sábado, 30 de outubro de 2021

French Leave

 

Mona Kuhn






 No servile little fear shall daunt my will
  This morning, I have courage steeled to say
I will be lazy, conqueringly still,
  I will not lose the hours in toil this day.

The roaring world without, careless of souls,
  Shall leave me to my placid dream of rest,
My four walls shield me from its shouting ghouls,
  And all its hates have fled my quiet breast.

And I will loll here resting, wide awake,
  Dead to the world of work, the world of love,
I laze contented just for dreaming’s sake,
  With not the slightest urge to think or move.

How tired unto death, how tired I was!
  Now for a day I put my burdens by,
And like a child amidst the meadow grass
  Under the southern sun, I languid lie,

And feel the bed about me kindly deep,
  My strength ooze gently from my hollow bones,
My worried brain drift aimlessly to sleep,
  Life soften to a song of tuneful tones.


Claude McKay




quinta-feira, 28 de outubro de 2021

SONETO DE ANIVERSÁRIO









Passem-se os dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida.
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


VINICIUS DE MORAES
in, ANTOLOGIA POÉTICA




terça-feira, 26 de outubro de 2021

Como Velas De Um Barco

 
Harold Feistein





Ao entrar, o vento enfuna as cortinas 
como velas de um barco. Mas o barco 
não se move, ainda que os ventos 
pareçam favoráveis. Há já anos 
que viajo só a bordo desta nave. 
E pergunto-me que problema técnico 
a mantém ancorada neste nada. 
Assim não poderemos encontrar-nos 
apesar de o vento ser favorável, 
do meu experiente manejo do leme 
e da minha ânsia de chegar ao porto.


Amalia Bautista




segunda-feira, 18 de outubro de 2021

suspiro tardio

 

 



se ao menos eu sentisse totalmente
o movimento da terra em volta do sol.
se eu pudesse conhecer o segredo
da germinação sem roubar da terra
a vida enorme, o rebentar largamente.


se me fosse permitida a amplitude,
a alegria, o agora das planícies
em fim de tarde, e eu não mais
precisasse de trabalhar a atenção,
assim descalço sobre a realidade.


promete-me que amanhã virá a lua
e que, na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.


promete-me que no fim terei existido.


VASCO GATO
in, "Um Mover de Mão"





sábado, 16 de outubro de 2021

lua cheia

 

Malthe Zimakoff





nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.


sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
- é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canções ao acordar do ano.


vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
- vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.


hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.


Vasco Gato




quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A partida

 

Craig Pickup



Ao partir,
disseram-me: voltarás sempre.


Parecia um consolo.

Era uma condenação.

Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.


Mia Couto
in, "Vagas e Lumes"




segunda-feira, 11 de outubro de 2021

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 









«Eu estava tão perto de ti que tenho                                                      frio ao pé dos outros.»                                                                                                       Paul ÉLUARD


Nenhuma morte apagará os beijos 
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas 
                                               [clandestinas da grande cidade livre 
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor, 
esses densos sinais do amor e da morte 
com que se vive a vida. 
Aí estarão de novo as nossas mãos. 
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos. 
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres. 
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e, 
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
                                                                             [e atormentada
desvenderá em cada minuto o seu segredo 
para que este amor se prolongue e noutras bocas 
ardam violentos de paixão os nossos beijos 
e os corpos se abracem mais e se confundam 
mutuamente violando-se, violentando a noite 
para que outro dia, afinal, seja possível. 



JOAQUIM PESSOA 
in, OS OLHOS DE ISA




sexta-feira, 8 de outubro de 2021

EM SILÊNCIO, O GRITO

 

Whang-Od 
Philippines





Ouviste esse grito que morre contra 
as paredes, que atravessa os quartos mais fechados,
que não sai por janelas ou frestas, e que
rasga a garganta de quem o sonhou? Foi 
no silêncio de uma tarde, sob o calor 
de um céu sem horizonte nem pássaros? Ou 
no escuro da noite, quando as estrelas 
se apagam nos teus olhos e só um gemido 
distante ecoa na treva? Mas é dentro de ti 
que o ouves, e onde quer que estejas,
tapando os ouvidos para que o mundo 
não venha ter contigo, ou fechando 
os olhos para que nenhuma imagem 
te distraia, levá-lo-ás na tua cabeça,
em tudo o que pensas, mesmo que não 
saibas já de onde vem, porque nasceu, 
nem porque tens de ser tu a ouvi-lo,
de lábios fechados para que não o grites.


Nuno Júdice






terça-feira, 5 de outubro de 2021

The Fall of a Lark

 





"My wings are closed...I cannot fly,"
She wrote before she plummeted,
A creature less of earth than sky,

A lark that bullies killed with stones,
She fell to earth, her music stilled,
A broken heap of shattered bones.

What gift like hers endures for long
Where ignorance flings stones at art,
And bullies put an end to song?

To choose to sing's an act of will;
She had to know instinctively
A singing bird's the first they kill.


Nadia Anjuman





sábado, 2 de outubro de 2021

AMAR

  






Amar foi durante muito tempo 
gravar iniciais adolescentes, 
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes. 

Aprendi que amar, entre outras coisas, 
é também navegar as águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas, 
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.


A. M. Pires Cabral