sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Cidade Feliz





Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
E que não existe para sempre mesmo depois das palavras?

Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras…
De longe se não vê que toda a gente luta,
se devora e desvairadamente contempla
que a sua flor, lindíssima, resista.

Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
Quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?

Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O Sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?


Jorge de Sena





quarta-feira, 29 de julho de 2020

DIETA LINGUÍSTICA





Use todos os dias verbos de movimento.
Evite os pronomes reflexos.
Não fale entre aspas.
Evite o porque, o mas e o ou seja.
Cale-se com mais frequência.
Não pronuncie palavras que não saibam a nada.
Não fale de dietas durante as refeições.
Não fale ao espelho e se o fizer
não espere que o espelho lhe responda.
Nunca abra parênteses que não possa fechar.
Dê graças em jejum.
Suspire reticências.
E ponha de joelhos tudo o que escreveu.


Juan Vicente Piqueras




terça-feira, 28 de julho de 2020

A MEMÓRIA






A memória não é uma câmara de munições perdidas
ou uma matriz de caracteres catalogados por
exclusão ou defeito ou pela soma destes
a memória é um processo e um espelho do
esquecimento
quando os planos se sucedem em áspero e espesso
desgosto
mas é também focagem suave nas secções em que a
consciência
se abriu atravessando o tempo pleno e duradouro.
A memória é uma pedra esculpida em silêncio.



GISELA GRACIAS RAMOS ROSA
in, A PEDRA E O CORPO





domingo, 26 de julho de 2020

Tudo era repetição







Acreditámos que o poço era inexorável,
que essa água haveria de nos dessedentar sempre.

Afinal, éramos incapazes de ver, presos
a uma cegueira armadilhada.

Tudo era repetição, mas repetição para lá do tempo
que nos fora dado viver. De resto, poucas coisas

iriam ser repetidas ainda no tempo que era nosso.
Duas vezes a memória de dedos que se convertem

à espessura da água. Uma vez repetida a lição
do vazio no desmedido território junto à sombra abandonada.

Uma vez repetida a abrasiva velocidade de um deserto.
Somos ilusão e carne, e a violência

do outro lado da fronteira imagina-nos,
e sem assentimento, nós vamos.



Luís Quintais
in, Riscava a palavra dor no quadro negro




sábado, 25 de julho de 2020

Nomes apagados







O meu pai foi a pouco e pouco esquecendo a língua.
E começou pelos nomes. O que primeiro esqueceu
não foram os advérbios,
nem os pronomes ou os adjectivos,
como podíamos pensar,
nem os grãos de pó das preposições,
mas os substantivos.

A maçã deixou de ser maçã,
o copo passou a ser isso
e as pessoas que se aproximavam
deixavam de ter nome.

A morte começou seu labor minucioso
por roubar-lhe os nomes,
apagá-los, pondo
no lugar deles um isto ou aquilo,
um dá-me, um balbuceio, um aceno da mão.

O que se perde por último são os verbos
os verbos que se movem como peixes
no sangue até que o mundo se acaba,
até que o corpo já não pode com a alma.

Os adjectivos são afectuosos,
vestem de amor aquilo que visam
e por isso pervivem.

Mas os nomes esfumam-se.
E a substância dos substantivos
não passa de água, de névoa, de onda de fumo.

A maçã deixa de ser maçã.
Eu deixo de ter nome
A palavra dor, não significa nada.


Juan Vicente Piqueras





sexta-feira, 24 de julho de 2020

Fuga ao Vazio


ANDOK TAMAS





Uma rigorosa fuga ao vazio,
isto que nos fala, como se em cada objecto

abandonado sobre a terra habitasse ainda
um desmedido sonho.

Um pouco adiante irias comparar mitologias,
a mesma vontade de memória, o mesmo repetido gesto

que em ti recusaste ocultamente.
Uma árvore dobra-se, única imagem possível

no esquecido mapa onde desenhas todo o movimento.
Uma árvore sem espessura, próximo do canto, dobrando-se

sob a luz que julgáramos ausente.
Não lamentes o abandono, a viagem sem regresso.

Uma rigorosa fuga ao vazio interpela-nos.


Luís Quintais






terça-feira, 21 de julho de 2020

Instruções para atravessar o deserto







Para atravessar este deserto interior
é preciso coragem, tempo, vontade
de não passar a vida a preparar
uma viagem que jamais faremos,
um camelo que seja leal, um companheiro
idem, um mapa vão,
um turbante, uma bússola,
dez caixas de bombons (recordação do Ocidente)
e uma jilaba azul... o que mais? Um livro
para fazer as vezes do Corão, da Bíblia,
da Tora e do Tao,
com as folhas em branco ou escrito
numa língua que não se entenda.
É preciso ter uma certa confiança na sede,
um olhar claro e um caderno
de notas que os dias
são compridos, lentos, e as noites tristes,
e não há tenda nem tribo
nem deus que assista em tal solidão.
Para atravessar este íntimo deserto
é preciso querer, ter que, resolver
pôr-se a andar e não olhar para trás,
não recuar, não ter outro remédio.



Juan Vicente Piqueras





domingo, 19 de julho de 2020

RESTAURANTE POLACO







A noite é sustentada pelos seus enfeites
como um homem morto ligado às máquinas.
Os clientes folheiam livros, tudo polacos
do mesmo quarteirão. Percebemos
de repente: há qualquer coisa acima das palavras
que não se deixa decifrar. Em cidades estranhas
dispomos melhor dos sentidos, somos arriscados
nas nossas intuições. E depois da sopa, do chá
morno, ao sair para a rua, podemos descobrir
que ainda estamos vivos e que no fim de contas
nunca conhecemos outra condição. Esta é a hora
que nos representa. E aquilo a que chamamos realidade
segue connosco na mesma direcção.



Rui Pires Cabral




quinta-feira, 16 de julho de 2020

Song of the Storm-Swept Plain






The wind shrills forth
From the white cold North
Where the gates of the Storm-god are;
And ragged clouds,
Like mantling shrouds,
Engulf the last, dim star.

Through naked trees,
In low coulees,
The night-voice moans and sighs;
And sings of deep,
Warm cradled sleep,
With wind-crooned lullabies.

He stands alone
Where the storm’s weird tone
In mocking swells;
And the snow-sharp breath
Of cruel Death
The tales of its coming tells.

The frightened plaint
Of his sheep sound faint 
Then the choking wall of white -
Then is heard no more,
In the deep-toned roar,
Of the blinding, pathless night. 

No light nor guide, 
Save a mighty tide
Of mad fear drives him on;
'Till his cold-numbed form 
Grows strangely warm; 
And the strength of his limbs is gone. 

Through the storm and night
A strange, soft light
O'er the sleeping shepherd gleams;
And he hears the word
Of the Shepherd Lord
Called out from the bourne of dreams.

Come, leave the strife
Of your weary life;
Come unto Me and rest
From the night and cold,
To the sheltered fold,
By the hand of love caressed.

The storm shrieks on,
But its work is done -
A soul to its God has fled;
And the wild refrain
Of the wind-swept plain, 
Sings requiem for the dead. 



William D. Hodjkiss





quarta-feira, 15 de julho de 2020

POR TODOS OS CAMINHOS DO MUNDO







A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

Não sei caminhos de cor.


FERNANDO NAMORA
in, MAR DE SARGAÇOS




terça-feira, 14 de julho de 2020

Solidão






A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...



Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





segunda-feira, 13 de julho de 2020

Mãe







Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga
in, 'Diário IV'



sábado, 11 de julho de 2020

HISTÓRIA UNIVERSAL






Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo pressa
perde-se transborda arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para amansar os monstros que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
cansa-se de si mesmo apaixona-se
dá-se à vida sabe que se acaba
que escorre o que é por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e diz-se
em silêncio que breve
que bela e fugidia é, foi, a vida.


Juan Vicente Piqueras




quinta-feira, 9 de julho de 2020

AMOSTRA SEM VALOR








Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. 
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: 
com ele se entretém 
e se julga intangível. 

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, 
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, 
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, 
não pesa num total que tende para infinito. 

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida 
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, 
nesta insignificância, gratuita e desvalida, 
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


António Gedeão
in, Poesias completas












quarta-feira, 8 de julho de 2020

Charlecote Gardens


Jack Savage






Entregas as rédeas da vida ao teu gémeo,
um monstro de maneiras impecáveis.
Viver é ser cúmplice da estupidez do mundo,
decerto as tuas próprias ilusões to dirão.
Já deste de comer ao escuro no teu quarto
e sabes que foste precedido em todos os teus
pensamentos. Mas descansa. Tem fé.
Não foste o primeiro nem serás o último
a deixar morrer a alma antes do corpo.

Ela ressuscita.


Rui Pires Cabral






domingo, 5 de julho de 2020

IMPRESSÃO DIGITAL








Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão
in, Poesias completas






sexta-feira, 3 de julho de 2020

We are flint and steel to each other


László Janik Jr 




Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço – alguém sabe
onde nos levam? Dão-nos
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero

lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete
que mal chegámos a ouvir,
hora e meia de remorso

e distorção. Não te salvo,
não me salvas – nem é certo,
quando o medo demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar
o dissabor de viver.



Rui Pires Cabral




quarta-feira, 1 de julho de 2020

A Canção do Suicida






Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.


Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"