sábado, 22 de agosto de 2020

Epílogo







Não sei o que me recordará,
se as páginas de um livro,
se um beijo nos seios de gelo da esfinge,
se as inumeráveis fontes de onde brotavam
as lágrimas,
queimando o rosto,
descendo,
não sei se o meu nome se escreverá no 
silêncio branco das lápides,
rodeadas de aflições e ciprestes,
não pergunto o que querem de mim,
o que fizeram de mim,
e não há súplica que ecoe nos templos,
onde a minha garganta contém um soluço
ou um grito,
não há arte que enalteça todas as minhas
rugas,
toda a mágoa destes braços inertes,
abertos, implorando perdão.


José Agostinho Baptista




sexta-feira, 21 de agosto de 2020

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO






Os poemas podem ser desolados 
como uma carta devolvida, 
por abrir. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando, 
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia, 
a poesia acomete o pensamento, nós 
ficamos de repente mais separados 
das coisas, mais sozinhos com as nossas 
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila 
condição. Haverá quem nos diga, no fim 
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta? 
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda 
assim. Regressamos a essa solidão 
com que esperamos merecer, imagine-se, 
a companhia de outra solidão. Escrevemos, 
regressamos. Não há outro caminho. 


Rui Pires Cabral
in, Morada





quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Máquina






Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azert,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina sem erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.



 LUÍS QUINTAIS





terça-feira, 18 de agosto de 2020

Sei Quem é Minha Rainha







Deslizo para fora da tua casa
Pelas ruas de chuva, e acredito
Que cada transeunte com que me cruzo
Vê brilhar nos meus olhos
A alma radiosa e redimida.

Quero ao caminhar, a todo o custo
Esconder da multidão, a minha alegria,
Levo-a à pressa para minha casa;
Fecho-a no mais fundo das noites
Como um cofre dourado.

Depois retiro da sombra,
Peça após peça, os seus tesouros
E já não sei para onde olhar;
Pois cada recanto do meu quarto
Está repleto, repleto de ouro.

É uma riqueza infinita
Como nunca a noite viu
Nem o orvalho humedeceu;
E que nunca uma noiva
Por amor, recebeu

São ricos diademas
Em que as pedras são estrelas.
Ninguém o sabe. Estou,
Entre os meus tesouros como um rei,
E sei quem é minha rainha.


Rainer Maria Rilke








domingo, 16 de agosto de 2020

Homage to Soren Kierkegaard






I was already an old man when I was born.
Small with a curved back, he dragged his leg when walking
the streets of Copenhagen. "Little Kierkegaard,”
they called him. Some meant it kindly. The more one suffers
the more one acquires a sense of the comic.
His hair rose in waves six inches above his head.
Save me, O God, from ever becoming sure.
What good is faith if it is not irrational?

Christianity requires a conviction of sin.
As a boy tending sheep on the frozen heath,
his starving father cursed God for his cruelty.
His fortunes changed. He grew rich and married well.
His father knew these blessings were God's punishment.
All would be stripped away. His beautiful wife died,
then five of his children. Crippled Soren survived.
The self-consuming sickness unto death is despair.

What the age needs is not a genius but a martyr.
Soren fell in love, proposed, then broke the engagement.
No one, he thought, could bear his presence daily.
My sorrow is my castle. His books were read
but ridiculed. Cartoons mocked his deformities
His private journals fill seven thousand pages.
You could read them all, he claimed, and still not know him.
He who explains this riddle explains my life.

When everyone is Christian, Christianity
does not exist. The crowd is untruth. Remember
we stand alone before God in fear and trembling.
At forty-two he collapsed on his daily walk.
Dying he seemed radiant. His skin had become
almost transparent. He refused communion
from the established church. His grave has no headstone.
Now with God's help I shall at last become myself.


Dana Gioia





quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A inutilidade de tudo






durante meses vi amanhecer quando as aves brancas 
chegavam em silêncio. 

quantas madrugadas surgiram quando as luzes se apagavam 
no porto 
quantas gerações de poetas obscuros se sentaram nessas 
pedras cinzentas! 

eu sempre amei os continentes longínquos 
lugares estrangeiros e puros, a extrema desolação das 
aldeias adormecidas, a nostalgia dos dias atlânticos. 

mas já a minha vida fixara a mudança dos ventos 

o ciclo das estações 
a rigorosa inutilidade de tudo. 

foi nesse tempo de meditação que li rilke e eliot e 
sobretudo 
os viajantes do cognac e da morfina. 

incessantemente procurei um sentido para os dias e para 
as noites 
interroguei-me sobre as civilizações antigas 
entreguei-me a surpreendentes ofícios. 

eu guardara a desmedida fascinação dos planaltos 
a clara alegria de algumas cidades marítimas 
velhas canções do mundo   
imensas revoluções. 

durante meses vi amanhecer quando as luzes se apagavam 
no porto 
e as aves brancas chegavam em silêncio; 

incessantemente procurei um sentido para os dias e para 
as noites 
interroguei-me sobre as civilizações antigas, 
entreguei-me a surpreendentes ofícios, 

a rigorosa inutilidade de tudo.


José Agostinho Baptista




quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Tu És A Terra





Tu és a terra em que pouso.
Macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tua pernas
tenham de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gesto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.



Jorge de Sena



terça-feira, 11 de agosto de 2020

TESTAMENTO






Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.



Rui Knopfli



segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Os deuses dentro






Os deuses sabem melhor do que nós
aquilo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,
mandam-nos um lobo, e não os entendemos.

A vida em cada dia os esquece,
a morte à noite inventa-os.

E as doenças, segundo o sábio dito,
são deuses agonizando no nosso corpo,
seu derradeiro templo em ruínas,
seu refúgio sem fé. Pedem piedade.

Os deuses não entendem a estranha insensatez
com que decidimos acabar connosco e com eles,
o orgulho com que os desprezamos.

Pedem pouco os deuses, só que os não olvidemos.

Mas é muito pedir a uma raça de escravos
que do olvido fizeram vida, missão
e razão de ser.
Os deuses calam-se,
resignados, e em silêncio morrem
em cada um dos antigos súbditos.


Juan Vicente Piqueras





sábado, 8 de agosto de 2020

Vigílias do terceiro dia






Meu Deus, como compreendo a tua hora, 
quando tu, para que ela no espaço se arredondasse, 
a voz à tua frente colocaste outrora; 
para ti o nada era como uma ferida que não sarasse, 
e tu refrescaste-a com o mundo. 

Agora sara baixinho entre nós. 

Pois os passados bebiam 
as muitas febres que no doente apareciam, 
nós já sentíamos, em suaves oscilações que se abriam, 
o pulso calmo do fundo. 

Sobre o nada descansamos como abrigo 
e cobrimos todas as rupturas; 
mas tu cresces para o desconhecido 
à sombra do teu rosto sem fissuras.


Rainer Maria Rilke





sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ascensão





Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim, Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, –
nunca estive tão perto da verdade.


Jorge de Sena
in, ‘Perseguição’





quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Go, give the world







I do not crave to have thee mine alone, dear
Keeping thy charms within my jealous sight;
Go, give the world the blessing of thy beauty,
That other hearts may share of my delight! 

I do not ask, thy love should be mine only
While others falter through the dreary night;
Go, kiss the tears from some wayfarer’s vision,
That other eyes may know the joy of light!

Where days are sad and skies are hung with darkness,
Go, send a smile that sunshine may be rife;
Go, give a song, a word of kindly greeting, 
To ease the sorrow of some lonely life!


Otto Leland Bohanan





quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A Ballad For A Thin Man


Pedro Diaz Molins





Understood backwards. Lived forward. Life.
Haunted by diverging others. Us but not. Wraiths.
Ghosts of what if? Who then? What might have been?
Leave room. Turn left. Lovely house, wife, retirement.
Leave same room. Turn right. Shack, loneliness, poverty.
Theorize games. Physik quanta. Slide down strings.
Into Wonderland, Oz, Middle-Earth. Narnia.
All the places that don’t exist and matter the most.
Where doors open up to impossible possibilities.
Fight your way through every day. Pit bull of potential.
Just do your work and be kind.* That is a separate peace.
We may be others in other universes, but here we are just us.
**** it up. Love your life. Do what you must. Soldier on.
Real realities can really hurt. Take it like a Man. Or Woman.
Be grateful for your trials. Trials are you. Struggle.
Mount the philosopher’s donkey backwards, advance.


Mike Essig






terça-feira, 4 de agosto de 2020

Viver É Arriscar-se


Abdullah Evindar  




Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor suas idéias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.

Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão de sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre...

Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...


Soren Kierkegaard





Segunda versão do poema:

Rir é arriscar-se a parecer doido,
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental,
Estender a mão é arriscar-se a comprometer-se,
Mostrar os seus sentimentos é arriscar-se a se expor,
Dar a conhecer as suas ideias, os seus sonhos,
é arriscar-se a ser rejeitado,
Amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor,
Viver é arriscar-se a morrer,
Esperar é arriscar-se a desesperar,
Tentar é arriscar-se a falhar,
Mas devemos nos arriscar!
O maior perigo na vida está em não arriscar.
Aquele que não arrisca nada,
− Não faz nada!
− Não tem nada!
− Não é nada!

Soren Kierkegaard







segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O Príncipe Da Imaginação


Mari Righez




 Vejo as mãos tocando a transparência do vidro.
Noite.
Vejo a luz fóssil do jogo
que não saberei reconstruir.
Jogo de dedos, tácteis sinais
e a memória de os saber, a eles
– filhos – ausentes,
de ter esquecido o movimento,
a veloz acrobacia do tempo
que me diz a desatenção.
Afortunado, oficiante do invisível,
sou o príncipe da imaginação.


LUÍS QUINTAIS




domingo, 2 de agosto de 2020

Hora Grave






Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke