sexta-feira, 30 de abril de 2021

Memoriam Memoriae

 
Esat Ferruh Gürsel





Da nem sempre sublime variedade do Mundo, 
da não rara amargura, 
do remorso, 
de tudo, 

dia a dia te nutres, dia a dia te envolves! 

Dia a dia te expandes - tão grande que és o vulto 
sobreposto por vezes à linha do horizonte...
Dia a dia no dia te enforcamos, 
                                                    e à noite 
apareces de novo no trópico do sono. 

Dia a dia, no vento. Dia a dia, no tronco. 

Tens na carne incorpórea, de memória, mil corpos, 
e concentras nos olhos, aglutinantes, glaucos 
- de um verde que não é de esperança nem de escarro, 
mas de lago, de lodo, de limo delinquente -, 
a saudade e o desprezo do Mundo que te foge, 

dia a dia no mármore, dia a dia no vento.


David Mourão-Ferreira
in, ‘Memoriam Memoriae’




terça-feira, 27 de abril de 2021

Aprendizagem

 

Benoit Courti 




Do mesmo modo
que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor
se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Ferreira Gullar
in, “Na Vertigem do Dia”





sábado, 24 de abril de 2021

Traduzir-se

 
Ali Gandomi





Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar
in, “Na Vertigem do Dia” 




terça-feira, 20 de abril de 2021

Súplica Final

 

 


Senhor: não peço mais que silêncio, 
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas, 
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras 
se afiam na friagem que é azul-celeste, 
o silêncio do sol encarquilhando as folhas, 
e o do vento na areia depois de ter passado, 
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas, 
o silêncio das mãos e o dos olhos, 
e o das aves negras que pairam nas alturas 
de um céu silencioso e límpido. Não peço 
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam no 
teto escorregadio da memória silente. 
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros 
a preto e branco imagens desejadas 
que não pensei que desejava e esqueço 
ao querer lembrá-las. E o silêncio 
dos sexos que se possuem sem uma palavra. 
E o do amor também, tão silencioso esse, 
que não sei quem amo. 

Não peço mais. Afasta 
de mim o estrondo: não o das cidades, 
ou dos homens, das águas, do que estala 
na memória ou penumbra das salas desertas. 
Afasta de mim o estrondo com que a vida 
se acabará contigo, num rasgar de súbito 
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo 
em que não ouvirei mais nada. O estrondo 
em que não mexerei um dedo. O estrondo 
em que serei desfeito. O estrondo 
em que de olhos abertos 
alguém mos fechará. 

Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo, 
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas 
que outros homens fizeram, e o das coisas 
que eu próprio fiz. E o teu silêncio 
de senhor que foi. Não peço mais. 
Não é nada o que peço. Dá-me 
o silêncio. Dá-me o que não fui: 
silêncio (porque calei tanto): 
o que não sou (pois que calo tanto): 
o que hei de ser (já que falar não adianta): 
silêncio. 

Senhor: não peço mais.


Jorge de Sena 
in, peregrinato ad loca infecta






domingo, 18 de abril de 2021

“CÂNTICO NEGRO”

 
 Fran García 




Cago na juventude e na contestação 
e também me cago em Jean-Luc Godard. 
Minha alma é um gabinete secreto 
e murado à prova de som 
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes 
nem uma só gravura de Lichtenstein 
ou Warhol. Nas prateleiras 
entre livros bafientos e descoloridos 
não encontrareis decerto os nomes 
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos 
volumes de qualquer filósofo 
maldito, vários poetas graves 
e solenes, recrutados entre chineses 
do período T'ang, isabelinos, 
arcaicos, renascentistas, protonotários
- esses abundam. De pop apenas 
o saltar da rolha na garrafa 
de verdasco. Porque eu teimo, 
recuso e não alinho. Sou só. 
Não parcialmente, mas rigorosamente 
só, anomalia desértica em plena leiva. 
Não entro na forma, não acerto o passo, 
não submeto a dureza agreste do que escrevo 
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias. 
De alguns. De poucos. De um só se necessário 
for. Tenho esperança porém; um dia 
compreendereis o significado profundo da minha 
originalidade: I am really the Underground. 


Rui Knopfli
in “Mangas verdes com sal“





sexta-feira, 16 de abril de 2021

FLUVIOGRAFIA

 

 


Não se trata de viagem
com itinerário.
A espuma decifrada oculta ainda
um leito que jamais
renunciará
ao seu insuspeito modo de amar:
sugar lentamente
os dedos incautos
com que atestamos a frieza das águas.
Tudo o que esperámos
terminou cilindrado
sob o sigiloso motim
das horas reais,
e só assim se pôde encarar a paisagem
em que de facto estávamos
e de facto fingíamos.
As viagens só são belas
para quem não as faz.
Nós, munidos de trapos e
especiosas madeiras,
estremunhados de todos os dias,
mergulhámos no tenebroso e desidêntico
vocábulo da vida: isto.


5.


Que nenhum se aflija
da pulsação tremida com que o outro
filigrana o seu coração.
Como guitarra incerta
nos fossos do silêncio,
como voz coroada
no heroísmo de falhar.
Assim, e só assim, encontraremos
a nossa religião:
sem o escândalo de a cultivarmos. 


7.


Perdoas o medo como
quem se abstrai de uma agulha.
O soro flui pelos teus olhos
fechados,
ainda que reluzam,
absorve-se no teu sangue como 
um panfleto siciliano,
não viste,
não ouviste,
sanaste dentro de ti o cancro
que lentamente te soprará - dente de leão -
os cabelos. 


17.


Cambaleando pelo alcatrão que choveu,
o bêbado soletra
ao descaso os lábios confiscados pelo torpor.
As malhas da memória
distendem-se, abrindo túneis
por onde sopra o hálito feroz
do que subsiste adiado
e agora o semáforo parece
intermitir-lhe o aceno
de um quarto mais escuro, um álcool sem amanhã.
Ninguém nunca
adormeceu a sentir os pés. 



Vasco Gato
in, A Fábrica






quarta-feira, 14 de abril de 2021

The Layers

 

 
Patrick Odorizzi







I have walked through many lives,
some of them my own,
and I am not who I was,
though some principle of being
abides, from which I struggle
not to stray.
When I look behind,
as I am compelled to look
before I can gather strength
to proceed on my journey,
I see the milestones dwindling
toward the horizon
and the slow fires trailing
from the abandoned camp-sites,
over which scavenger angels
wheel on heavy wings.
Oh, I have made myself a tribe
out of my true affections,
and my tribe is scattered!
How shall the heart be reconciled
to its feast of losses?
In a rising wind
the manic dust of my friends,
those who fell along the way,
bitterly stings my face.
Yet I turn, I turn,
exulting somewhat,
with my will intact to go
wherever I need to go,
and every stone on the road
precious to me.
In my darkest night,
when the moon was covered
and I roamed through wreckage,
a nimbus-clouded voice
directed me:
“Live in the layers,
not on the litter.”
Though I lack the art
to decipher it,
no doubt the next chapter
in my book of transformations
is already written.
I am not done with my changes.


Stanley Kunitz
in, The Collected Poems of Stanley Kunitz





quinta-feira, 8 de abril de 2021

Dia Transformado

 

Eduard Francés




Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo 
De o transformar. Este é o dia transformado 
Pelo modo como apoio este dia no chão. 
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra 
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo 
Na atenção. 

E fico atento, fico deitado porque não sei crescer 
Num terreno que se levante. 
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra 
Na sua túnica inteira 
Porque este é o sítio do dia sem horário 

Sem divisões 

E ponho-me de frente no seu lado, 
Nos seus braços abertos para me unir 
E entro pelo lado aberto e ardo - como Elias 
Em chamas subindo para o céu.


Daniel Faria



terça-feira, 6 de abril de 2021

LV

 

 Diane Diedrich






Todo lo que guardé se me hizo polvo; todo lo que escondí de 
mis ojos lo escondí, y de mi propia vida.

Nada te he quitado que me haya servido de paz o justificación 
para todo lo que me quitaba yo misma. Nada te he retenido que 
no haya pesado como cielo de plomo sobre cada uno de mis 
días.

No quise beber el vino por no gastarlo, y el vino se me ha 
agriado en la copa. No es la culpa del vino sino de la mano 
vacilante.

Me creí invulnerable al fuego de la espera, y apenas me 
reconozco en estas cenizas, que pronto se llevará el viento.

Perdona tú, defraudador forzado, a la defraudada, que no te 
destinó a otra cosa. Perdónenme el sol y la tierra y los pájaros 
del aire y todas las criaturas simples y libres y luminosas.

No fue el mío el pecado primaveral de la cigarra, aquel que se 
comprende y hasta se ama. Fue el pecado obscuro, silencioso, de la 
hormiga; fue el pecado de la provisión y de la cueva y del 
miedo a la embriaguez y a la luz.

Fue olvidar que los lirios que no tejen tienen el más hermoso de 
los trajes, y tejer ciegamente, sordamente, todo el tiempo que 
era para cantar y perfumar.

Ese fue el pecado; y así te retuve por cálculo, por cuenta que ni 
siquiera estuvo bien echada, la porción que era tuya, en la poca 
y muy repartida dulzura de mi casa. Pecado de hacerme fuerte 
y dejarte la mano tendida, no con la negación sino con el 
aplazamiento ara una mañana que no podía ser nunca otra cosa 
que eso mismo: mañana...



Dulce María Loynaz





domingo, 4 de abril de 2021

Num meio-dia de fim de Primavera

 

 




Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meias.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?



Alberto Caeiro
In, O Guardador de Rebanhos