terça-feira, 31 de outubro de 2023

A RAZÃO PLATÓNICA

 








Há uma doutrina da caverna que consiste em 
separar a luz e a sombra. Dizem que, para os que 
vivem na caverna, a luz é um sonho porque só 
conhecem a sombra. Mas dizem outros, como é 
que se pode saber que a luz existe quando nunca 
se saiu da sombra? Os teólogos, porém, acrescentam 
a estas dúvidas que também o homem, que 
nunca conviveu com os deuses, os pôde 
imaginar à sua imagem semelhança; e é 
por isso, acrescentam, que a luz surgiu quando 
o homem a criou à semelhança da sombra. Isto, 
porém, nada tem a ver com a realidade. Quando 
o dia nasce, vemos a luz que surge no horizonte em 
que o sol se anuncia; e aquilo que era a sombra 
que habita a noite dissipa-se quando o céu 
se torna azul. Mas os que acreditam na caverna 
voltam as costas à realidade; e quando o dia nasce 
põem-se à sombra, tapando os olhos à luz,
para concluir que a sua razão é única,
e o mundo a sua caverna.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável




quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O INFERNO

 


Pexels






 Debrucei-me na janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. Alguém
do inferno convidou-me a entrar.
Não me lembro quem era, ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro
ou se aquelas pessoas sorriam,
se havia algum que se lamentasse,
nem se desconfiei em algum momento.
Procurei e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei
e desde então vivo no inferno.
É um lugar igual a outro qualquer
cheio de gente e coisas. Mas
sei que só pode ser o inferno
porque neste lugar não estás comigo.

Amalia Bautista



quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Noite de amor sem dormir

 

Vittorio Natoli





Noite acima nós dois com lua cheia, 
comecei a chorar e tu só rias. 
Teu desdém era um deus, minhas sombrias 
queixas horas e pombas em cadeia. 

Noite abaixo, nós dois. Ar que golpeia, 
pelas fundas distâncias tu gemias. 
Minha dor era um grupo de agonias 
sobre teu débil coração de areia. 

Uniu-nos a aurora sobre a cama, 
as bocas postas no jorro gelado 
de um sangue sem ter fim que se derrama. 

E o sol entrou no quarto bem fechado 
e o coral da vida abriu sua rama 
sobre meu coração amortalhado.


Federico García Lorca



terça-feira, 26 de setembro de 2023

Gostam dos poemas

 

Ed Ruscha






Gostam dos poemas colhidos na arca frigorífica tê-los ali em 
porções doseadas com as instruções sobre o tempo médio para 
aquecer no fogão ou no microondas gostam muito de ler o nome 
como a etiqueta pendurada num pé um prego enferrujado sobre a 
passagem deles sumariamente julgada contida um morto já calmo 
metido num saco hermético selado plenamente abraçado pela 
terra e coroado por flores das mais castas gostam de lhe sentir os 
dentes se não puder ferrar quando brincam a pôr a mão no fogo 
sendo certo que não ateará a seara nem lhes deitará uma olhada 
que os faça sentir cercados podem estar descansados ler um
poema é um acto ao abrigo do máximo sigilo sem compromisso 
de qualquer espécie pode sair a meio cavar tirar o que lhe 
apetecer do contexto partilhar como legenda da próxima selfie 
suspendê-lo logo que se torne inconveniente não tem botão mas 
feche os olhos que é como desligar e até pode arrancar a página é 
o mais à vontade do freguês que possa imaginar e sim em breve 
haverá serviço ao cliente e um gabinete para que os utentes 
façam as suas reclamações também já estamos a tratar com as 
entidades competentes para estabelecer um sistema de garantia 
mas sobretudo que esteja já bem frio e o olhar ferocíssimo do 
poeta se detenha a partir daquela segunda data sem 
possibilidade de lhe crescerem unhas ou cabelos nem de 
assombrar seja quem for muito para breve será aprovada ainda 
uma directiva entre Estados para gerar confiança nos 
consumidores: poetas serão sempre servidos mortos



Diogo Vaz Pinto




terça-feira, 12 de setembro de 2023

Compacto

 






Chamado a mostrar aquilo que faz, o poeta português tem a 
tendência de mostrar os dentes, sorri muito, dispondo-se assim a 
participar nessa acareação, nessa coisa que se fazia aos cavalos e 
era também exigido aos escravos, um exame superficial que 
permitia ao potencial comprador aferir se tinha ali um espécime 
em que valia a pena investir. Num certo sentido, também os 
poetas hoje parece que publicam os seus textos de modo, não a 
 a forma como pretendem fazer-se ler, mas a terem 
um pretexto para aparecer nas corridas, ser vistos, trabalhar nos 
campos de algodão da visibilidade e do mediatismo. Ora, sempre 
que me é pedido que escolha alguns dos meus textos ou poemas, 
faço os possíveis por tentar mostrar não os dentes mas o olho do 
cu, como faziam os bárbaros ou os pobres agricultores que eram 
chamados a participar numa batalha contra exércitos senhoriais 
dotados de sumptuosas forças de cavalaria e o raio. Viro-me, 
dobro-me, e exibo-o ao sol e aos fidalgos, eu que sou filho do 
acaso raivoso que me vai parindo diariamente e que não envergo 
qualquer outra distinção. E isto porque vejo o poema como um 
grito articulado para ser ouvido muito baixo, entre esses raros que 
estão mais atentos, e que vencem a euforia das épocas. Em 
relação à nossa, tenho este entendimento de que algo de nojento 
tomou conta de todos os espaços onde circula mais gente, e 
parece-me assim que, para reflectir a sua expressão, não vale a 
pena nem sorrir nem fazer caretas; o melhor é mesmo mostrar 
esta zona no corpo de cada um de nós que se livra do que há de 
inessencial, ou seja, das fezes. Não que o poema concorra para o 
regime das excrescências, mesmo das ornamentais que 
encontramos nos lugares hoje dedicados à arte. No fundo, o 
poema começa por livrar-se da etiqueta e do sufoco do que é feito 
para o bem das aparências. Trata-se de desafiar essa ordem
 infernal que se faz camuflar por meio de um sorriso, de um “like”, 
entre outras formas de anuência. Não temos muito do que estar 
contentes. Não vejo motivo para os poetas buscarem o seu lugar 
num ranking que necessariamente os desfavorece. O que me 
parece admirável num poema é o modo particular de traduzir 
certos aspectos deste inferno que nos envolve até se nos meter 
debaixo da pele, mesmo quando o que o poema exprime são as 
relações que lhe escapam, que nos servem de alívio, de 
maravilhamento. Se os poetas estão sempre numa relação 
desfavorável, se não têm armaduras com motivos florais e nem 
cavalos para os elevar acima do nível da geral infantaria, parece-
me que isso os coloca na relação ideal: a do um para um. E, face a 
tudo o que nos cerca hoje, tenho como principal orientação esse 
desejo de fazer a guerra às claras, de provocar o inimigo, fazê-lo 
exibir as suas verdadeiras cores, para que o conflito que 
geralmente nos faz de forma dissimulada seja assumido, para que 
tenha de se explicar, e não possa simplesmente impor como 
senso comum um conjunto de noções que tornam impossível a 
vida, e nos lançam no regime da mera sobrevivência.


Diogo Vaz Pinto


domingo, 27 de agosto de 2023

O anoitecer

 








“O anoitecer é por toda a parte um grande serviço” (Ferreira 
Gullar), torna-nos enfim distantes, a cada um sua época, sua 
forma de discrição, os seus actos isolados, as sombras que 
ganham vida de sóis ausentes, esse alimento a partir das 
reservas, a noite como projecção do desconhecido, um território 
que cresceu de tantas migalhas e conjecturas, com uma 
paciência infernal, primeiro receoso, depois admirado desses 
sentidos que se calibram nesta zona autónoma, suspensa, 
florescendo como a imagem sobre a água numa transformação 
que não se aquieta, aqui os juízos degeneram, os corredores 
aparecem desfeitos, um quarto não liga já com os outros nem 
com o resto da casa, ou até do mundo, em vez da pauta para soar 
em conjunto alto, há como uma trepidação debaixo das palavras, 
em vez de coordenadas fixas as raízes levantam-se rasgando os 
mapas, nos espelhos vês a terra revolvida e espalhada por ali 
a “tua grave ossada à beira de um mar sujo e ignorado”, por uns 
momentos as luzes ao longe lembram um trânsito de feras, certos 
textos indecifráveis abrem as suas flores e percebe-se a extensão 
dos campos de silêncio aceso, as palavras perdidas retomam o 
rumo, cada um é lembrado do ponto onde estava como se lhe 
fosse devolvido o corpo, esse “clarão soterrado”, a noite diz-nos 
onde estamos face a nós mesmos, não há atalhos e ninguém 
escapa do seu canto, o pó levanta-se das coisas, ergue-se numa 
precária constelação, se entrámos a medo, somos agora nativos 
desses impulsos que percorrem toda uma cena de caça, capazes 
de um desequilíbrio de forças a partir de elementos mínimos, 
pingar de manchas pulsantes um espaço perfumado de ervas, 
sentir o odor misturar-se entre a fome e a morte tão próximo da 
fonte, como quem devorasse o próprio estômago, ou a língua, 
mastigar-se aflito, radiante, nu e mortal.
 

Diogo Vaz Pinto



terça-feira, 15 de agosto de 2023

A uns passos do canto

 






Eu não tenho culpa se tens frio, querido
Não esperava a tua morte

Joyce Mansour

 
A uns passos do canto onde a cama
se afoga lentamente,
reuni o que restava da minha fé perdida
sobre espaços silenciosos, como se quisesse
medir a duração de Deus contra a sombra da tua retirada.
Tudo só ditava já um soluço
e eu fiz-te um gesto usando a imaginação
da morte, chamava
para servir-te chá num parêntesis,
afastando com a mão essa nuvem
de um olor que te prendeu uma flor no cabelo.

As chávenas arrefeciam e na porcelana
vimos os pássaros azuis apagar-se.
Pedi que o calor perdurasse,
e olhava em redor, vendo tudo cobrir-se
de ervas altas. Sobre a minha boca enterrada
senti passar a primavera, e algures
nós dois ainda soprando
sorrindo aguardando esse travo forte
tão doce uns séculos mais tarde.

 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



domingo, 13 de agosto de 2023

UM CONCEITO INEXPRIMÍVEL

 







A imaginação que, segundo os estóicos,
se reduz a uma impressão divina, põe um problema
concreto a quem não acredita na alma. De facto,
se é só o corpo que existe, e não encontramos
nada de imaterial para além dele, a imaginação
deve ser posta de lado, tal como a alma de
que faz parte. Os estóicos, para quem ela
deixava no espírito a sua marca, procuravam
com o seu sacrifício aceder a esse mundo
metafísico onde a sensação não tinha outra
utilidade para além do pensamento que produzia,
e depois dele a imagem e o conceito expresso
a partir dela. E queriam morrer para atingir
mais depressa a esfera do divino. Porém,
os epicuristas riam-se deles e diziam que tudo
o que diziam não passava de palavras. E eles
ficavam a pensar: se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio? E
alguém disse, ao vê-los de boca fechada,
que queriam prender a imaginação no interior
do seu corpo, onde se encontrava a alma; mas
quando a abriam para comer, concluiu o crítico,
mastigavam as palavras com a comida, e tudo
se juntava nesse corpo que, para eles, não
existia, para terminar no estrume
que devolviam à terra, como se a imaginação
não servisse para mais nada além
de adubo da primavera


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável




sexta-feira, 28 de julho de 2023

A cada um as suas armas

 








A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, e a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável.

Falar com a minha voz depois de tantas outras,
dos condenados a quem roubaste as cartas,
copiando aquele ritmo que se aferrava à carne
e dizias que os viste cair
depois de os teres seguido para a guerra, mas agora
que já ninguém faz luto pelos rouxinóis
e toda a gente escreve poemas,
não te podes valer de mentiras
nem de verdades,
já nem sequer do antepassado
enterrado num canto do pátio
— homem que teve os seus méritos.

Se a folha ainda me arranca um traço,
pisando-me os ossos da mão,
a distância é o meu único assunto.
De olhos fechados, entretenho-me
com a sensação de entrar em comboios remotos,
a tresandar a esquecimento para ser embalado
pela trepidação desse traço contínuo.

Terra e água num copo, a raiz amarga
que lá tenho escuta atentamente,
moendo tudo para épocas futuras.
Lá fora, o mar como um pássaro só
descansa, revê todos os finais,
mil capitães adormecidos enquanto os navios
se entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra.
Atraídos, os cometas caem longe
para que os sinta.
Os jardins escutam as flores,
a morte diz o nosso nome
e vimos esperá-la formando filas.


 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Meias

 



 




Bebo o meu café enquanto bebes 
do meu café. Intriga-me que faças isso. 
Se te posso pedir um 
(se podes tomar um igual) 
porque hás-de querer do meu? 
Que 
não. Que não queres. Escuso 
de pedir 
que não queres. Então 
começo um cigarro e tu fumas 
do meu cigarro dizes 
"tenho quase a certeza de 
não acabar um sozinha" por isso 
fumas do meu. 
Dá-te gozo esse roubar de 
leves goles furtivos 
dá gozo participar 
do prazer que eu possa ter 
contigo 
(e entre nós) 
dá-se agora tudo 
a meias. 


João Luís Barreto Guimarães
in, Poesia Reunida





sábado, 8 de julho de 2023

Protest

 
John Vink




To sin by silence, when we should protest, 
Makes cowards out of men. The human race 
Has climbed on protest. Had no voice been raised 
Against injustice, ignorance, and lust, 
The inquisition yet would serve the law, 
And guillotines decide our least disputes. 
The few who dare, must speak and speak again 
To right the wrongs of many. Speech, thank God, 
No vested power in this great day and land 
Can gag or throttle. Press and voice may cry 
Loud disapproval of existing ills; 
May criticise oppression and condemn 
The lawlessness of wealth-protecting laws 
That let the children and childbearers toil 
To purchase ease for idle millionaires. 

Therefore I do protest against the boast 
Of independence in this mighty land. 
Call no chain strong, which holds one rusted link. 
Call no land free, that holds one fettered slave. 
Until the manacled slim wrists of babes 
Are loosed to toss in childish sport and glee, 
Until the mother bears no burden, save 
The precious one beneath her heart, until 
God’s soil is rescued from the clutch of greed 
And given back to labor, let no man 
Call this the land of freedom. 


Ella Wheeler Wilcox



domingo, 25 de junho de 2023

Noutros Lugares

 

Vika Lowa






Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que aos mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam para sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
e que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


Jorge de Sena



terça-feira, 20 de junho de 2023

Rosa

 

 




Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.


Nuno Júdice 
in, "A pura inscrição do amor"



domingo, 18 de junho de 2023

On Freedom

 


Imagem do filme 
"Khalil Gibran's The Prophet"







And an orator said, Speak to us of Free-
dom.
    And he answered:
    At the city gate and by your fireside I
have seen you prostrate yourself and worship
your own freedom,
    Even as slaves humble themselves before
a tyrant and praise him though he slays
them.
    Ay, in the grove of the temple and in
the shadow of the citadel I have seen the
freest among you wear their freedom as a
yoke and a handcuff.
    And my heart bled within me; for you
can only be free when even the desire of
seeking freedom becomes a harness to you,
and when you cease to speak of freedom
as a goal and a fulfilment.
 
    You shall be free indeed when your days
are not without a care nor your nights with-
out a want and a grief,
    But rather when these things girdle your
life and yet you rise above them naked and
unbound.
 
    And how shall you rise beyond your
days and nights unless you break the chains
which you at the dawn of your under-
standing have fastened around your noon
hour?
    In truth that which you call freedom is
the strongest of these chains, though its
links glitter in the sun and dazzle your eyes.
 
    And what is it but fragments of your own
self you would discard that you may become
free?
    If it is an unjust law you would abolish,
that law was written with your own hand
upon your own forehead.
    You cannot erase it by burning your law
 books nor by washing the foreheads of your
judges, though you pour the sea upon them.
    And if it is a despot you would dethrone,
see first that his throne erected within you is
destroyed.
    For how can a tyrant rule the free and
the proud, but for a tyranny in their own
freedom and a shame in their own pride?
    And if it is a care you would cast off, that
care has been chosen by you rather than
imposed upon you.
    And if it is a fear you would dispel, the
seat of that fear is in your heart and not in
the hand of the feared.
 
    Verily all things move within your being
in constant half embrace, the desired and
the dreaded, the repugnant and the cherished,
the pursued and that which you would
escape.
    These things move within you as lights
and shadows in pairs that cling.
    And when the shadow fades and is no
more, the light that lingers becomes a
shadow to another light.
    And thus your freedom when it loses its
fetters becomes itself the fetter of a greater
freedom.


Khalil Gibran
in, The Prophet




sexta-feira, 9 de junho de 2023

Dormiu comigo

  







Dormiu comigo, e agora que um dedo
mexe o último gole no copo que lhe dei,
outro conta os golpes até dez.
Antes fosse puta, digo-lhe,
e te bastasse juntar algum dinheiro.
Os espelhos tentaram em vão
copiar-lhe a beleza e até eles estão ali
a criar mofo no seu vazio íntimo.

Nos fundos do pátio aquela árvore
silenciosa parece escurecer. O ar em volta
detém-se quietamente e envelhece.
Chamam-lhe gato.
Os pássaros não se aproximam.
Se o fazem, se enfim se escondem
entre os ramos, é para morrer.

A nós, quem nos diz que estamos vivos?
Corre as cortinas, muda a roupa da cama
para não atrair as moscas ao sonho,
depois talvez possamos adormecer
com a chuva a medir a altura das coisas.

Enquanto as sirenes dos barcos
não atravessam a neblina do amanhecer,
somos a tinta escavando o seu buraco,
suores nocturnos, comboios
na mesma linha. Não me acostumo a isto,
a vida, e nem à guerra de ir e vir
pelas mesmas ruas, caminhos que sabem
o que foi preciso para dar outro passo.

Agora que as águas sobem sozinhas,
que a soma de sóis e luas de uma linha
à seguinte nos dá
a própria velocidade da terra,
regressas aos lugares como o seu afogado.
Como aos vinte anos nas tuas páginas
mais violentas.

O tempo que passa e não passa,
a abelha sagrada que te esperou
num copo voltado. Um sítio chama,
outro responde. Abandonas ao vento o verso,
e do mar, além do ritmo, tiras as espinhas
em que o resto ganha forma.
Meandros, restos, insignificâncias:
coisas que falam por nós.

Talvez o mar esteja perdido, e as ruas que
a ele caíram não nos levem a mais
lugar nenhum. Agora, tudo já faz parte
do vento. Hoje, procuramos saber
a quantas mortes dar
a mesma flor?
As pétalas caindo
de um aroma a outro. Aos dias,
a tudo isto, tivemos de emprestar
outro sentido, e por mais vago,
inventar um ritmo, seguir
de onde o coração parou.

Para quem dá esses passos, a vida
vira uma fábula… A fome aparece
só a meio da história, e a paixão depois,
mas logo que se apanhou com o rasto
do invisível não o largou mais.

Assim, adiantamo-nos ao efémero.
Onde a eternidade muda de pele,
reunimos os homens.
Projectos, planos, data de partida.
E na despedida: fogo. De cima abaixo,
fogo em tudo. Ininterruptamente fogo.

 

Diogo Vaz Pinto 
in, De Aurora para os Cegos da Noite




terça-feira, 6 de junho de 2023

Its a part of me

 

Christian Hjortland






Our lives are not immune to the impacts of time,
nor is our mind between the tensions of love and hate.
That's why I curse this wanderlust heart -
still searching for that wandering star.
without a guide - without a love to call my own.

I try not to look back, but sometimes certain scents, 
remind me of things that saw me as a minority.
A summer heart misplaced in winter's wickedness,
a child frozen in the passages of a stolen childhood.

Ingredients of my life are a juxtaposition of flavours,
finding purity among diseased hearts, 
fighting against principles of corrupt minds

and I hurt nobody - until they pushed me,
it was never about the physical - but the mental.

Silence is different in adolescence -
suppressed into a protective bubble,
you reject the harshness of existence.

My small hands could not hold the burdens,
so I was mute as demons slayed my father,
his anger drowning my brothers into darkness.
Tears of my mother, dehydrated my soul,
so I grew like a tree with broken branches -
sometimes naked, sometimes an abundance of green.

Even in an obscure world of nightmares,
my heart was a light bulb, full of dreams -
but misplaced in a place of misunderstanding.
I adopted silence in the violence,
because I struggled with reality's fabrications.

Fatherless,
I found acceptance in the war on the streets,
where love was poison, but hate brought prosperity.
Only surviving due to my father's name,
yet I knew it was an unwinnable game.
My hands were pacifying guns, 
so I learned to exist without bullets.

I was a black sheep in a strange white herd,
opposing shepherds who couldn't tolerate me.
A clean soul in a dirty social order -
a peaceful heart seeking a place to call home.

Silence is a choice in adulthood.

I used to ignore the pain from unhealed wounds,
but today the inner child screams and shouts,
because oppressors can no longer mute my tongue.

Death taught me not to be bitter,
stubborn fingers how to bleed ink onto paper -
showing compassion in an ugly world.

If life was so simple, we wouldn't look at it differently.
Our perceptions are based on what we have learned,
what was, what is to come and what we search for.

Where you end up depends on how you deal with the past.


Silent One 



domingo, 4 de junho de 2023

Celestial Music

 







I have a friend who still believes in heaven. 
Not a stupid person, yet with all she knows, she literally talks to god. 
She thinks someone listens in heaven. 
On earth, she's unusually competent. 
Brave, too, able to face unpleasantness. 

We found a caterpillar dying in the dirt, greedy ants crawling over it. 
I'm always moved by weakness, by disaster, always eager to oppose vitality.
But timid, also, quick to shut my eyes. 
Whereas my friend was able to watch, to let events play out 
according to nature. For my sake, she intervened,
brushing a few ants off the torn thing, and set it down across the road. 

My friend says I shut my eyes to god, that nothing else explains 
my aversion to reality. She says I'm like the child who buries her head in the pillow 
So as not to see, the child who tells herself 
that light causes sadness -
My friend is like the mother. Patient, urging me 
to wake up an adult like herself, a courageous person -

In my dreams, my friend reproaches me. We're walking 
on the same road, except it's winter now; 
she's telling me that when you love the world you hear celestial music: 
look up, she says. When I look up, nothing. 
Only clouds, snow, a white business in the trees 
like brides leaping to a great height - 
Then I'm afraid for her; I see her 
caught in a net deliberately cast over the earth - 

In reality, we sit by the side of the road, watching the sun set; 
from time to time, the silence pierced by a birdcall. 
It's this moment we're trying to explain, the fact 
that we're at ease with death, with solitude. 
My friend draws a circle in the dirt; inside, the caterpillar doesn't move. 

She's always trying to make something whole, something beautiful, an image 
capable of life apart from her. 
We're very quiet. It's peaceful sitting here, not speaking, the composition 
fixed, the road turning suddenly dark, the air 
going cool, here and there the rocks shining and glittering -
it's this stillness we both love. 
The love of form is a love of endings.


Louise Glück



quinta-feira, 1 de junho de 2023

Who Am I?

 





Who am I, you ask?
I am a lion who comes off as a lamb.
I am an ocean with waves big enough to drown.
I am a roller coaster of emotions.
I am a hater of ignorant people, liars,
And people who use others for a gain.
I am a lost soul, a naive child.
I am one who has seen enough
That would make most people's skin crawl.
I am me, not you.
I am who I am.
Judging me is only a negative reflection on you.
So who am I, you ask?
I am me...just me.


Natasha L. Bishop





terça-feira, 30 de maio de 2023

Navegamos

 





 Navegamos,
e as coisas vão mexendo devagar,
como a colher roçando o interior da chávena,
a música que apenas segura as coisas,
a cidade rodando em torno de um eixo cego,
tudo em segredo,
entre águas enormes e anónimas,
navegamos rumo ao vazio que trazemos,
na sensação de que nada poderá 
levar-nos de volta.

Somos monstros feitos desse grito
que não damos,
bloqueados nesta deslocação imparável.
Contra o casco as vagas parece que riem 
do espetáculo da nossa compostura,
enjoados com água doce e morna 
que levamos no corpo,
as nossas vidas tão sem sabor,
e o medo de o entornarmos.

Evitaremos outro desastre refugiados
na cabina, ouvindo o rumor uns dos outros,
lendo sobre uma tempestade fantástica,
uma narração que faça a vida
parecer uma coisa distante.

O navio treme, a máquina trabalha,
e o nosso juízo sufoca entre os respingos 
e a agitação, o arcabouço do vento.
Tentamos lembrar-nos como se faz,

como se respira, e um relâmpago ao longe 
parece lamber os contornos de outro mundo.

Aqui, apenas o vago temor
de não sermos reais.
E se a morte deixou de assustar-nos 
é pela sensação de que não iria sujar-se,
não por nós. Para quê dar-se ao trabalho,
vir buscar-nos, e arrastar-nos depois 
para onde?


Diogo Vaz Pinto