sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

If You Knew

 


Klaus Kampert





If you could know the empty ache of loneliness,
          Masked well behind the calm indifferent face
Of us who pass you by in studied hurriedness,
          Intent upon our way, lest in the little space
Of one forgetful moment hungry eyes implore
          You to be kind, to open up your heart a little more,
I’m sure you’d smile a little kindlier, sometimes,
          To those of us you’ve never seen before.

If you could know the eagerness we’d grasp
          The hand you’d give to us in friendliness;
What vast, potential friendship in that clasp
          We’d press, and love you for your gentleness;
If you could know the wide, wide reach
          Of love that simple friendliness could teach,
I’m sure you’d say “Hello, my friend,” sometimes, 
          And now and then extend a hand in friendliness to each.



Ruth Muskrat Bronson





quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Ternura de Fundo

 




 Nos velhos discos de jazz também gosto 
de ouvir o ruído que vem do público. 
Há alguém que grita com a voz rouca, 
feliz pela prestação dos músicos. 
Há aplausos; um copo partido. 
O pulso do lugar no subúrbio 
de uma cidade do Sul. Momentos únicos 
que regressam sempre do passado. 
A vida deve ser qualquer coisa assim, 
para lá da morte: o perdido 
rumor de vozes numa noite de música. 
E a nossa alma imortal deve ser 
este instante preciso, frágil, breve, 
em que um copo retine num velho disco de jazz. 



Joan Margarit
in, "Misteriosamente Feliz"






sábado, 8 de janeiro de 2022

DO CAIS

  





Todos os barcos partiram já
deste cais improvisado no abandono
das memórias queimadas, partiram sem velas,
e ninguém reconheceu o rasto incerto
do definitivo longe.

Só agora dou pelo peso do esquecimento.
A espuma embrulha-me com limos, espanto e sal.
E uma inviolável concha flutua na minha existência.

Apago as estrelas com a manga da absoluta solidão,
percebo que nenhuma luz me habita os olhos
- e fico cego diante do espelho.

Ninguém reconheceu que se morria.


Vasco Gato
in,  "IMO"




quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Vai, Ano Velho

 





1.

 Vai, ano velho, vai de vez, 
vai com tuas dívidas 
e dúvidas, vai, dobra a ex- 
quina da sorte, e no trinta e um, 
à meia-noite, esgota o copo 
e a culpa do que nem me lembro 
e me cravou entre janeiro e dezembro. 

Vai, leva tudo: destroços, 
ossos, fotos de presidentes, 
beijos de atrizes, enchentes, 
secas, suspiros, jornais. 
Vade retrum, pra trás, 
leva pra escuridão 
quem me assaltou o carro, 
a casa e o coração.
 
Não quero te ver mais, 
só daqui a anos, nos anais, 
nas fotos do nunca-mais. 

2.

Vem, Ano Novo, vem veloz, 
vem em quadrigas, aladas, antigas 
ou jatos de luz moderna, vem, 
paira, desce, habita em nós, 
vem com cavalhadas, folias, reisados, 
fitas multicores, rebecas, 
vem com uva e mel e desperta 
em nosso corpo a alegria, 
escancara a alma, a poesia, 
e, por um instante, estanca 
o verso real, perverso, 
e sacia em nós a fome 
- de utopia. 

Vem na areia da ampulheta com a 
semente que contivesse outra se- 
mente que contivesse ou- 
tra semente ou pérola 
na casca da ostra 
como se 

se outra se- 
mente pudesse 
nascer do corpo e mente 
ou do umbigo da gente como o ovo 
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse 
a placenta da noite em viva flor luminescente. 

3.

Adeus, tristeza: a vida 
é uma caixa chinesa 
de onde brota a manhã. 

Agora 
é recomeçar. 
A utopia é urgente. 

Entre flores de urânio 
é permitido sonhar.


Affonso Romano de Sant’Anna