ao segurares uma rosa, 
e terror maior sentiste 
vendo a pétala no chão. 

Mundo, só um assim. Viver, 
só desta maneira. E morrer, como antes visto. 
Tudo o resto é como Bach 
tocado em serra de circo.


Wislawa Szymborska





terça-feira, 2 de junho de 2020

O Funcionário Cansado







A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só




David Mourão-Ferreira