domingo, 29 de agosto de 2021

Um poema

 

Donell Gumiran
 



Não quero abrir a boca
O que devo cantar?
Eu, odiada pela vida,
Não há diferença entre cantar e não cantar.
Por que eu devo falar sobre a doçura?
Quando eu sinto tanta amargura?
Oh, a festa do opressor.
Ele tocou na minha boca.
Não tenho nem um parceiro nessa vida.
Para quem eu posso ser doce?
Não há diferença entre falar, rir.
Morrer, ser.
Eu com minha solidão exausta
Com dor e tristeza.
Nasci para nada.
A boca deve ser selada.
Oh, meu coração, você sabe que é primavera.
E hora de comemorar.
O que devo fazer com uma asa presa?
Que não me deixa voar?
Estive quieta muito tempo.
Mas eu nunca esqueço a melodia,
Porque cada momento murmuro
As músicas do meu coração
Que me lembram do
Dia que eu vou quebrar a gaiola.
Voar dessa solidão
E cantar com melancolia.
Eu não sou um Álamo fraco.
Que qualquer vento vai abalar.
Eu sou uma mulher afegã.
Então, só faz sentido gemer.


Nadia Anjuman 





sábado, 28 de agosto de 2021

queria poder sufocar-me

 
Tomáš Kadlec





 Queria poder sufocar-me
no aperto dos teus braços,
no amor ardente do teu corpo,
sob o teu vulto, sob teus membros pungentes,
no delíquio dos teus olhos profundos,
perdidos no meu amor
– esta amargura árida
que me atormenta.

Queimar confuso em ti, desesperadamente,
esta insaciabilidade da minha alma,
já cansada de todas as coisas
antes mesmo de conhecê-las,
e agora tão exasperada
do mutismo do mundo,
implacável a todos os meus sonhos,
e da sua tranquila atrocidade
que me pesa de modo terrível
e descuidado,
que já nem me concede mais, ao menos,
o pacato tédio,
mas me oprime tormentosamente
e me golpeia, atroz,
sem que me permita gritar,
perturbando-me o sangue,
sufocando-me, atroz,
em um silêncio que é um espasmo,
em um silêncio fremente.

Na embriaguez desesperada
do amor de todo o teu corpo
e da tua alma perdida,
queria desassossegar e queimar a minha alma,
dissipar esse horror
que me rasga os gritos
e os sufocam na minha garganta;
queria queimá-lo, aniquilá-lo em um instante,
e a ti abraçar-me
sem mais restrições;
cegamente, febrilmente,
debatendo-me d'amores.
E depois morrer, morrer,
contigo.

O dia sombrio
em que, solitário, hei
de morrer (e virá, fatalmente),
este dia chorarei,
pensando que poderia
morrer assim, na embriaguez
de uma paixão ardente.
Mas que por piedade do amor,
jamais o desejei.
Por piedade de teu pobre amor,
terei escolhido, alma minha,
o caminho da mais perene dor.


Cesare Pavese
in, Le Poesie





segunda-feira, 23 de agosto de 2021

TESTAMENTO

 





Vou partir de avião 
E o medo das alturas misturado comigo 
Faz-me tomar calmantes 
E ter sonhos confusos 

Se eu morrer 
Quero que a minha filha não se esqueça de mim 
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada 
E que lhe ofereçam fantasia 
Mais que um horário certo 
Ou uma cama bem feita 

Dêem-lhe amor e ver 
Dentro das coisas 
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes 
Em vez de lhe ensinarem contas de somar 
E a descascar batatas 

Preparem minha filha para a vida 
Se eu morrer de avião 
E ficar despegada do meu corpo 
E for átomo livre lá no céu 

Que se lembre de mim 
A minha filha 
E mais tarde que diga à sua filha 
Que eu voei lá no céu 
E fui contentamento deslumbrado 
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas 
E as batatas no saco esquecidas 
E íntegras. 


Ana Luísa Amaral





terça-feira, 17 de agosto de 2021

Tens sangue, tens fôlego

 





Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.

Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste connosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.




 Cesare Pavese
in, Le Poesie





domingo, 15 de agosto de 2021

MÚSICAS

 




Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.



Ana Luísa Amaral





quarta-feira, 11 de agosto de 2021

ENCENAÇÕES E QUASE VOOS








Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça

São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios

Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado

Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas

Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio

E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:

Eu não poder,
em pedra,

abrir as asas


Ana Luísa Amaral

 



terça-feira, 10 de agosto de 2021

E então nós, covardes

 

 Anton Belovodchenko





E então nós, covardes
que amávamos a noite
sussurrante, as casas,
os cursos dos rios,
as luzes rubras e sujas
de tais lugares, a dor
adocicada e quieta -
nós rasgamos as mãos
da viva corrente
e calamo-nos, mas nossos corações
estremeceram-nos com sangue,
e não mais houve doçura,
e não mais abandonamo-nos
ao curso dos rios -
não mais servos, soubemos
estar sozinhos e vivos.


Cesare Pavese
in, Le Poesie





sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Tudo se foi

 

 Daniya





Um desespero sem razão, sem origem 
na linha atual da vida até onde a conheço: 
uma visita da sombra que anda em mim, lá no fundo ... 
Um protesto do ser contra quê? Um apelo 
de que obscura lei dentro de mim negando 
a luminosa lei clara do meu norte? 

Como tudo é simples, nítido e visível 
no mundo de à flor das águas, 
no mundo real, palpável, bem presente, 
de quem sou olhando estas paredes, 
estes objetos familiares, estas coisas indiscutíveis e 
bem vivas, 
que vejo, ouço, toco! 
Mas se eu de facto sou inteiro 
nesta dádiva espontânea e amorosa ao mundo de nós 
todos, 
se não há nenhum voluntário fingimento 
nas mãos que estendo para colher! 
Que presença estranha me perturba, 
me arrasta a um mundo de trevas, de silêncios, 
de angustiosos silêncios recalcados? 

Um calafrio sobe dos confins da terra de ninguém, 
do deserto de silêncio que guardo lá bem no fundo. 
Sobe, e é ele que me ilumina, é ele que me ensina 
como núcleos, os filhos, os sabores, a doçura das coisas, 
uma magia desta vida que amo e me arrasta, 
é ele que me dá a ânsia, a esperança, o sonho, 
é ele que me dá o mundo! 

E agora, tudo se foi ... 
nem angústias, nem ânsias, nem vida ... 
Caio sobre mim como coisa perdida da gravidade, gravidade 
caio sobre mim como um silêncio ... 
Já não sei ouvir lá fora, já não sei ver 
o que vai e vem mesmo mais junto de mim. 

Só este silêncio em que espero esquecer-me de que não 
posso esquecer. 


Adolfo Casais Monteiro






domingo, 1 de agosto de 2021

CONSTELAÇÕES


Sebastien Del Grosso




Usamos todos a ilusão 
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste.


Ana Luísa Amaral