quinta-feira, 29 de julho de 2021

A Morte Virá e Terá os Teus Olhos

  





Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.



 Cesare Pavese
in, Le Poesie




terça-feira, 27 de julho de 2021

Disciplina

 
João Cabral 






O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono — perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro — um esgar — surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.


Cesare Pavese
in, in 'Trabalhar Cansa'




sexta-feira, 23 de julho de 2021

VIDA

 

 




O que seria a vida então?
Será que tudo na vida tem uma razão?
Seríamos, de Deus, uma invenção?

Mas o que seria a vida então?
Apenas uma passagem de purificação?
Talvez entre o corpo e a alma, uma conexão?

Se são tantas as hipóteses e teorias,
o que seria a vida então?
Seria uma prova de superação?
Ou um experimento eterno de ação e reação?

Para mim seria uma provação vital,
A tal porta estreita que nos leva ao Ideal.
Uma forma de nos fazer evoluir e crescer,
De permitir ao espírito engrandecer.

Mas a vida deve ser uma jornada vibrante,
O palpitar de um coração pulsante
E não somente uma simples passagem.
Seja aquele que tem curiosidade incessante,
E cujo olhar esteja atento a todo instante,
Porque a vida não é incógnita, mas sim mensagem!


Alex Horimoto





segunda-feira, 19 de julho de 2021

Melancholia

 
Tom Ph






 The whirring internal machine, its gears
grinding not to a halt but to a pace that emits
a low hum, a steady and almost imperceptible
hum: the Greeks would not have seen it this way.

Simply put, it was a result of black bile,
the small fruit of the gall bladder perched
under the liver somehow over-ripened
and then becoming fetid. So the ancients

would have us believe. But the overly-emotional
and contrarian Romans saw it as a kind of mourning
for one’s self. I trust the ancients but I have never
given any of this credence because I cannot understand

how one does this, mourn one’s self.
Down by the shoreline - the Pacific
wrestling with far more important
philosophical issues - I recall the English notion

of it being a wistfulness, something John Donne
wore successfully as a fashion statement.
But how does one wear wistfulness well
unless one is a true believer?

The humors within me are unbalanced, 
and I doubt they were ever really in balance
to begin with, ever in that rare but beautiful
thing the scientists call equilibrium.

My gall bladder squeezes and wrenches,
or so I imagine. I am wistful and morose
and I am certain black bile is streaming
through my body as I walk beside this seashore.

The small birds scrambling away from the advancing 
surf; the sun climbing overhead shortening shadows;
the sound of the waves hushing the cries of gulls: 
I have no idea where any of this ends up. 

To be balanced, to be without either 
peaks or troughs: do tell me what that is like...
This contemplating, this mulling over, often leads 
to a moment a few weeks from now, 

the one in which everything suddenly shines 
with clarity, where my fingers race to put down 
the words, my fingers so quick on the keyboard 
it will seem like a god-damned miracle.


C. Dale Young





quinta-feira, 15 de julho de 2021

Muito pouca


Erika Anes




 a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra
 
e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção
 
 
 Vasco Gato
in  Um Mover de Mão




terça-feira, 13 de julho de 2021

A dor

 

 Sebastien Del Grosso





A dor não humaniza ou enobrece,
não faz de nós melhores nem nos salva,
nada a justifica nem a invalida.
A dor não perdoa nem imuniza,
não fortalece ou dulcifica a alma,
não cria nada e nada a destrói.
A dor existe sempre e volta sempre,
nenhum dos seus actos será o último
e todos podem ser definitivos.
A dor mais terrível consegue sempre 
ser mais intensa ainda e ser eterna.
Vai sempre acompanhada pelo medo
e ambos se alimentam um ao outro. 


Amalia Bautista 
in, Estou Ausente




domingo, 11 de julho de 2021

História de cão

 






eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

então ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny 




terça-feira, 6 de julho de 2021

Permanência

 
Farid Sharifian




Um fruto maduro ... 
ai se ele apodrece
por esperar de mais!

Ai se a árvore morre,
ai se a terra seca
- homem, não esperes!

Ai se a vida passa
sobre os nossos corpos,
e tu se acaba
sem que a nossa mão
se apoderado
do fruto que espera!

Que se tudo morre
nas ondas vencidas
dum mar que se acalma ...
que se nada resta
mais alto subindo
depois da derrota ...
que se nada há
tão forte de vida
que mais se levante
quanto mais caiu ...
então só nos resta
uma triste cantiga
da vida ceifada:

Fomos levados de mãos atadas,
nós traídos, fomos roubados
da nossa autêntica identidade.

Fomos ceifados da nossa vida,
de nós fizemos pior que entulho,
nada alterado do que era nosso.

Em vão lançámos as mãos prà vida;
em vão quisemos que fosse nossa.
Donos de nada, em tudo intrusos,
temos apenas, bem nossa, a morte.


Adolfo Casais Monteiro





domingo, 4 de julho de 2021

Eu falo das casas e dos homens

 

Cristian Townsend





 Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava materialmente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa a ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


Adolfo Casais Monteiro





sexta-feira, 2 de julho de 2021

Eu, amante

 

 Ricardo Garrido





Eu nunca terei nenhum medo do amor, 
Não de sua profundidade nem de sua altura máxima,
Sua dor intensa e seu prazer terrível.
Nunca terei medo do amor.

Eu nunca hesitarei em descer
Na fortaleza de seu abismo
Nem se esquive da crueldade de seu beijo horrível.
Nunca terei medo do amor.

Nunca devo temer a força do amor
Nem qualquer dor que possa causar.
Através de todos os anos eu posso viver
Nunca terei medo do amor.

Eu nunca vou recuar do amor
Por medo de sua vasta dor
Mas crie alegria com isso e conte-o novamente.
Nunca terei medo do amor.

Eu nunca irei tremer nem recuar
Do toque de moldagem do amor:
Eu amei muito terrivelmente e muito
Sempre para ter medo do amor.



Elsa Gidlow
in, On a Gray Thread