sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Segredo

 
Andrea Costantini 




É este o meu segredo –
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.

Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.


José Agostinho Baptista
in, Quatro Luas




terça-feira, 25 de outubro de 2022

Acordar

  

Engie








Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...


Álvaro de Campos
in, "Poemas"




terça-feira, 18 de outubro de 2022

Não Dês Esmola a Santinhos

 






MOTE

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

GLOSAS

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos…
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas…
Se elas são p’ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.

Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão…
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.

Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?…
Arranjam voz comovente
Para jludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,
Dá antes aos pobrezinhos.

Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p’rà ajuda da cera»…
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.


 ANTÓNIO ALEIXO




sábado, 15 de outubro de 2022

Ficarás comigo?

 






Ficarás comigo quando me levantar do chão
depois de desistir de ser manso
e calmo e pensar só em não mais
aquietar o mundo,
não mais poupá-lo às palavras que devem ser ditas
não mais desistir do que é correcto?

Ficarás comigo quando colocar em risco todas
as raízes e mesmo as nossas árvores e
houver um horizonte que possa ser só fogo,
tudo queimando
mesmo se te garanto que às vezes temos de arder?


Pedro Santo Tirso



quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Let Go

 





 “Hold on, hold on, hold on,” they said,
“You’re a dandelion in the breeze,
Look what the winds of change have done
to all these autumn leaves.”

 
“Hold on, hold on, hold on,
This big wide world is not for you,
Hold on for long enough
for the last gust to dance on through.”

 
So I held on, held on, held on,
They said that’s how you know you’re strong,
But not until I wilted
did I notice something wrong.

 
I thought holding on was bravery,
But when winds of change do blow,
Sometimes it’s even braver still
to let go, let go, let go.



Erin Hanson
in, Dreamscape - The Poetic Underground





quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Courage

 

Camila Quintero Franco






Courage isn’t a brilliant dash,
A daring deed in a moment’s flash;
It isn’t an instantaneous thing
Born of despair with a sudden spring

It isn’t a creature of flickered hope
Or the final tug at a slipping rope;
But it’s something deep in the soul of man
That is working always to serve some plan.

Courage isn’t the last resort
In the work of life or the game of sport;
It isn’t a thing that a man can call
At some future time when he’s apt to fall;

If he hasn’t it now, he will have it not
When the strain is great and the pace is hot.
For who would strive for a distant goal
Must always have courage within his soul.

Courage isn’t a dazzling light
That flashes and passes away from sight;
It’s a slow, unwavering, ingrained trait
With the patience to work and the strength to wait.

It’s part of a man when his skies are blue,
It’s part of him when he has work to do.
The brave man never is freed of it.
He has it when there is no need of it.

Courage was never designed for show;
It isn’t a thing that can come and go;
It’s written in victory and defeat
And every trial a man may meet.

It’s part of his hours, his days and his years,
Back of his smiles and behind his tears.
Courage is more than a daring deed:
It’s the breath of life and a strong man’s creed.



Edgar A. Guest





sábado, 8 de outubro de 2022

Emancipation

 







 No rack can torture me,
My soul’s at liberty
Behind this mortal bone
There knits a bolder one
You cannot prick with saw,
Nor rend with scymitar.
Two bodies therefore be;
Bind one, and one will flee.
The eagle of his nest
No easier divest
And gain the sky,
Than mayest thou,
Except thyself may be
Thine enemy;
Captivity is consciousness,
So’s liberty.


Emily Dickinson




domingo, 2 de outubro de 2022

Agora, ele já não sonha

 




 Agora, 
ele já não sonha,
as pálpebras estremecem,
é noite outra vez,
o coração fecha todos os portos, todas as 
portas,
e, no reverso de cada página,
somam-se cicatrizes, escombros,
muitos navios sem leme, sem âncora, 
naufragados,
sem os espelhos que um dia, nos mares
entre o norte e o sul,
o viram contemplar, na inquietação das 
vagas,
um rosto aflito que já nada dizia.


José Agostinho Baptista