quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Ano Passado

 





O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.


Carlos Drummond de Andrade




quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

É Tempo de Natal

 


É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?


ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA







terça-feira, 13 de dezembro de 2022

What Matters Most is How Well You Walk Through the Fire

 



 





I write poetry, worry, smile, 
laugh 
sleep 
continue for a while 
just like most of us 
just like all of us; 
sometimes I want to hug all 
Mankind on earth 
and say, 
god damn all this that they’ve brought down 
upon us, 
we are brave and good 
even though we are selfish 
and kill each other and 
kill ourselves, 
we are the people 
born to kill and die and weep in dark rooms 
and love in dark rooms, 
and wait, and 
wait and wait and wait. 
we are the people. 
we are nothing 
more.


Charles Bukowski 


quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Gitanjali 60

 

Royce Bair




On the seashore of endless worlds children meet. The infinite sky is 
motionless overhead and the restless water is boisterous. On the seashore 
of endless worlds the children meet with shouts and dances.

They build their houses with sand, and they play with empty shells. With 
      withered leaves they weave their boats and smilingly float them on 
      the vast deep. Children have their play on the seashore of worlds.

They know not how to swim, they know not how to cast nets. Pearl-fishers 
      dive for pearls, merchants sail in their ships, while children gather 
      pebbles and scatter them again. They seek not for hidden treasures, 
      they know not how to cast nets.

The sea surges up with laughter, and pale gleams the smile of the sea-beach. 
      Death-dealing waves sing meaningless ballads to the children, 
      even like a mother while rocking her baby’s cradle. The sea plays with 
      children, and pale gleams the smile of the sea-beach.

On the seashore of endless worlds children meet. Tempest roams in the 
      pathless sky, ships are wrecked in the trackless water, death is abroad 
      and children play. On the seashore of endless worlds is the great 
      meeting of children.



RABINDRANATH TAGORE