quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O pouco que sei

 

Sarah Marino






Sei que o penar não vale a pena.

Sei que a felicidade é indizível.

Sei que o amor, essa missão selvagem,
delicada, impossível, é a única forma
de estar neste mundo sem errar.

Sei que a morte resolve tudo.
Sei que a morte, não, quero dizer, a vida
é um pintassilgo em uma árvore seca
ou em uma amendoeira em flor,
cantando para a luz,
dando graças aos céus por tudo
sem o saber.


Juan Vicente Piqueras




terça-feira, 24 de setembro de 2024

Sete luas

 





Há noites que são feitas dos meus braços 
E um silêncio comum às violetas. 
E há sete luas que são sete traços 
De sete noites que nunca foram feitas. 

Há noites que levamos à cintura 
Como um cinto de grandes borboletas. 
E um risco a sangue na nossa carne escura 
Duma espada à bainha dum cometa. 

Há noites que nos deixam para trás 
Enrolados no nosso desencanto 
E cisnes brancos que só são iguais 
À mais longínqua onda do seu canto. 

Há noites que nos levam para onde 
O fantasma de nós fica mais perto; 
E é sempre a nossa voz que nos responde 
E só o nosso nome estava certo. 

Há noites que são lírios e são feras 
E a nossa exatidão de rosa vil 
Reconcilia no frio das esferas 
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia




segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Visto y no visto

 

Molly Belle
 


(A los amigos que siguen vivos
          pero han desaparecido, allá donde estén,
          con un abrazo póstumo.)



La gente tiende a desaparecer.

Un día te hacen reír y al siguiente no están.

Un día te llamaban cada día
para saber cómo estabas,
y ahora ya no puedes ni recordar sus voces.

Un día dijeron siempre
y siempre acabó siendo nunca más.

La gente se parece a los fantasmas.
Aparecen, seducen, crees en ellos,
dan miedo, brillan y desaparecen.

Se van y, de repente, ya no existen,
como si nunca hubieran existido.
Llegas a convencerte de que los has soñado.

Yo soy uno de ellos.

Morir, en nuestro caso,
es una redundancia.


Juan Vicente Piqueras




sábado, 14 de setembro de 2024

Do sentimento trágico da vida

 

Rehulian Yevhen 




Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

HELENA


Alexandra PP





 Teu inferno é ontem, é cada instante
em que, sem saber, te perdeste
e cada instante em que te salvaste.
Quando o jovem que foste está já longe,
amar é a vingança do passado.
Vem de uma guerra onde foste vencido,
de acampamentos e armas que um dia abandonaste
na Tróia que tens dentro de ti mesmo.
Hão-de buscar-te de noite os aqueus
e apertar o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena é estes sonhos
que a vida foi apropriando.
Defende-a outra vez, a última.
E fá-lo com valentia, desarmado.

Joan Margarit