quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O Espaço Livre


 



Desocupado, livre, 
sem vestígios, ao sol, 
tronco devorado pela luz, 
ondulada frescura no dorso, 
sem laços, sem raízes, desabitado. 

Conheço o tempo 
e a demora 
lenta, 
o vazio da casa na manhã, 
a manhã deserta ao sol, 
a cegueira da luz tão leve, 
o deserto simples, 
o nome prolongado e nulo. 

Estou 
no silêncio, 
na habitação do silêncio, 
no mar imaginado, 
na planura verde sussurrante, 
na seara das brisas, 
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas, 
no vazio da terra fresca, 
no silêncio sempre novo, 
nas vozes sobre o mar, 
no sono sobre o mar. 

Estou deitado 
e alto. 
Sou a tranquilidade dos montes, 
a lenta curva das baías, 
os olhos subterrâneos da água, 
a liberdade dispersa do vento, 
a claridade de tudo. 

Escrevo sobre dunas 
silenciosamente. 
Oiço o tempo que não passa. 
Um século de frescura 
inunda-me. 
Não esperava habitar esta vasta clareira 
límpida. 
Não esperava respirar esta brisa de paz, 
de liberdade isenta, 
de morte desvelada, 
de vida renovada. 

Abraço todo o espaço na liberdade viva.


António Ramos Rosa 
in, Estou Vivo E Escrevo Sol




sábado, 18 de fevereiro de 2023

Com palavras

 







 Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito 
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar, se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras com:
com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...


Egito Gonçalves
in 'Antologia Poética'


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Às vezes

 

Umberto Shaw







 Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que 
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído 
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar 
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos 
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para 
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo 
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar 
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha 
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo 
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal 
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para 
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou 
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu 
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos 
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua 
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto 
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Relato sentimental da memória

 

Alexei Bednij




 Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit