quarta-feira, 26 de junho de 2024

Sai de ti

 







Sai de Ti
(ou coleção de imperativos primavera-verão para o outono de teu desconcerto)

Não fujas do que sentes. Não te escondas
no que dizes. Não digas mentiras.
Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Não sofras por medo de sofrer mais.
Não mendigues jamais o que mereces.
Por exemplo, o amor. Fá-lo e o terás.
Funda no fogo firme de sua fogueira
o teu lugar, teu ofício. E agradece o ar
que entra e sai de ti. Sê a janela
do que vive. Olha com cuidado.
Há olhares que podem envenenar o mundo.
Não deixes que apodreça o que sentes
dentro de ti. Faz um exame de consciência
de vez em quando mas nunca te esqueças
que é possível que sejas inocente.
Abre teu coração encouraçado
ao casamento do céu com o mar,
da luz com a sombra,
do canto dos grilos com o das cigarras.
Pinta de azul a alma. Permuta
o que foste pelo que não serás.
Limpa tua casa. Diz o teu precipício.
Cozinha. Convida. Canta. Dança. Abraça.
Tira o pó de tua voz. Rega as plantas.
As dos pés também, no mar, marchando.
Não te detenhas. Perante ti teus passos,
tuas pegadas de amanhã, esperam-te, convocam-te.
Não olhes para trás. Não sejas tua estátua
de sal. E sai de ti, do que pensas
de ti. Sai desse quarto
escuro onde escreves os poemas
que dizem o que tens que fazer em vez de faze-lo.
Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Vira a página. Vai. Veja. Sê atento
e fica atento. Não esqueças o que vives.
Não esqueças o que acabas de viver.
Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai
em busca de uma nova voz, distante.
Não fujas do que sentes. Não permitas
que a vida se vá em vão,
que a morte ao chegar encontre
seu trabalho já feito. Contempla o céu
como quem diz adeus,
como quem demonstra gratidão.



Juan Vicente Piqueras


domingo, 23 de junho de 2024

Where Are You Now

 
Pitinan Piyavatin 




Why is life so unfair 
like things aren't really there
 all I ever wanted was my parents to love me
 to hear them say sweetie would be  a sweet dream
 I asked you Lord what can I do
 if only you would step in my shoes
 can't you see that I need love too 
 why oh why I cried I
 cannot hold these feelings in and continue to lie 
 I try to fit in things weren't right 
sometimes I feel all alone and want to take flight
 mama papa where are you now 
I'm almost grown and you're not around 
how can you leave me alone with nothing but frowns 
you're out of town nowhere to be found 
papa mama where are you now
 I pray to God that one day you'll both can be found


Honesty Sampson





segunda-feira, 17 de junho de 2024

A Cidade Devagar

 

Danny Doneo



Atravessaste a cidade devagar. 
Pela primeira vez, não vais trabalhar 
nem comprar um medicamento nem entregar uma carta. 

Desta vez tens sorte: 
a noite é toda tua e ela envolve-te 
e tu sentes como se estivesses nos braços da tua mãe. 

Talvez seja bom existir 
debaixo das estrelas. 

Lentamente, avanças na escuridão 
e descobres que também é bom 
ir pelas ruas e escutar os teus passos 
e sentir a noite dos que dormem 
e compreendê-los como a um único ser, 
como se descansassem da mesma existência 
no mesmo sono. 

Então avanças mais. Dobras a esquina, 
vês a pobreza insone, vês a ausência 
da tua mãe carnal. Depois, apercebes-te 
do excessivo peso do teu coração. 

E regressas.


António Gamoneda





sexta-feira, 7 de junho de 2024

The Peace of Wild Things

 







When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children’s lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.
I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free.


Wendell Berry
in, Tools of the Trade: Poems for new doctors