terça-feira, 31 de maio de 2022

Sombra

  

Alexei Bednij





Sombra de minha sombra, tu, errante,
o caminho termina enquanto pisas,
volve ao começo sempre mais adiante
e, onde estiveste, já volatilizas.

Imagem plana, em tuas viagens lisas,
só te surpreende o tempo caminhante.
Na planície do espaço que improvisas
estás interpretada pelo instante.

Vês com o tempo dos olhos, se revês,
cega o momento uma outra lucidez:
não és quem eras, sendo tu no entanto.

Compondo em forma a esquiva tessitura,
o antigo tempo, este que inaugura,
marca teu passo em métrica de espanto.


Maria Ângela Alvim




terça-feira, 17 de maio de 2022

UMA GENTE

 

Guy Cohen
 





Uma gente em fuga de outra gente,
num país debaixo do sol
e de algumas nuvens.

Deixam para trás um tal seu tudo,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos, justamente nos quais o fogo se mira.

Levam às costas os cântaros e as trouxas,
quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.

É em silêncio que alguém desfalece,
é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
e alguém sacode o filho morto.

Nunca é pela estrada que têm à frente,
nem é esta ponte
sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
no alto, um avião errante rodopia.

Oportuna seria a invisibilidade,
uma parda rochosidade,
ou melhor a inexistência
durante um pouquinho ou por mais tempo.

Mais ainda está por acontecer, apenas onde e o quê.
 Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quando e quem-
 de que forma e com que intenções.
Se puder escolher,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.


Wislawa Szymborska 
In, "Instante"





sexta-feira, 13 de maio de 2022

Resgatado


 







 e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios 
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava

e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida.


Rui Amaral Mendes 
in, Frágil





quinta-feira, 12 de maio de 2022

Saber Errar

 

Anthony Tran




Um veio para aqui, o outro foi 
para além, e aí estão, pendurados, a estrebuchar 
como folhas nos ramos. Coisa estranha,
ninguém é já capaz de ser alegre.
Todos desesperam, e abertamente o dizem,
como se fosse uma evidência
não estar já seguro de si mesmo.
Os olhos olham e os ouvidos escutam
como antes, mas o dom, a esperança
a que se chama génio, já a perderam,
há uma espécie de azedume sempre à espreita,
a leveza que há em nós já não se anima,
e a pesadez ficou mais pesada. Tempos houve
em que eram diferentes. Hoje 
já ninguém cai em desconsolo
como os felizes de outrora, que 
transformavam a desgraça em contentamento;
estrebucham, estremecem como folhas,
prisioneiros da sua mediocridade,
imóveis, pendurados dos ramos.
Já ninguém reconhece os seus erros.
O seu único erro é não saberem errar.


Robert Walser
in, Estou Só e Fora do Mundo: 50 Poemas





segunda-feira, 9 de maio de 2022

Qualquer Coisa de Paz

 









 Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruina
a luz da fronte onde a atenção domina.


Fernando Echevarría


domingo, 8 de maio de 2022

Do Fundo do Silêncio

 

Gregory Colbert 
in, Ashes and Snow






quando o tempo orbitava em torno do útero
 e as mãos fundavam um inocente contínuo com o presente
 desconhecia a essência inabitável do pretérito
 e as minudências de um tempo ausente e indefinido;
 
 mais tarde revelaram-me a oponibilidade do polegar e
 o mecanismo da flexão dos dedos
 e descobri um espaço ausente por dentro de um punho
 onde cuidei ser possível encerrar o futuro:
 
 desconhecia o sublime e transcendental movimento dos astros
 a ininterrupção primacial da luz
 e a circulação das folhas
 sob o vento que sopra onde quer.
 
 
 
Rui Amaral Mendes
in, “Do Fundo do Silêncio”




domingo, 1 de maio de 2022

A VOLTA

 







Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.

 Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.

E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,

 tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo!


MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia