domingo, 24 de julho de 2022

CONFRONTO

 


Volodymyr Tverdokhlib






Bateu, Amor à porta da Loucura.
Deixe-me entrar, pediu, sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão.

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto o Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu.

Enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar.


Carlos Drummond de Andrade





quinta-feira, 21 de julho de 2022

Tale of a Former Black Sheep

 

Rob Tol







For years I wore
your shame as my own
and lived unknown
in terror of being seen
like a leper
self-quarantined
intrinsically unclean

Your neglect
became to me
my insignificance
undeserving of your glance

Your abuse
became to me
my fault and utter blame
my soiled but rightful name 

Your abandonment
to me
was my unworthiness
unfit and valueless

'Til this layered shame became
a camouflaging cloak
wrapped about with care
disguising me as if
I wasn't even there

How I avoided them
my friends so true
for they could plainly see
the agony in me
and I couldn't control
it radiating through

Yet butterflies won't stay bound
in crippling cocoons
integrity impugned
by wings that cannot fly-
and I at last have found
the answer to my wounds
in exposing you
and all your lies

You were cruel-
I do matter

You were guilty-
I am not to blame

You were unfit-
I am worthy

You nearly destroyed me-
But I overcame

Now my only dread is
of leaving this world
as un-notably as I came
as invisibly as I lived
to be known only 
by others
as unredeemed as
you thought me to be-
No! the truth
will set me free...

I humbly give
this cloak to you
it was yours to wear
not mine to share

I'm through

I'm through

I'm through.


Rhona McFerran 




quarta-feira, 20 de julho de 2022

TESTAMENTO DA MULHER SUSPENSA

 


Nirav






Eis o que vos deixo:
um leve gosto
de renascer lembrada.

E um falso desejo de ser esquecida.

Que eu virei
buscar a espuma da onda
que ficou para sempre por quebrar.

Beleza não me bastou:
o que quis ser
foram cetins de fogo,
pétalas de cinza depois do abraço.

Nem flor invejei:
o que mais ilumina
vem de um oceano escuro.

Esperanças tive: todas naufragaram
ante cansaços e remorsos.
Procurei ilhas e mares:
só havia viagens,
travessias de água
nos olhos de quem amei.

Num mundo com remédios parcos
não clamei bravuras.
Injusto é viver
em perecível ser.

Menina,
aprendi a desenrolar tapetes
em rasos pátios voadores,
varandas maiores que o mundo
onde o tempo à nossa mão vinha beber.

Meus pequenos dedos
rasgaram céus,
mas o ensejo era largo:
em mim secaram
lembranças de um mar antigo.

Assim,
tudo o que sou
já fui
na criança que sonhou ser tudo.

Meus lutos, sem emenda, carrego:
viuvez de mulher
não vem de marido.

Vem do amor não mais sonhado.

Com a fragilidade de um riso
enfrentei ruínas e derrotas
e apenas a vida, calada, me calou.

Tudo falei com meus amantes.
Perante o amor, porém, não tive palavra.
O que da vida me restou:
pegadas alheias sob meus pés molhados.

Viver sabe quem ainda vai viver.

Deixo-me,
mulher que quase foi,
à mulher que nunca fui.


Mia Couto
in, Tradutor de Chuvas




segunda-feira, 18 de julho de 2022

Quando vier a Primavera

 






Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro
In, Poemas de Alberto Caeiro





sexta-feira, 15 de julho de 2022

O SAPATEIRO

 








 Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.


Joan Margarit




terça-feira, 12 de julho de 2022

CARTA A MARIA CLEA

 
Michael Tarasov






Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
 
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
 
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
 
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
 
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
 
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
 
******
 
Só, — enquanto a vida
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
 
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
 
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.


MARIA ÂNGELA ALVIM





sexta-feira, 8 de julho de 2022

Soneto ao amigo

 
Alijeb





 Procure ao largo de alma o lenitivo
para este mal da vida, sem promessa.
O corpo vive alheio a se ter vivo
quando fome maior nos arremessa.

 Temos todos, enfim, um amor cativo
que tudo pode e inflama e tudo cessa
quando liberto em si vê seu motivo
a este amor dê tudo e nada peça.

 Cante em sua voz o rito e os dissabores
do tempo e acontecer mas abstraindo
aspecto transitório e fáceis cores.

 Só amor, enquanto é, nos anistia:
sem ele, seres, coisas, verso vindo;
são refúgios do medo sem poesia.



MARIA ÂNGELA ALVIM
in, Poemas seguidos de Carata a um Cortador de Linho




quarta-feira, 6 de julho de 2022

Tumbas das Hetairas

 
“In Bed with the Ancient Greek”
Museu de Arte de Berlim






Em seus longos cabelos elas jazem,
rostos escuros, encerrados em si mesmos,
olhos cerrados como se distantes.
Esqueletos e bocas, flores. E nas bocas
dentes polidos, como num xadrez de bolso,
peças enfileiradas em marfim.
Flores, pérolas amarelas, ossos finos
e mãos e mantas, murchas vestimentas,
e lá no fundo, o coração cravado.
Mas sob anéis e talismãs e pedras
de olhos azuis (regalos preferidos),
ainda resta, em sua cripta, o sexo mudo,
cumulado de pétalas de flores.
Pérolas amarelas, ainda, esparsas,—
pratos de terracota, curvos, adornados
de suas imagens, cacos verdoengos
de jarras de óleo olentes como flores,
miniaturas de deuses e altares,
céus de hetairas, deuses desejantes.
Cintos soltos, escaravelhos-pedras,
vultos pequenos com enormes falos,
boca ridente, atletas, dançarinas,
fíbulas de ouro, como arcos de caça
para amuletos de animais e pássaros,
e agulhas finas, utensílios raros,
e sobre um vaso circular, vermelho,
como a negra inscrição de algum portal,
as pernas rígidas de uma quadriga.
De novo flores, perólas roladas,
as ancas lisas da pequena lira,
e dentre os véus que caem como névoa,
como se de crisálidas-sandálias:
a borboleta leve de um artelho.

Jazem assim, acúmulo de coisas,
coisas preciosas, pedras, jóias, jogos,
bagatelas (caidas sobre elas)
no escuro, como se o leito de um rio.

Pois elas foram rios,
e em ondas breves e velozes, nelas,
precipitaram-se os corpos de jovens
(que ansiavam só por uma vida nova)
e torrentes de homens irromperam.
E às vezes os meninos das colinas
da infância vinham em tímidas quedas,
brincavam com as coisas até quando
a cachoeira enchia os seus sentidos:

Então davam à água rasa e clara
toda a extensão dos cursos expansivos
e enfrentavam remoinhos e águas fundas,
refletindo, pela primeira vez, as margens
e a voz dos pássaros ao longe —, e as noites
estelares de um país ameno abriam
um céu que nunca mais se fecharia.



Rainer Maria Rilke
in, em “Novos poemas I”





As heteras ou hetairas (do grego ἑταίραι, transl. hetaírai: 'companheiras', 'amigas'), na sociedade da Grécia Antiga, eram prostitutas refinadas, que, além da prestação de serviços sexuais, ofereciam companhia e sabedoria, frequentemente tinham relacionamentos duradouros com seus clientes, diferenciavam-se das prostitutas comuns (pornoi) da época, pois além do prazer carnal, ofereciam prazer cultural para seus companheiros, tendo casos com os homens que as procuravam.

O nome Hetaira, significa companheira, e foi utilizado em alusão a Afrodite Hetera, um dos epítetos da deusa Afrodite.



sábado, 2 de julho de 2022

Symptom Recital

 
Marcel Marceau






 I do not like my state of mind;
I’m bitter, querulous, unkind.
I hate my legs, I hate my hands,
I do not yearn for lovelier lands.
I dread the dawn’s recurrent light;
I hate to go to bed at night.
I snoot at simple, earnest folk.
I cannot take the gentlest joke.
I find no peace in paint or type.
My world is but a lot of tripe.
I’m disillusioned, empty-breasted.
For what I think, I’d be arrested.
I am not sick, I am not well.
My quondam dreams are shot to hell.
My soul is crushed, my spirit sore;
I do not like me any more.
I cavil, quarrel, grumble, grouse.
I ponder on the narrow house.
I shudder at the thought of me…
I’m due to fall in love again.


Dorothy Parker
in, Complete Poems