segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nascença Eterna

 

Svetlanamax






Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna.


José Régio




sábado, 14 de dezembro de 2024

Quando um homem quiser

 





Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.


Ary dos Santos
in, As Palavras das Cantigas



segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Palavras de água

 

 Resat Kuleli



Fechei-me dentro dos muros 
onde o meu corpo não cabia 
contente de ser prisioneira 
do cárcere que eu transcendia. 

E fui no vento que tudo 
tudo o que havia varria, 
contente de ser mais veloz 
que o vento que me impelia. 

Fiquei suspensa dos ramos 
que os meus cabelos prendiam 
contente de ser o destino 
da árvore em que me fundia. 

E dei-me como leito às águas 
dos sonhos que me transcorriam 
contente de ser o curso 
da água em que me esvaía.


Natália Correia
Superação 
in, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias



quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Aniversário






Eu percebo: como estou me tornando
mais incerto, confuso,
dissolvendo-me no ar
cotidiano, bruto
pedaço de mim, desgastado
e em frangalhos.

Eu compreendo: vivi
mais um ano, e isso é muito duro.
Pulsar o coração todos os dias
quase cem vezes por minuto!

Viver um ano requer
morrer muito muitas vezes.


Ángel González




domingo, 24 de novembro de 2024

Homens À Beira-Mar

  

Ersen Cira




Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.
Intactos nas paisagens onde chegam

Só encontram o longe que se afasta,
O apelo do silêncio que os arrasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.


Sophia de Mello Breyner Andresen 



terça-feira, 19 de novembro de 2024

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diy13


 



I’m a tranquilizer.
I’m effective at home.
I work in the office.
I can take exams
on the witness stand.
I mend broken cups with care.
All you have to do is take me,
let me melt beneath your tongue,
just gulp me
with a glass of water.

I know how to handle misfortune,
how to take bad news.
I can minimize injustice,
lighten up God’s absence,
or pick the widow’s veil that suits your face.
What are you waiting for—
have faith in my chemical compassion.

You’re still a young man/woman.
It’s not too late to learn how to unwind.
Who said
you have to take it on the chin?

Let me have your abyss.
I’ll cushion it with sleep.
You’ll thank me for giving you
four paws to fall on.

Sell me your soul.
There are no other takers.

There is no other devil anymore.


Wislawa Szymborska


terça-feira, 12 de novembro de 2024

Lies About Love

 




We are a liars, because
the truth of yesterday becomes a lie tomorrow,
whereas letters are fixed,
and we live by the letter of truth.
The love I feel for my friend, this year,
is different from the love I felt last year.
If it were not so, it would be a lie.
Yet we reiterate love! love! love!
as if it were a coin with a fixed value
instead of a flower that dies, and opens a different bud.

D H Lawrence



domingo, 3 de novembro de 2024

Limites

 

Hillary Ilyse





Uma noite me dei conta de que possuía uma história,
contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim.
E de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,
modos de voz e gesto repetindo-se.
Até os dons, um certo comum apelo ao religioso
e que tudo pesava. E desejei ser outro.
Minha mãe não tinha letras.
Meu pai frequentou um ginásio por três dias
de proveitoso retiro espiritual.
Tive um mundo grandíssimo a explorar:
‘Demagogia, o que é mesmo que essa palavra é?’
Abismos de maravilha oferecidos em sermãos triunfantes:
‘Tota pulchra est Maria!’
Só quadros religiosos nas paredes.
Só um lugar aonde ir
— e já existiam Nova Iorque, Roma!
Tanta coisa eu julguei inventar,
minha vida e paixão,
minha própria morte,
esta tristeza endócrina resolvida a jaculatórias pungentes,
observações sobre o tempo. Aprendi a suspirar.
A poesia é tão triste! O que é bonito enche os olhos de
lágrimas.

Tenho tanta saudade dos meus mortos!
Estou tão feliz! À beira do ridículo
arde meu peito em brasas de paixão.
Vinte anos de menos, só seria mais jovem.
Nunca, mais amorável.
Já desejei ser outro.
Não desejo mais não.

 

Adélia Prado
in, Poesia Reunida





quinta-feira, 31 de outubro de 2024

NÃO SUBSCREVO

 





 Não, não, não subscrevo, não assino 
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes, 
como se golpes, contra-golpes, intentonas 
(ou inventonas - armadilhas postas 
da esquerda prá direita ou desta para aquela) 
não fossem mais que preparar caminho 
a parlamentos e governos que 
irão secretamente pôr ramos de cravos 
e não de rosas fatimosas mas de cravos 
na tumba do profeta em Santa Comba, 
enquanto pra salvar-se a inconomia 
os empresários (ai que lindo termo, 
com tudo o que de teatro nele soa) 
irão voltar testas de ferro do 
capitalismo que se usou de Portugal 
para mão-de-obra barata dentro ou fora. 
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto: 
infantilmente doentes de esquerdismo 
e como sempre lendo nas cartilhas 
que escritas fedem doutras realidades, 
incompetentes competiram em 
forçar revoluções, tomar poderes e tudo 
numa ânsia de cadeiras, microfones, 
a terra do vizinho, a casa dos ausentes, 
e em moer do povo a paciência e os olhos 
num exibir-se de redondas mesas 
em televisas barbas de faláeia imensa. 
E todos eram povo e em nome del' falavam, 
ou escreviam intragáveis prosas 
em que o calão barato e as ideias caras 
se misturavam sem clareza alguma 
(no fim das contas estilo Estado Novo 
apenas traduzido num calão de insulto 
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo). 
Prendeu-se gente a todos os pretextos, 
conforme o vento, a raiva ou a denúncia, 
ou simplesmente (ó manes de outro tempo) 
o abocanhar patriótico dos tachos. 
Paralisou-se a vida do pais no engano 
de que os trabalhadores não devem trabalhar 
senão em agitar-se em demandar salários 
a que tinham direito mas sem que 
houvesse produção com que pagá-los. 
Até que um dia, à beira de uma guerra 
civil (palavra cómica pois que 
do lume os militares seriam quem tirava 
para os civis a castanhinha assada), 
tudo sumiu num aborto caricato 
em que quase sem sangue ou risco de infecção 
parteiras clandestinas apararam 
no balde da cozinha um feto inexistente: 
traindo-se uns aos outros ninguém tinha 
(ó machos da porrada e do cacete) 
realmente posto o membro na barriga 
da pátria em perna aberta e lá deixado 
semente que pegasse (o tempo todo 
haviam-se exibido eufóricos de nus, 
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste). 
A isto se chegou. Foi criminoso? 
Nem sequer isso, ou mais do que um guião 
do filme que as direitas desejavam, 
em que como num jogo de xadrez a esquerda 
iria dando passo a passo as peças todas. 
É tarde e não adianta que se diga ainda 
(como antes já se disse) que o povo resistiu 
a ser iluminado, esclarecido, e feito 
a enfiar contente a roupa já talhada. 
Se muita gente reagiu violenta 
(com as direitas assoprando as brasas) 
é porque as lutas intestinas (termo 
extremamente adequado ao caso) 
dos esquerdismos competindo o permitiram. 
Também não vale a pena que se lave 
a roupa suja em público: já houve 
suficiente lavar que todavia 
(curioso ponto) nunca mostrou inteira 
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano 
usada foi por tanto entusiasta, 
devotamente adepto de continuar ao sol 
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos 
não foram antes grandes pecadores). 
E que fazer agora? Choro e lágrimas? 
Meter avestruzmente a cabeça na areia? 
Pactuar na supremíssima conversa 
de conciliar a casa lusitana, 
com todos aos beijinhos e aos abraços? 
Ir ao jantar de gala em que o Caetano, 
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros, 
hão-de tocar seus copos de champanhe? 
Ir já fazendo a mala para exílios? 
Ou preparar uma bagagem mínima 
para voltar a ser-se clandestino usando 
a técnica do mártir (tão trágica porque 
permite a demissão de agir-se à luz do mundo, 
e de intervir directamente em tudo)? 
Mas como é clandestina tanta gente 
que toda a gente sabe quem já seja? 
Só há uma saída: a confissão 
(honesta ou calculada) de que erraram todos, 
e o esforço de mostrar ao povo (que 
mais assustaram que educaram sempre) 
quão tudo perde se vos perde a vós. 
Revolução havia que fazer. 
Conquistas há que não pode deixar-se 
que se dissolvam no ar tecnocrata 
do oportunismo à espreita de eleições. 
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe, 
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso, 
que ao povo seja dito de uma vez 
como nas suas mãos o seu destino está 
e não no das sereias bem cantantes 
(desde a mais alta antiguidade é conhecido 
que essas senhoras são reaccionárias, 
com profissão de atrair ao naufrágio 
o navegante intrépido). Que a esquerda 
nem grite, que está rouca, nem invente 
as serenatas para que não tem jeito. 
Mas firme avance, e reate os laços rotos 
entre ela mesma e o povo (que não é 
aqueles milhares de fiéis que se transportam 
de camioneta de um lugar pró outro). 
Democracia é isso: uma arte do diálogo 
mesmo entre surdos. Socialismo à força 
em que a democracia se realiza. 
Há muito socialismo: a gente sabe, 
e quem mais goste de uns que dos outros. 
É tarde já para tratar do caso: agora 
importa uma só coisa - defender 
uma revolução que ainda não houve, 
como as conquistas que chegou a haver 
(mas ajustando-as francamente à lei 
de uma equidade justa, rechaçando 
o quanto de loucuras se incitaram 
em nome de um poder que ninguém tinha). 
E vamos ao que importa: refazer 
um Portugal possível em que o povo 
realmente mande sem que o só manejem, 
e sem que a escravidão volte à socapa 
entre a delícia de pagar uma hipoteca 
da casa nunca nossa e o prazer 
de ter um frigorifico e automóveis dois. 
Ah, povo, povo, quanto te enganaram 
sonhando os sonhos que desaprenderas! 
E quanto te assustaram uns e outros, 
com esses sonhos e com o medo deles! 
E vós, políticos de ouro de lei ou borra, 
guardai no bolso imagens de outras Franças, 
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas, 
ou de Estados Unidos que não crêem 
que latinada hispânica mereça 
mais que caudilhos com contas na Suíça. 
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes 
tão dividido entre si mesmo. Adiante. 
Com tacto e com fineza. E com esperança. 
E com um perdão que há que pedir ao povo. 
E vós, ó militares, para o quartel 
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar 
ao ponto de não serdes o que deveis ser: 
garantes de uma ordem democrática 
em que a direita não consiga nunca 
ditar uma ordem sem democracia). 
E tu, canção-mensagem, vai e diz 
o que disseste a quem quiser ouvir-te. 
E se os puristas da poesia te acusarem 
de seres discursiva e não galante 
em graças de invenção e de linguagem, 
manda-os àquela parte. Não é tempo 
para tratar de poéticas agora.


Jorge de Sena




sábado, 26 de outubro de 2024

Todos vocês parecem felizes…

 


Martin-Dm



… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.


Ángel González



terça-feira, 22 de outubro de 2024

A Spiritual Woman

 







Close your eyes, my love, let me make you blind;  
     They have taught you to see  
Only a mean arithmetic on the face of things,  
A cunning algebra in the faces of men,  
     And God like geometry
Completing his circles, and working cleverly.  
 
I’ll kiss you over the eyes till I kiss you blind;  
     If I can—if any one could.  
Then perhaps in the dark you’ll have got what you want to find.
You’ve discovered so many bits, with your clever eyes,
     And I’m a kaleidoscope  
That you shake and shake, and yet it won’t come to your mind.
Now stop carping at me.—But God, how I hate you!  
     Do you fear I shall swindle you?  
Do you think if you take me as I am, that that will abate you
Somehow?—so sad, so intrinsic, so spiritual, yet so cautious, you
Must have me all in your will and your consciousness—  
     I hate you.



D H Lawrence




segunda-feira, 14 de outubro de 2024

O Quarto Vazio

 

Blenze






Era um dos teus jogos preferidos. 
O que é que há num quarto vazio?, 
perguntavas. Ficávamos em silêncio. 

O que é que há num quarto vazio? 

Os que não conheciam o jogo 
talvez dissessem: Nada, e tu dizias: Não. 
Nada é nada, eu disse o que é que. 

Até que alguém dizia, por exemplo: Silêncio. 
E tu dizias: Sim. 
E outro dizia: Pó. 
E o jogo começava a ganhar asas. 

Umas pegadas no chão. 
Um fantasma. Uma tomada. O buraco 
de um prego. A penumbra. 
O quadrado que a ausência de um quadro 
deixa na parede. Um fio. 
Uma carta no chão. 
A marca de uma mão na parede. 
Um raio de sol que entra pela janela. 
Uma teia de aranha. Um pedaço 
de papel. Uma unha. Uma formiga perdida. 
A música que vem da rua 
(haverá música sem alguém que a escute?). 
Uma mancha de fumo ou humidade. 
Gatafunhos ou pássaros ou nomes 
ou um desenho da Laura na parede. 

Tu ias dizendo sim ou não. 
Tu sabias. Eras o inventor do jogo. 
Tu já sabias, Carlos, o que há 
no quarto vazio onde acabas de entrar. 

Era um dos teus jogos preferidos.
- ⁠O que há num quarto vazio?
- ⁠Um fantasma.
- ⁠Já disseram.
- ⁠Sim, mas este de que falo é outro.


Juan Vicente Piqueras



sábado, 12 de outubro de 2024

Civilization

 


Jason Peterson






It came to us very late:
perception of beauty, desire for knowledge.
And in the great minds, the two often configured as one.

To perceive, to speak, even on subjects inherently cruel—
to speak boldly even when the facts were, in themselves, painful or dire—
seemed to introduce among us some new action,
having to do with human obsession, human passion.

And yet something, in this action, was being conceded.
And this offended what remained in us of the animal:
it was enslavement speaking, assigning
power to forces outside ourselves.
Therefore the ones who spoke were exiled and silenced,
scorned in the streets.

But the facts persisted. They were among us,
isolated and without pattern; they were among us,
shaping us—

Darkness. Here and there a few fires in doorways,
wind whipping around the corners of buildings—

Where were the silenced, who conceived these images?
In the dim light, finally summoned, resurrected.
As the scorned were praised, who had brought
these truths to our attention, who had felt their presence,
who had perceived them clearly in their blackness and horror
and had arranged them to communicate
some vision of their substance, their magnitude—

In which the facts themselves were suddenly
serene, glorious. They were among us,
not singly, as in chaos, but woven
into relationship or set in order, as though life on earth
could, in this one form, be apprehended deeply
though it could never be mastered.


Louise Glück



quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Wenders



Pixnio




digo: guardei cuidadosamente
o presente em tons de passado,
sem jamais ousar aguardar nada
desse futuro que cultivava
igonoto e desabitado da virtude
que Péguy declarou a mais pequena

calcorreava as sendas
criadas pelos instantes de um
quotidiano delineado cuidadosamente
nos extremos da onda que mede a
dimensão corpuscular da luz,
distante das matizes que pintaram a minha infância

eu, militante da razão cega,
que sempre quis de tudo conhecer a justificação,
tinha ouvido     incréu     os relatos de quem
declarava ter conhecido alguém capaz
de redimensionar a luz
para além das teorias da física

e tu desconstruíste o tempo
deste-me a beber a esperança
e recordaste-me que nem tudo é
definido pela luz e pela sua ausência
tu     que a sabias tornar tangível,
telúrica     intemporal

e eis que em toda amplitude
de um simples abraço dado com 
uns olhos cor de avelã
me retorquiste que
coisas há que devemos aceitar
sem lhes questionar o porquê

qual ave trituraste com a tua boca
as certezas
a razão
e o tempo
depositando na minha     ávida de um sentido
pequenos pedaços de ternura 


Rui Amaral Mendes 
in, A Noite e Sangue 




quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O pouco que sei

 

Sarah Marino






Sei que o penar não vale a pena.

Sei que a felicidade é indizível.

Sei que o amor, essa missão selvagem,
delicada, impossível, é a única forma
de estar neste mundo sem errar.

Sei que a morte resolve tudo.
Sei que a morte, não, quero dizer, a vida
é um pintassilgo em uma árvore seca
ou em uma amendoeira em flor,
cantando para a luz,
dando graças aos céus por tudo
sem o saber.


Juan Vicente Piqueras




terça-feira, 24 de setembro de 2024

Sete luas

 





Há noites que são feitas dos meus braços 
E um silêncio comum às violetas. 
E há sete luas que são sete traços 
De sete noites que nunca foram feitas. 

Há noites que levamos à cintura 
Como um cinto de grandes borboletas. 
E um risco a sangue na nossa carne escura 
Duma espada à bainha dum cometa. 

Há noites que nos deixam para trás 
Enrolados no nosso desencanto 
E cisnes brancos que só são iguais 
À mais longínqua onda do seu canto. 

Há noites que nos levam para onde 
O fantasma de nós fica mais perto; 
E é sempre a nossa voz que nos responde 
E só o nosso nome estava certo. 

Há noites que são lírios e são feras 
E a nossa exatidão de rosa vil 
Reconcilia no frio das esferas 
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia




segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Visto y no visto

 

Molly Belle
 


(A los amigos que siguen vivos
          pero han desaparecido, allá donde estén,
          con un abrazo póstumo.)



La gente tiende a desaparecer.

Un día te hacen reír y al siguiente no están.

Un día te llamaban cada día
para saber cómo estabas,
y ahora ya no puedes ni recordar sus voces.

Un día dijeron siempre
y siempre acabó siendo nunca más.

La gente se parece a los fantasmas.
Aparecen, seducen, crees en ellos,
dan miedo, brillan y desaparecen.

Se van y, de repente, ya no existen,
como si nunca hubieran existido.
Llegas a convencerte de que los has soñado.

Yo soy uno de ellos.

Morir, en nuestro caso,
es una redundancia.


Juan Vicente Piqueras




sábado, 14 de setembro de 2024

Do sentimento trágico da vida

 

Rehulian Yevhen 




Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

HELENA


Alexandra PP





 Teu inferno é ontem, é cada instante
em que, sem saber, te perdeste
e cada instante em que te salvaste.
Quando o jovem que foste está já longe,
amar é a vingança do passado.
Vem de uma guerra onde foste vencido,
de acampamentos e armas que um dia abandonaste
na Tróia que tens dentro de ti mesmo.
Hão-de buscar-te de noite os aqueus
e apertar o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena é estes sonhos
que a vida foi apropriando.
Defende-a outra vez, a última.
E fá-lo com valentia, desarmado.

Joan Margarit



quinta-feira, 29 de agosto de 2024

QUE TAL

 

Jacinto Pujol




Perguntam-nos que tal estás
E respondemos muito bem,
E não é verdade.

Tudo bem, tudo bem, bastante bem,
Obrigado, e tu? Até ao dia em que tudo vem abaixo.

Vimos abaixo sorrindo.

Ninguém diz o que se passa consigo
Porque ninguém o sabe.

Não o diz ao amigo nem ao amante
porque não o diz sequer a si mesmo.

Somos aquilo que calamos.

Somos o que nos dói
e não nos atrevemos a dizer.

Conhece-te a ti mesmo, disseram os antigos.
Nós, os modernos, fugimos dessa tarefa ingrata.

Morremos sorrindo.

Estamos bem. Estamos
sempre melhor do que nunca.


Juan Vicente Piqueras
in, O Quarto Vazio 



sábado, 24 de agosto de 2024

Solitude

 

Steve Eason





It was but yesterday I thought myself 
a fragment quivering without rhythm in the sphere of life. 
Now I know that I am the sphere, 
and all life in rhythmic fragments moves within me.

Solitude is a silent storm 
that breaks down all our dead branches. 
Yet it sends our living roots deeper into the 
living heart of the living earth.

The nearest to my heart are a king without a kingdom 
and a poor man who does not know how to beg.

A traveler am I and a navigator 
and every day I discover a new region within my soul.

A hermit is one who renounces 
the world of fragments that he may enjoy 
the world wholly and without interruption.


Khalil Gibran
in, Sand and Foam, A Book of Aphorisms