quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Noite de amor sem dormir

 

Vittorio Natoli





Noite acima nós dois com lua cheia, 
comecei a chorar e tu só rias. 
Teu desdém era um deus, minhas sombrias 
queixas horas e pombas em cadeia. 

Noite abaixo, nós dois. Ar que golpeia, 
pelas fundas distâncias tu gemias. 
Minha dor era um grupo de agonias 
sobre teu débil coração de areia. 

Uniu-nos a aurora sobre a cama, 
as bocas postas no jorro gelado 
de um sangue sem ter fim que se derrama. 

E o sol entrou no quarto bem fechado 
e o coral da vida abriu sua rama 
sobre meu coração amortalhado.


Federico García Lorca



terça-feira, 26 de setembro de 2023

Gostam dos poemas

 

Ed Ruscha






Gostam dos poemas colhidos na arca frigorífica tê-los ali em 
porções doseadas com as instruções sobre o tempo médio para 
aquecer no fogão ou no microondas gostam muito de ler o nome 
como a etiqueta pendurada num pé um prego enferrujado sobre a 
passagem deles sumariamente julgada contida um morto já calmo 
metido num saco hermético selado plenamente abraçado pela 
terra e coroado por flores das mais castas gostam de lhe sentir os 
dentes se não puder ferrar quando brincam a pôr a mão no fogo 
sendo certo que não ateará a seara nem lhes deitará uma olhada 
que os faça sentir cercados podem estar descansados ler um
poema é um acto ao abrigo do máximo sigilo sem compromisso 
de qualquer espécie pode sair a meio cavar tirar o que lhe 
apetecer do contexto partilhar como legenda da próxima selfie 
suspendê-lo logo que se torne inconveniente não tem botão mas 
feche os olhos que é como desligar e até pode arrancar a página é 
o mais à vontade do freguês que possa imaginar e sim em breve 
haverá serviço ao cliente e um gabinete para que os utentes 
façam as suas reclamações também já estamos a tratar com as 
entidades competentes para estabelecer um sistema de garantia 
mas sobretudo que esteja já bem frio e o olhar ferocíssimo do 
poeta se detenha a partir daquela segunda data sem 
possibilidade de lhe crescerem unhas ou cabelos nem de 
assombrar seja quem for muito para breve será aprovada ainda 
uma directiva entre Estados para gerar confiança nos 
consumidores: poetas serão sempre servidos mortos



Diogo Vaz Pinto




terça-feira, 12 de setembro de 2023

Compacto

 






Chamado a mostrar aquilo que faz, o poeta português tem a 
tendência de mostrar os dentes, sorri muito, dispondo-se assim a 
participar nessa acareação, nessa coisa que se fazia aos cavalos e 
era também exigido aos escravos, um exame superficial que 
permitia ao potencial comprador aferir se tinha ali um espécime 
em que valia a pena investir. Num certo sentido, também os 
poetas hoje parece que publicam os seus textos de modo, não a 
 a forma como pretendem fazer-se ler, mas a terem 
um pretexto para aparecer nas corridas, ser vistos, trabalhar nos 
campos de algodão da visibilidade e do mediatismo. Ora, sempre 
que me é pedido que escolha alguns dos meus textos ou poemas, 
faço os possíveis por tentar mostrar não os dentes mas o olho do 
cu, como faziam os bárbaros ou os pobres agricultores que eram 
chamados a participar numa batalha contra exércitos senhoriais 
dotados de sumptuosas forças de cavalaria e o raio. Viro-me, 
dobro-me, e exibo-o ao sol e aos fidalgos, eu que sou filho do 
acaso raivoso que me vai parindo diariamente e que não envergo 
qualquer outra distinção. E isto porque vejo o poema como um 
grito articulado para ser ouvido muito baixo, entre esses raros que 
estão mais atentos, e que vencem a euforia das épocas. Em 
relação à nossa, tenho este entendimento de que algo de nojento 
tomou conta de todos os espaços onde circula mais gente, e 
parece-me assim que, para reflectir a sua expressão, não vale a 
pena nem sorrir nem fazer caretas; o melhor é mesmo mostrar 
esta zona no corpo de cada um de nós que se livra do que há de 
inessencial, ou seja, das fezes. Não que o poema concorra para o 
regime das excrescências, mesmo das ornamentais que 
encontramos nos lugares hoje dedicados à arte. No fundo, o 
poema começa por livrar-se da etiqueta e do sufoco do que é feito 
para o bem das aparências. Trata-se de desafiar essa ordem
 infernal que se faz camuflar por meio de um sorriso, de um “like”, 
entre outras formas de anuência. Não temos muito do que estar 
contentes. Não vejo motivo para os poetas buscarem o seu lugar 
num ranking que necessariamente os desfavorece. O que me 
parece admirável num poema é o modo particular de traduzir 
certos aspectos deste inferno que nos envolve até se nos meter 
debaixo da pele, mesmo quando o que o poema exprime são as 
relações que lhe escapam, que nos servem de alívio, de 
maravilhamento. Se os poetas estão sempre numa relação 
desfavorável, se não têm armaduras com motivos florais e nem 
cavalos para os elevar acima do nível da geral infantaria, parece-
me que isso os coloca na relação ideal: a do um para um. E, face a 
tudo o que nos cerca hoje, tenho como principal orientação esse 
desejo de fazer a guerra às claras, de provocar o inimigo, fazê-lo 
exibir as suas verdadeiras cores, para que o conflito que 
geralmente nos faz de forma dissimulada seja assumido, para que 
tenha de se explicar, e não possa simplesmente impor como 
senso comum um conjunto de noções que tornam impossível a 
vida, e nos lançam no regime da mera sobrevivência.


Diogo Vaz Pinto