domingo, 29 de janeiro de 2023

Os Ombros Suportam o Mundo

  

Carlos Drummond de Andrade





Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade
in, Sentimento do Mundo



sábado, 21 de janeiro de 2023

MEMÓRIAS DE LEVE TRISTEZA

  





Oh exilados da montanha do esquecimento!
Oh joia de seus nomes, dormindo na lama do silêncio
Oh memórias destruídas, memórias de leve tristeza
Na mente turva de uma onda no mar do esquecimento
Onde está o transparente, a corrente que flui de teus pensamentos?
Que mão ladrona saqueou a estátua de ouro puro de teus sonhos?
Nesta tempestade que origina a opressão
Para onde foi teu barco, tua serena lua prateada do barco?
Depois desse frio cortante que dá à luz a morte –
O mar deveria desprender a calma
Deveria a nuvem libertar o coração nodoso de tristezas
Deveria a donzela da lua nos brindar o amor, ofertar um sorriso
Deveria a montanha adoçar seu coração, adornar-se de verde,
Tornar-se frutífera –
Qual de teus nomes, na altura do topo,
Se torna brilhante como o sol?
O amanhecer de tuas memórias
Memórias de leve tristeza
Nos olhos dos peixes cansados pelas inundações e
Temerosos da chuva da opressão,
A esperança é refletida?
Oh exilados da montanha do esquecimento! 



 Nadia Anjuman





sábado, 7 de janeiro de 2023

Soneto Inglês

 






Como o silêncio do punhal num peito, 
O silêncio do sangue a converter 
Em fio breve o coração desfeito 
Que nas pedras acaba de morrer, 

Vive em mim o teu nome, tão perfeito 
Que mais ninguém o pode conhecer! 
É a morte que vivo e não aceito; 
É a vida que espero não perder. 

Viver a vida e não viver a morte; 
Procurar noutros olhos a medida, 
Vencer o tempo, dominar a sorte, 
Atraiçoar a morte com a vida! 

Depois de morrer de coração aberto 
E no sangue o teu nome já liberto...


Alexandre O'Neill
in, No Reino Da Dinamarca