sábado, 31 de outubro de 2020

Ithaka

 
Dan Grinwis





As you set out for Ithaka
hope your road is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians, Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians, Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope your road is a long one.
May there be many summer mornings when,
with what pleasure, what joy,
you enter harbors you’re seeing for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to learn and go on learning from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you’re destined for.
But don’t hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you’re old by the time you reach the island,
wealthy with all you’ve gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.

Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you wouldn't have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you’ll have understood by then what these Ithakas mean.


C.P. Cavafy
in, "Collected Poems"




quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O PÁSSARO DO CHÃO

 








O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
São a inveja das árvores que não voam
a inveja das pedras com musgo
dos pesados Homens que não dançam.

Quem te ensinou a voar?
Foi a magia do vento?
Foi o vento que te ensinou a ser folha bailadeira em vez de árvore?
A ser poeira malabarista em vez de pedra?
A ser artista e a altear os pés sem estar preso?
A recolher as raízes, a vomitar o peso?

O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
O seu corpo é uma recta onde cabem todas as curvas de um véu.
Feito de ar, nervos d’aço, é fio-de-prumo aberto em compasso.

Quem te ensinou a voar?
Foi o milagre dos deuses?
Foram os deuses que te ensinaram a intensidade e a leveza?
O brilho dos reflexos, a elegância da espuma?
O enlaçar da poesia e das emoções uma a uma, uma a uma?

O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
Quem te ensinou a voar?

- Aprendi na dor…!
Sim, o Bailarino é um pássaro
as suas asas são da dimensão da dor
um pássaro moldado em rasgado movimento
que se repete, se repete, se repete…
quantas vezes? - setenta vezes sete
até que reste um corpo alquebrado
maltratado, castigado, torturado
e se abra um sulco de arado na alma…

- Sem direito ao céu, o Bailarino é um pássaro bastardo
que sem magias nem milagres aprende a voar em contraluz
deixando o sangue no estrado onde apenas o suor reluz!

- Ahhh… mas quando dança…
quando dança é pássaro por inteiro
esquece a mágoa e o sofrimento
desliza como água, é música em movimento
ganha asas, ganha vento, ganha os ares a sonhar
abre em arco os seus braços, risca lume no ar
e em pose de conquistador, rei d’aquém e d’além dor
vai onde o corpo alcança
e é num segundo
senhor do mundo
num subtil passo de dança!


JOÃO MORGADO
in, CNB E OS POETAS





quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Returning to human kind

 







"I don’t care how spiritual you are
How long you can melt in the sweat lodge. How many peyote or ayahuasca journeys that have blown your mind, how many master plant dietas you’ve done or how well you can hold crow pose. I don’t care what planets fall in what houses on your birth chart, or how “silent” your meditation is. I don’t care how many crystals you have or how long you’ve gone without sugar, salt, spices or sex or how vegan your diet is.

I want to know how human you are. 
Can you sit at the feet of the dying despite the discomfort? 
Can you be with your grief, or mine, without trying to advise, fix or maintain it? 

I want to know that you can show up at the table no matter how shiny, chakra- aligned or complete you are- or not. Can you hold loving space for your beloveds in the depths of your own healing without trying to be big?

It doesn’t flatter me how many online healing trainings you have, that you live in the desert, forest or in a log cabin, or that you’ve mastered the art of tantra.
What turns me on is busy hands. Planting roots. That despite how tired you are, you make that phone call, you board that plane, you love your children, you feed your family.

I have no interest in how well you can ascend to 5D, astral travel or have out of body sex. 
I want to see how beautifully you integrate into ordinary reality with your unique magic, how you find beauty and gratitude in what’s surrounding you, and how present you can be in your relationships. 

How do you hold the ones you love in the midst of conflict? 
How do you take responsibility for your part? 
How do you make amends?

I want to know that you can show up and do the hard and holy things on this gorgeously messy Earth. 
I want to see that you can be sincere, grounded and compassionate as equally as you are empowered, fiery and magnetic. 
I want to know that even during your achievements, you can step back and be humble enough to still be a student.

What’s beautiful and sexy and authentic is how well you can continue to celebrate others no matter how advanced you’ve become. 
What’s truly flattering is how much you can give despite how full you’ve made yourself. 
What’s honestly valuable is how f***ing better of a human you can be, in a world that is high off of spiritual materialism and jumping the next escape goat for “freedom.”

At the end of the day 
I don’t care how brave you are. 
How productive, how popular, how enlightened you are. 
At the end of the day, 
I want to know that you were kind. 
That you were real. 

I want to know that you can step down from the pedestal from time to time to kiss the earth and let your hair get dirty and your feet get muddy, and join the dance with us all."



Taylor Rose Godfrey
"A modern day call to shifting from spiritual consumerism to returning to human kind…" 
Înspired by Oriah Mountain Dreamer’s, The Invitation 






"Eu não me importo o quão espiritual você é ou o quão bem você consegue manter nas posturas de yoga.
Não me importa quais planetas caem em quais casas em seu mapa natal, ou quão "silenciosa" sua meditação possa ser. 
Não me importa quantos cristais você tem ou há quanto tempo está sem açúcar, sal, temperos ou sexo, ou quão vegana seja sua dieta.

Eu quero saber o quão humano você é. 
Você consegue se sentar aos pés dos moribundos, apesar do desconforto? 
Você pode estar com sua dor, ou com a minha, sem tentar aconselhar, consertar ou mantê-la? 

Eu quero saber se você pode se apresentar à mesa, não importa o quão brilhante e completo você seja, quanto seus chakras estejam alinhados ou ou não. Você pode manter um espaço de amor para seus entes queridos nas profundezas de sua própria cura, sem tentar ser grande?

Não fico impressionado com a quantidade de treinamentos de cura online que você já fez, que viva no deserto, na floresta ou em uma cabana de madeira, ou que domine a arte do tantra.
O que me excita são as mãos ocupadas. Plantar raízes. Que apesar do cansaço, você faz aquele telefonema, entra naquele avião, ama seus filhos, alimenta sua família.

Não me importa o quão bem você possa ascender à 5D, viajar no astral ou fazer sexo fora do corpo. Quero ver como você se integra perfeitamente à realidade comum com sua magia única, como encontra beleza e gratidão ao seu redor e quão presente pode estar em seus relacionamentos. 
Como você mantém seus entes queridos no meio do conflito? 
Como você assume a responsabilidade por sua parte? Como você se repara?

Eu quero saber se você pode se apresentar e fazer coisas difíceis e sagradas nesta Terra maravilhosamente desordenada. Eu quero ver se você pode ser sincero, pé no chão e compassivo tanto quanto você é forte, ardente e magnético. Quero saber se, mesmo durante seus sucessos, você pode dar um passo atrás e ser humilde o suficiente para continuar sendo um aprendiz.

O que é bonito, sexy e autêntico é o quão bem você pode continuar a celebrar os outros, não importa o quão avançado você se tornou. 
O que é realmente lisonjeiro é o quanto você pode dar, apesar de estar cheio. 
O que é honestamente valioso é quão fodásticamente  você pode ser um melhor humano, em um mundo que está num alto nível de materialismo espiritual e está na próxima fuga de "liberdade".

No final do dia, não me importa o quão corajoso você seja. Quão produtivo, quão popular, quão esclarecido você é. 
No final do dia, quero saber se você foi gentil. Que você era real.

Eu quero saber se você pode sair do pedestal de vez em quando para beijar a terra e deixar seu cabelo ficar sujo e seus pés ficarem enlameados, e se juntar à dança com todos nós. "


~ Taylor Rose Godfrey
Ispirado no poema de Oriah Mountain Dreamer, The Invitation
Traduzido por Alexandre Oliveira


 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Caímos

 





Minha vida não é essa hora abrupta

Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.



Rainer Maria Rilke





sábado, 24 de outubro de 2020

Anfiteatro

 





Todas as formas de violência são indesculpáveis,
disse, e as sombras tombaram sobre a mesa.

Assim é indesculpável a mudez em que rostos se fecham.
Um som vinha antecipar o sentido. A história alucina-se,

disse, e algo cedeu nas sombras tombadas.
Eu anotei, e o olhar, o meu, derrapou no vidro

do anfiteatro, procurou a transparência. Mas era inverno,
inverno também ali, inverno sempre, e os plátanos

do outro lado, ali estando, tão indiferentes,
de uma beleza de cinza, um anátema,

uma contemplação rasurada.


LUÍS QUINTAIS





quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O QUE SE PASSA NA CAMA

 






(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.


Carlos Drummond de Andrade







terça-feira, 20 de outubro de 2020

Reconstrução

 
Chribeu




Em setembro, a construção do ser torna-se mais fácil: 
o outono, com a sua melancolia, empresta um estranho 
perfume de terra ao espírito. As linhas da natureza ficam 
tão nítidas como a linha do horizonte; e pode ver-se 
para o outro lado, onde as ideias se sobrepõem como 
peças de um jogo de cubos. Espreito através deles, 
tentando esquecer as letras que serviam para que, 
com esses cubos, se formassem palavras: as palavras 
simples de um vocabulário infantil. Mas as letras tapam-me 
a vista do horizonte, e trazem-me de volta ao puro 
jogo do ser, onde nada ainda está decidido. É verdade que podia 
atirar tudo abaixo, pensando que o que importa são 
essas linhas abstractas que desenham, entre as nuvens e o mar, 
uma hipótese de alma. Para isso, seria preciso que eu 
esquecesse as palavras que aprendi, e que voltasse à planície 
branca da origem. Fogo, água, luz, terra, todas as letras 
me obrigam a tê-los em conta, mesmo quando o que eu quero 
é outra coisa - a própria qualidade, o essencial, o que 
nenhum sentido capta. Então, espero pelo inverno para 
me desembaraçar da matéria: a chuva, a neve, as tardes 
de nevoeiro, o frio da noite até ao nascer da madrugada, 
onde os cubos de luz caem entre ser e não ser. 


Nuno Júdice






sexta-feira, 16 de outubro de 2020

End of an Era

 

Daniel Barbosa





This morning, flakes of sun
peel down to the last snowholds,
the barbed-wire leavings of a war
lost, won, in these dead-end alleys.
Stale as a written-out journalist,
I start to sort my gear.
Nothing is happening. City, dumb
as a pack of thumbed cards, you
once had snap and glare
and secret life; now, trembling
under my five grey senses’ weight,
you fall and flatten
queasily on the table.

Baudelaire, I think of you! Nothing changes,
rude and self-absorbed the current
dashes past, asking nothing, poetry
extends its unsought amnesty, 
autumn saws the great grove down.
Some voices, though, shake in the air like heat...

I see myself hardened against queer sights:
myself, perhaps, the queerest,
man running wild
in his selfmade wilderness.
Everyone greets me; all are nonchalant.
We have so much
in common: even squalor.
I walk into my house and see
tourists fingering this and that.
My mirrors, my portfolios
don’t suit their style.

Still, those few friends,
living and dead,
with whom things aren’t too easy…
Certain old woods are sawdust,
from now on have to be described?
Nothing changes. The bones of the mammoths
are still in the earth.


Adrienne Rich



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Ofício

 






Amamos uma mulher, depois um continente perdido.
Afinal, fomos nós que perdemos o norte.
Alguém abre a porta, o vento do deserto
sopra dentro da sala, somos levados para longe
do Paraíso, improvável ficção consentida.

Marcamos o tempo, o compasso.
A música depois do silêncio sabe a notação desabrida,
incontida fúria tomando de assalto as artérias
que insistem no seu ofício de coisas
vivas e frágeis.


LUÍS QUINTAIS







quarta-feira, 14 de outubro de 2020

ADVERBIOS DE LUGAR

 






Aqui é onde eu estou. Esteja onde estiver 
estou sempre aqui onde me vês. 
Esta casa, estas caras, estas coisas 
cansam, porque estar aqui cansa. 
Aqui tem-se sede de partir, sede de ali. 
Mas ali é o lugar onde jamais poderei estar, 
onde sou impossível. Vá onde vá, 
lá onde eu chegar será aqui 
e estarei esperando-me a mim mesmo 
com o mesmo ramo de rosas na mão. 
Aí é o teu aqui. 
Aí parece um grito porque é onde te dói. 
Eu quero estar aí, onde tu estás, 
tu aqui ou, melhor, os dois ali, remotos, juntos 
porque o vivo é o junto. 
Aí há o amor que não há aqui. 
Essas coisas que as tuas mãos afagam, 
isso que pensas, dizes, calas, sonhas, 
esses lugares onde estás sem mim, 
é isso que desejo e necessito. 
E ser o teu aí, a tua respiração intermitente.
Ali é a salvação, a miragem 
nascida da sede de estar aqui. 
Ali sim seríamos felizes, 
onde o teu aqui e o meu aí estariam juntos,
comeriam perdizes que não existem. 
Ali é aquela chuva
que cai sobre este campo sedento. 
Ali é Jauja, o Eldorado. Não há palavras 
que possam dar ideia desse sítio.
As palavras são estas, nunca aquelas. 

Eu estou aqui e tu aí e lá os dois, quando?
Isto é pedra. Isso é seda. Aquilo é mar. 
Aqui, lar impossível, íntima ausência, 
odiado domicílio, cárcere de cada dia. 
Aí, calor do tu, a tua vida minha, 
tesouro da tua ilha, ar de amor. 
Ali, onde não estamos, chove sobre a vida 
que nunca será nossa e nos aguarda.


Juan Vicente Piqueras





segunda-feira, 12 de outubro de 2020

AINDA NÃO SEI

 

Laura Zalenga





 Ainda não sei como contar-te que cresci
sem mar. Que andei a verter sangue a vida
toda, de coração golpeado pelas cercas vivas
dos meus lugares. Não sei como contar-te
da minha ânsia de fugir, de correr até à praia
e cegar a memória, de como me atirei
em desespero contra os espinhos, e de como
sangrei, exausta, na sombra dos fracassos.

Agora cheguei ao mar e o sal arde-me
nas feridas. Tenho um chão de areia quente
que me queima os pés, tão gastos de correr.
Cheguei ao mar. Ao espanto comovente
do mar, e permaneço imóvel. Tão quieta
como as rochas ao longe.
Sou livre e não me movo.
Não sei como se faz isto de viver.



VIRGÍNIA DO CARMO
in, ECOS DE GREEN ROSE





sábado, 10 de outubro de 2020

De Cara Lavada

 





toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer  
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante  
um homem que prometeu um brilhante  
um homem que  saiu  pra jogar
toda a mulher tem um homem
que esqueceu de voltar



Martha Medeiros
in, Poesia Reunida





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A Piaf

 





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.



Jorge de Sena






quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Phenomenal Woman

 





Pretty women wonder where my secret lies.
I’m not cute or built to suit a fashion model’s size   
But when I start to tell them,
They think I’m telling lies.
I say,
It’s in the reach of my arms,
The span of my hips,   
The stride of my step,   
The curl of my lips.   
I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,   
That’s me.

I walk into a room
Just as cool as you please,   
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.   
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.   
I say,
It’s the fire in my eyes,   
And the flash of my teeth,   
The swing in my waist,   
And the joy in my feet.   
I’m a woman
Phenomenally.

Phenomenal woman,
That’s me.

Men themselves have wondered   
What they see in me.
They try so much
But they can’t touch
My inner mystery.
When I try to show them,   
They say they still can’t see.   
I say,
It’s in the arch of my back,   
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.

Now you understand
Just why my head’s not bowed.   
I don’t shout or jump about
Or have to talk real loud.   
When you see me passing,
It ought to make you proud.
I say,
It’s in the click of my heels,   
The bend of my hair,   
the palm of my hand,   
The need for my care.   
’Cause I’m a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That’s me.


Maya Angelou
in,  And Still I Rise




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Extinção

 


Ralph Eugene Meatyard 






Estão à minha frente,
num mutismo que faz desabar
as horas, ali, onde a duração esplende
em rostos de circunstância.
Eu regresso a velhos temas,
a invisibilidade com que se diz
uma fotografia de infância,
uma árvore destruída,
espectro ou desenho
do que não podemos saber,
o terreno fértil dos símbolos
que crescem à nossa volta,
que não cessam de crescer,
finos cabelos de deuses colando-se
às paredes da linguagem,
o eco da minha voz esmorecendo
em entusiasmos que são despedidas.
Tudo é util e seguro,
tudo é incerto depois.
A reciprocidade
faz nutrir a violência
que surge na linha do horizonte.
A reciprocidade engorda a violência.
Com o tempo a vida desaba,
o mundo regressa por influência
de sofrimentos desabridos,
eternidades que a juventude
não desmente, e o pavor
de me saber mortal,
de procurar por entre dedos
a fria extinção.


 LUÍS QUINTAIS




domingo, 4 de outubro de 2020

A NOITE-VIÚVA

 








Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa
.
Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante
.
Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia
.
Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.



ALEXANDRE O'NEILL
in, TOMAI LÁ DO O'NEILL!





sábado, 3 de outubro de 2020

On Aging

 


Murthada Alrubaie 





When you see me sitting quietly,
Like a sack left on the shelf,
Don’t think I need your chattering.
I’m listening to myself.
Hold! Stop! Don’t pity me!
Hold! Stop your sympathy!
Understanding if you got it,
Otherwise I’ll do without it!
When my bones are stiff and aching,
And my feet won’t climb the stair,
I will only ask one favor:
Don’t bring me no rocking chair.
When you see me walking, stumbling,
Don’t study and get it wrong.
‘Cause tired don’t mean lazy
And every goodbye ain’t gone.
I’m the same person I was back then,
A little less hair, a little less chin,
A lot less lungs and much less wind.
But ain’t I lucky I can still breathe in.



Maya Angelou





sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Morrer por um bocadinho

 







O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…



JOSÉ GOMES FERREIRA
in, ‘VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA’





quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Esse canto escuro

 






O medo tem um significado evolutivo.
Ele é uma sobrevivência da nossa errância

antiga de predadores perfeitos.
Inadaptados, caminhamos hoje na cidade,

ecologia de cuidados e atributos sublimados,
e o medo serve a sem métrica

dos gestos agramaticais.
Cada perturbação da fala

devolve-nos esse canto escuro,
o molde incompleto que nos define.

Vivemos no medo. Ele é a nossa casa.
De nós exige um desvelo permanente.

Num combate corpo a corpo
lutamos com as paredes da casa.



LUÍS QUINTAIS