terça-feira, 30 de maio de 2023

Navegamos

 





 Navegamos,
e as coisas vão mexendo devagar,
como a colher roçando o interior da chávena,
a música que apenas segura as coisas,
a cidade rodando em torno de um eixo cego,
tudo em segredo,
entre águas enormes e anónimas,
navegamos rumo ao vazio que trazemos,
na sensação de que nada poderá 
levar-nos de volta.

Somos monstros feitos desse grito
que não damos,
bloqueados nesta deslocação imparável.
Contra o casco as vagas parece que riem 
do espetáculo da nossa compostura,
enjoados com água doce e morna 
que levamos no corpo,
as nossas vidas tão sem sabor,
e o medo de o entornarmos.

Evitaremos outro desastre refugiados
na cabina, ouvindo o rumor uns dos outros,
lendo sobre uma tempestade fantástica,
uma narração que faça a vida
parecer uma coisa distante.

O navio treme, a máquina trabalha,
e o nosso juízo sufoca entre os respingos 
e a agitação, o arcabouço do vento.
Tentamos lembrar-nos como se faz,

como se respira, e um relâmpago ao longe 
parece lamber os contornos de outro mundo.

Aqui, apenas o vago temor
de não sermos reais.
E se a morte deixou de assustar-nos 
é pela sensação de que não iria sujar-se,
não por nós. Para quê dar-se ao trabalho,
vir buscar-nos, e arrastar-nos depois 
para onde?


Diogo Vaz Pinto



domingo, 28 de maio de 2023

Who Am I?

 







Who am I you may well ask
I really wish I knew
If I am not myself at all
Then maybe I am you
To discover who I really am
Is really quite a task
Maybe I am someone else
Who wears a funny mask
I strive so hard to know myself
To discover the “real me”
My thoughts and feelings all confused
Yet still I cannot see
What makes me tick?
What makes me feel?
So very special and unique
My purpose in this glorious world
Is what I truly seek
I wish I could be creative, self confident and smart
Not quiet, shy and insecure
Emotional at heart
I wish I had the confidence to say what I really feel
Instead of fearing criticism
Uttering words that seem unreal
Why at times do I feel so alone
And just yearn for a friendly face
While at others I just long to be
In some far off distant place
With no one else to bother me
And disturb my rambling thoughts,
Until my conscience brings me back
To do the things I ought
And so I continue on my way
On this journey they call life
I try to do the best I can
Though at times the goings tough
I’ll do my part to refine the world
And make it a better place
By being “me” to my capacity
With each trial I have to face


Faigie Rabin




quinta-feira, 25 de maio de 2023

Que queres que te diga

 


 Pasárgada
Fars, Irão



 

Que queres que te diga?
Não estamos velhos, se isso te consola.
Mas também já soa mais a conversa.
Uns passos fora e as paisagens
já nos arreganham os dentes.
Entre fósforos apagados e calcanhares de aquiles,
eriçaram-se flores na carcaça do animal
que ia levar-nos daqui.

Baixou uma névoa não sei de onde,
e ando há semanas fodido
com os correios que já não asseguram
serviço de e para Pasárgada.
Ouve o que te digo: esta coisa
da realidade
está a meter água por todos os lados
e quem não se mandar agora
já não sai.

Qual poesia, qual caralho!
Depois de bater tudo, de ver os magrelas
dos cães a guerrearem por côdeas
entre os sacos de lixo da morte,
o que te digo é: nem faças as malas.
Onde quer que a gente venha
a fincar a bandeira dos ossos,
o passado só irá atrapalhar.

 
 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



 


quarta-feira, 24 de maio de 2023

The Maze

 






 I dislike uncertainty. Take no pleasure in the element of surprise.
I’ll carry the clipboard and checklists around
at my own birthday party. No need to leave anything to chance.

It was my son’s idea of course. There was a plastic pirate out front
and the promise of treasure at the end. I paid, then
shuffled behind, his voice ringing out, follow me - 

All glass and mirrors. I saw myself reflected a thousand times
all of them weary, impatient. Some days motherhood is just
din and obstacle. I was thinking about

the letter I had received. Another dead end
in my family search. No contact information, no forwarding address.
No one - no one - had been looking for me.

At a certain point, I stopped trying. Extended my arms and felt
along the walls for edges. It was cheating maybe but plodding along
without pleasure or intent doesn’t get you to the end any faster.

It’s been forty-five years. My mother, my father, they
are not getting any younger. Perhaps I waited too long. Perhaps
if I had started earlier there would have been other options. Other

people to reach out to. I read once in my file that I had
a “very good memory,” that I memorized the names
of all the neighborhood dogs. I would like to know them now.

I saw him before he saw me. He was looking around and pacing
not panicked yet but on the verge. I stopped and watched him for as long
as I thought he could bear. He turned when I emerged at last

and ran up and showed me the flag he had won
for making it through first. You were so slow, he told me. It was so
easy. Next time, don’t take so long.


Mary-Kim Arnold





quarta-feira, 17 de maio de 2023

ÉDIPO

 


François Xavier Fabre



 O que o homem procura não se encontra
nas linhas em que a eternidade se cruza com o
instante. Ele pensa que o acaso desenhou esse
limite; e engana-se quando desvia a linha para
junto do seu desejo, desafiando os deuses. Mas
o que o futuro lhe propõe não é o que
ele vê: só as sibilas o adivinharam, e a chave
da sua linguagem perdeu-se num fundo
de nuvem, por entre aves enlouquecidas e
ventos contrários. O homem insiste, porém;
e as suas mãos cavam a terra, abrindo caminho
até às raízes secas de um século antigo, onde
ele procura a solução do enigma que,
se lhe perguntarem, não sabe enunciar: «Quem
sou? Ou antes, quem imagino que sou, agora
que nenhuma resposta me é dada?» E volta
a tapar o buraco que abriu, escondendo as
pedras onde teria lido o seu destino, se
ainda tivesse a luz do dia para reconhecer
os sinais. No entanto, à noite, os passos
conduzem-no para o lugar de onde partiu,
como se fosse o único caminho que
lhe resta. E ao chegar a esse princípio,
descobre que é o seu fim, para não ter de
voltar a partir, nem de fazer a pergunta
para que não encontrará, nunca, a resposta.



Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável 



segunda-feira, 1 de maio de 2023

Um dia, o outro vai embora..

 






Assim sem nem avisar...
Um dia, o outro vai embora
Cansado surrado maltratado
Por um amor jogado fora

Assim sem nem avisar...
Vamos deixando de ser importante
Sorriso parado calado gelado
Olhar pensante distante itinerante

Assim sem nem avisar...
Vamos deixando pra outra hora
Se chamar, perdão minha flor
Um dia, o outro vai embora

Assim sem nem avisar...
Perdendo toda a vontade
Flertar elogiar paquerar
Tudo se torna vaidade

Assim sem nem avisar...
Depois da luta e do consolo
Sabemos que nunca houve esperança
Só a teimosia de um tolo

Assim sem nem avisar...
Quando já passar da hora
Se chamar, perdão inocente flor
Um dia, o outro vai embora.


Gilson BIttencourt