quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

The New Year’s Burden

 







I will not, though I would, resolve,
As the New Year’s Eve comes on,
To do, not do, review, revolve
On the past year, how it has gone,
Taking not all, but still enough
(Seeing I had not much to lose)
Of what, for all my falling off,
Might have been mine, as then, to use:
     But if I cast off heaviness,
     This is my burden, none the less.

I would no more, as I have done,
Consider what the year will bring
But take the seasons one by one;
For, all in all, the heaviest thing
- Excepting only no more hope -
Is hope returning year on year:
Let me not give it now the scope
Of what I might do, for I fear
     That if it cast off heaviness,
     This is my burden, none the less.

I care no more for this I might,
Whether it comes as would or should:
The first is nothing if not light,
Yet it has weighed me down for good;
And how much heavier, come to naught,
As I have found, the other is:
Lightness that ponders what it ought
Weighs like its own antithesis:
     But when I cast off heaviness,
     This is my burden, none the less.

I cannot, if I would, complain
Of a mean lot and curse my luck
(Though luck for luck, as gain for gain,
I cannot say that I've been struck
By how much mine exceeds) but hold
That this same luck has come to me
Never so empty-handed, cold,
As my more favored levity:
     And if it casts off heaviness,
     This is my burden, none the less.

Let others ponder, while they may,
Their wealth of possibilities;
But, as for me, since I must pay
For empty-headed-handed ease,
And since what comes will also go,
I find most hope in most distrust.
I make my burden lighter so
And bear the new year, as I must:
     But if I cast off heaviness,
     This is my burden, none the less.

Envoi to the Reader

I do not hope even to strike
Your fancy with my verse: No mask,
Symbol nor image nor the like
Encumbers it, as you might ask;
     I make too plain my heaviness:
     This is my burden, none the less.



Catherine Davis



domingo, 26 de dezembro de 2021

Falavam-me de Amor

 






Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
in O Dilúvio e a Pomba




quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL

 






 Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não


Adília Lopes
in, "Dobra"




segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A BALADA DA NEVE

 




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
de uns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
- depois em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos... enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
– e cai no meu coração.


AUGUSTO GIL





domingo, 19 de dezembro de 2021

Plenitude

 



Nada a esperar.
Nada a buscar.
Nenhum lugar onde ir. 
Eu me sinto sentada sob a sombra de uma árvore generosa, 
numa tarde azul sem pressa, 
os pássaros bordando o céu com o seu balé harmonioso. 
O meu coração é pleno, nenhuma fome.

Plenitude não é extensão nem permanência: 
é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, 
e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada.


Ana Jácomo







quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Trabalhos de amor

 







 O motivo tanto faz.
É preciso procurar o que sobreviveu entre os restos.
Poderíamos sentir-nos mais seguros,
se os nossos sentimentos
são territórios de fronteira
perdidos, recuperados, outra vez perdidos?
Porque amar não é apaixonar-se.
É voltar a construir, uma e outra vez,
o mesmo pátio para ouvir os melros
quando na Primavera ainda é de noite.


Joan Margarit



sábado, 11 de dezembro de 2021

Ao Fim Do Dia

  





Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.


Helder Moura Pereira





quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

The Empty Boat









He who rules men lives in confusion;
He who is ruled by men lives in sorrow.
Yao therefore desired
Neither to influence others
Nor to be influenced by them.
The way to get clear of confusion
And free of sorrow
Is to live with Tao
In the land of the great Void.

If a man is crossing a river
And an empty boat collides with his own skiff,
Even though he be a bad-tempered man
He will not become very angry.
But if he sees a man in the boat,
He will shout at him to steer clear.
If the shout is not heard, he will shout again,
And yet again, and begin cursing.
And all because there is somebody in the boat.
Yet if the boat were empty.
He would not be shouting, and not angry.

If you can empty your own boat
Crossing the river of the world,
No one will oppose you,
No one will seek to harm you.

The straight tree is the first to be cut down,
The spring of clear water is the first to be drained dry.
If you wish to improve your wisdom
And shame the ignorant,
To cultivate your character
And outshine others;
A light will shine around you
As if you had swallowed the sun and the moon:
You will not avoid calamity.

A wise man has said:
“He who is content with himself
Has done a worthless work.
Achievement is the beginning of failure.
Fame is beginning of disgrace.”

Who can free himself from achievement
And from fame, descend and be lost
Amid the masses of men?
He will flow like Tao, unseen,
He will go about like Life itself
With no name and no home.
Simple is he, without distinction.
To all appearances he is a fool.
His steps leave no trace. He has no power.
He achieves nothing, has no reputation.
Since he judges no one
No one judges him.
Such is the perfect man:
His boat is empty.


Chuang Tzu





domingo, 5 de dezembro de 2021

Chegas tarde ao teu tempo

 


Kathrin Federer







Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras
que escuto agora como uma derrota.
Mas já não sei de nenhum combate,
nem que tempo era o meu. É uma pena
não se ser ninguém, ter errado
o comboio, ter ficado sem malas,
adormecido no banco, passar ao largo,
e achar-se agora sem roupa limpa,
cansado, num hotel reles de uma só
e má estrela, que deve ser a minha.
Prescindirei de tudo menos do poeta
que fica do desastre. Fingirei ver
que no final de contas errei o século:
isto será Paris e eu Verlaine.


Joan Margarit





sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Relato sentimental da memória

  

Yukika





Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit








quinta-feira, 18 de novembro de 2021

UM PRANTO SURDO

 





O som dos verdes rastros está na chuva

Chega até nós desde a estrada

Almas sedentas e saias empoeiradas chegaram do deserto

Seu hálito ardente e a miragem-fundida

De suas bocas secas e cobertas de pó

Nos chegam, agora, desde a estrada

Seus corpos atormentados, meninas criadas na dor

A alegria longe de seus rostos

Corações velhos e repletos de rachaduras

Não surgem sorrisos nos oceanos inóspitos de seus lábios

Nem uma lágrima brota do seco canal de seus olhos

Oh, Deus!

Poderia ignorar se seus gritos surdos que saltaram do céu,

Alcançam as nuvens?

O som dos verdes rastros permanece na chuva



                                                                        Nadia Anjuman


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

OUTROS NOMES DA TERRA

 






 Mais do que magma e rocha,
a Terra é feita de Tempo,
um corpo nosso
que nasceu antes de nós.

A Terra é o joelho do boi,
a anca do rio,
a cabeceira do oceano.

A Terra
é a cauda do princípio,
na boca do enfim.

Nela nos desenterramos
quando pensamos nascer. 

Nela nos semeamos
quando julgamos partir.


Mia Couto
in, "Vagas e Lumes"



sexta-feira, 12 de novembro de 2021

AMOR LIVRE

                                                           



Que seja livre o nosso amor,
Que nos liberte para voar,
Que seja ausente de qualquer dor,
Que não necessite de amarras para amar.

Que sermos quem somos, seja divino,
Longe de qualquer julgo ou condenação,
Que o amor seja livre indo e vindo,
Que não nos condene a nenhuma prisão.

Que você vá e venha quando quiser,
Fazendo de mim o teu perfeito cais,
Que sejas meu homem e eu tua mulher
Sem nos sentirmos em cárcere, jamais.

Que estejamos juntos ainda que separados,
Que tua ausência não signifique tormento,
Pois quando se ama, se está lado a lado,
Ainda que a saudade se torne um lamento.

Busquemos do amor sua intenção pura e simples,
Entendendo que com ele vem a liberdade,
Pois quem aprisiona e ama com posse,
Ainda não sabe na vida o que é amar de verdade.


Gil Façanha




Pelo Amor Livre

 







Eu prometo não te prometer nada
Nem te amar para sempre
nem não te trair nunca
nem não te deixar jamais.
Estou aqui, te sinto agora
sem máscaras nem artifícios
e enquanto for bom para os dois que o outro fique.

Nada a te oferecer senão eu mesmo
Nada a te pedir senão que sejas quem tu és
a verdade é o que de melhor temos para compartilhar.

Tuas coisas continuam tuas e as minhas, minhas.
Não nos mudaremos na loucura de tornar eterno
esse breve instante que passa.

Se crescemos juntos
ainda que em direções opostas
saberemos nos amar pelo que somos
sem medo ou vergonha
de nos mostrarmos um ao outro por inteiro.

Não te prendo e não quero que me prendas
Nenhuma corrente pode deter o curso da vida
nenhuma promessa pode substituir o amor
quero que sejas livre como eu próprio quero ser.
Companheiros de uma viagem que está começando
cada vez que nos encontramos novamente.


Geraldo Eustáquio de Souza





domingo, 7 de novembro de 2021

Idade

  




Mente o tempo:

a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui Vida
em relampejo de incenso.

E quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.


Mia Couto
in,"Vagas e lumes"



quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A CASA DA NEBLINA

 






 Entraram para a casa da neblina.
Os seus olhos foram-se acostumando
aos contornos indefinidos. Tudo
era impreciso, tudo era difuso.
Também se iam vendo um ao outro
sem contrastes, os rostos não mudavam,
as expressões eram sempre as mesmas,
sempre veladas pela mesma bruma.
Esqueceram-se ambos do mundo lá fora,
e da luz e da dor e da alegria,
da mentira, da emoção, dos beijos,
da amizade e do amor. Negaram
qualquer verdade ou perfil que os ferisse.
E ficou-lhes ambíguo o coração.


Amalia Bautista
in, ESTOU AUSENTE



sábado, 30 de outubro de 2021

French Leave

 

Mona Kuhn






 No servile little fear shall daunt my will
  This morning, I have courage steeled to say
I will be lazy, conqueringly still,
  I will not lose the hours in toil this day.

The roaring world without, careless of souls,
  Shall leave me to my placid dream of rest,
My four walls shield me from its shouting ghouls,
  And all its hates have fled my quiet breast.

And I will loll here resting, wide awake,
  Dead to the world of work, the world of love,
I laze contented just for dreaming’s sake,
  With not the slightest urge to think or move.

How tired unto death, how tired I was!
  Now for a day I put my burdens by,
And like a child amidst the meadow grass
  Under the southern sun, I languid lie,

And feel the bed about me kindly deep,
  My strength ooze gently from my hollow bones,
My worried brain drift aimlessly to sleep,
  Life soften to a song of tuneful tones.


Claude McKay




quinta-feira, 28 de outubro de 2021

SONETO DE ANIVERSÁRIO









Passem-se os dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida.
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


VINICIUS DE MORAES
in, ANTOLOGIA POÉTICA




terça-feira, 26 de outubro de 2021

Como Velas De Um Barco

 
Harold Feistein





Ao entrar, o vento enfuna as cortinas 
como velas de um barco. Mas o barco 
não se move, ainda que os ventos 
pareçam favoráveis. Há já anos 
que viajo só a bordo desta nave. 
E pergunto-me que problema técnico 
a mantém ancorada neste nada. 
Assim não poderemos encontrar-nos 
apesar de o vento ser favorável, 
do meu experiente manejo do leme 
e da minha ânsia de chegar ao porto.


Amalia Bautista




segunda-feira, 18 de outubro de 2021

suspiro tardio

 

 



se ao menos eu sentisse totalmente
o movimento da terra em volta do sol.
se eu pudesse conhecer o segredo
da germinação sem roubar da terra
a vida enorme, o rebentar largamente.


se me fosse permitida a amplitude,
a alegria, o agora das planícies
em fim de tarde, e eu não mais
precisasse de trabalhar a atenção,
assim descalço sobre a realidade.


promete-me que amanhã virá a lua
e que, na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.


promete-me que no fim terei existido.


VASCO GATO
in, "Um Mover de Mão"





sábado, 16 de outubro de 2021

lua cheia

 

Malthe Zimakoff





nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.


sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
- é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canções ao acordar do ano.


vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
- vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.


hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.


Vasco Gato




quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A partida

 

Craig Pickup



Ao partir,
disseram-me: voltarás sempre.


Parecia um consolo.

Era uma condenação.

Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.


Mia Couto
in, "Vagas e Lumes"




segunda-feira, 11 de outubro de 2021

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 









«Eu estava tão perto de ti que tenho                                                      frio ao pé dos outros.»                                                                                                       Paul ÉLUARD


Nenhuma morte apagará os beijos 
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas 
                                               [clandestinas da grande cidade livre 
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor, 
esses densos sinais do amor e da morte 
com que se vive a vida. 
Aí estarão de novo as nossas mãos. 
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos. 
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres. 
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e, 
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
                                                                             [e atormentada
desvenderá em cada minuto o seu segredo 
para que este amor se prolongue e noutras bocas 
ardam violentos de paixão os nossos beijos 
e os corpos se abracem mais e se confundam 
mutuamente violando-se, violentando a noite 
para que outro dia, afinal, seja possível. 



JOAQUIM PESSOA 
in, OS OLHOS DE ISA




sexta-feira, 8 de outubro de 2021

EM SILÊNCIO, O GRITO

 

Whang-Od 
Philippines





Ouviste esse grito que morre contra 
as paredes, que atravessa os quartos mais fechados,
que não sai por janelas ou frestas, e que
rasga a garganta de quem o sonhou? Foi 
no silêncio de uma tarde, sob o calor 
de um céu sem horizonte nem pássaros? Ou 
no escuro da noite, quando as estrelas 
se apagam nos teus olhos e só um gemido 
distante ecoa na treva? Mas é dentro de ti 
que o ouves, e onde quer que estejas,
tapando os ouvidos para que o mundo 
não venha ter contigo, ou fechando 
os olhos para que nenhuma imagem 
te distraia, levá-lo-ás na tua cabeça,
em tudo o que pensas, mesmo que não 
saibas já de onde vem, porque nasceu, 
nem porque tens de ser tu a ouvi-lo,
de lábios fechados para que não o grites.


Nuno Júdice






terça-feira, 5 de outubro de 2021

The Fall of a Lark

 





"My wings are closed...I cannot fly,"
She wrote before she plummeted,
A creature less of earth than sky,

A lark that bullies killed with stones,
She fell to earth, her music stilled,
A broken heap of shattered bones.

What gift like hers endures for long
Where ignorance flings stones at art,
And bullies put an end to song?

To choose to sing's an act of will;
She had to know instinctively
A singing bird's the first they kill.


Nadia Anjuman