sábado, 31 de agosto de 2019

DEIXAR QUE PELA NOITE O FOGO CRESÇA





Deixar que a chuva grite no meu grito
se bem que longe o tiro mais que certo
deixar que o sangue apague no deserto
todas as letras do nome em que acredito

deixar que pela noite o fogo cresça
e murche o rosto onde era outrora um rio
deixar que as mãos se esqueçam sob o frio
e o coração de rastos apodreça

deixar que o vento espalhe estes retratos
e a memória dos lábios pelo outono
deixar que o vinho amargo traga o sono
e afogue o medo dentro dos regatos

deixar deixar depois que a morte venha
sem que ninguém ou nada me retenha.


MANUEL ALBERTO VALENTE
in, POESIA REUNIDA





quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Black Woman






Don’t knock at my door, little child, 
I cannot let you in, 
You know not what a world this is 
Of cruelty and sin. 
Wait in the still eternity 
Until I come to you, 
The world is cruel, cruel, child, 
I cannot let you in! 

Don’t knock at my heart, little one, 
I cannot bear the pain 
Of turning deaf-ear to your call 
Time and time again! 
You do not know the monster men 
Inhabiting the earth, 
Be still, be still, my precious child, 
I must not give you birth!


Georgia Douglas Johnson





domingo, 25 de agosto de 2019

Every time you leave home


Caras Ionut





Every time you leave home,
Another road takes you
Into a world you were never in.

New strangers on other paths await.
New places that have never seen you
Will startle a little at your entry.
Old places that know you well
Will pretend nothing
Changed since your last visit.

When you travel, you find yourself
Alone in a different way,
More attentive now
To the self you bring along,
Your more subtle eye watching
You abroad; and how what meets you
Touches that part of the heart
That lies low at home:

How you unexpectedly attune
To the timbre in some voice,
Opening in conversation
You want to take in
To where your longing
Has pressed hard enough
Inward, on some unsaid dark,
To create a crystal of insight
You could not have known
You needed
To illuminate
Your way.

When you travel,
A new silence
Goes with you,
And if you listen,
You will hear
What your heart would
Love to say.

A journey can become a sacred thing:
Make sure, before you go,
To take the time
To bless your going forth,
To free your heart of ballast
So that the compass of your soul
Might direct you toward
The territories of spirit
Where you will discover
More of your hidden life,
And the urgencies
That deserve to claim you.

May you travel in an awakened way,
Gathered wisely into your inner ground;
That you may not waste the invitations
Which wait along the way to transform you.

May you travel safely, arrive refreshed,
And live your time away to its fullest;
Return home more enriched, and free
To balance the gift of days which call you.


John O'Donohue




sexta-feira, 23 de agosto de 2019

The Good-Morrow






I wonder by my troth, what thou, and I 
Did, till we loved? Were we not weaned till then? 
But sucked on country pleasures, childishly? 
Or snorted we in the seven sleepers’ den? 
’Twas so; but this, all pleasures fancies be. 
If ever any beauty I did see, 
Which I desired, and got, ’twas but a dream of thee. 

And now good-morrow to our waking souls, 
Which watch not one another out of fear; 
For love, all love of other sights controls, 
And makes one little room, an every where. 
Let sea-discoverers to new worlds have gone, 
Let maps to others, worlds on worlds have shown:
Let us possess one world, each hath one, and is one. 

My face in thine eye, thine in mine appears, 
And true plain hearts do in the faces rest:
Where can we find two better hemispheres 
Without sharp north, without declining west? 
Whatever dies, was not mixed equally; 
If our two loves be one, or, thou and I 
Love so alike that none do slacken, none can die.


John Donne



terça-feira, 20 de agosto de 2019

Nomes da Noite






Algures na epiderme moram
pequeníssimos grãos
que guardam instantes.
São poros onde ficaram
ocultos os dias em que deslumbrados
tropeçámos na ternura
e fomos jangada, marés e areias.
Num anoitecer inesperado,
a pele salgada de uma concha
pode vir despertar a limpidez velada
desses momentos redondos, brancos
e lunares. Gratos aos búzios,
às grutas percorridas, o cansaço
há-de conduzir-nos a um mar de mel.


LÍLIA TAVARES
in, NOMES DA NOITE 




domingo, 18 de agosto de 2019

Dia 349






Ontem fui uma luz. Hoje sou uma luz.

Uma luz serei entre as espáduas e no interior
da tua boca, na tua nuca incandescente, no ombro que
a minha língua percorre, faminta e transtornada.
A tua pele é um doce delírio, um fogo em território de paixão,
percorrido à velocidade desta luz. Sobre ela correm
animais assustados, fugindo da voracidade dos meus lábios,
dos meus dentes que mordem a surpresa.
E em cada centímetro do teu corpo beijo árvores e casas
de uma cidade branca onde Deus habita, e onde esvoaça
para o céu da minha boca um coro de anjos transparentes
que exultam aleluias no meu sangue.

O meu corpo é uma pátria de desejo. A tua boca
um poema manuscrito, dito em silêncio à minha boca
que mastiga as tuas palavras de seda e de incêndio.
Beijo a tua voz, e mordo nos teus gemidos as raízes da água,
as raízes do dia, as raízes da música, enquanto
longe dos nossos beijos, tudo grita, tudo se cala gritando.
Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo
no meu corpo. Da tua voz na minha voz. Das tuas mãos
nas minhas mãos. Da tua pele na minha pele.
E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual
de nós é o sorriso que quase a ilumina. Porque
as nossas bocas permanecerão
coladas.


Joaquim Pessoa
in, Ano Comum




sábado, 17 de agosto de 2019

LIÇÃO DE LEITURA





O velho dizia: Ler, é como comer uma maçã!
Mas o jovem mergulhava os olhos no livro
mergulhava a cabeça e todo o corpo.

Mergulhava e mergulhava tempos infinitos
no mar de palavras.
Bebia frases inteiras, páginas, capítulos...
bebia sem respirar.

E bebia outros livros que se seguiam aos livros que lia.
Bebia sem parar.
E o velho dizia:
- Não esqueças... ler é como comer uma maça!

E a cada manhã, o jovem lia, lia e lia.
E a cada manha o velho repetia:
Ler, é como comer devagar, bem devagar, uma maça!

E o jovem de tanto ler não lia,
porque era jovem e como jovem não sabia
que há um tempo para consumar o dia,
antes de chegar um novo amanhã!

- Levanta os olhos - falava o velho no seu afã.
Levanta os olhos e lê...
Levanta os olhos
como quem trinca e mastiga uma maçã
Levanta, levanta e fecha os olhos,
que só quem fecha os olhos é que vê.
Ler é mais que somar palavras
pois não se lê apenas com os olhos
é preciso ler com a razão, é preciso chamar a emoção,
e uma pausa não é vã
é preciso trincar, saborear, é preciso degustar a maçã.

Lê e levanta os olhos, mastiga as palavras que leste.
Que te subam à cabeça, invadam o coração
se acomodem, se aconcheguem...

Só depois trinca de novo a maçã, morde as letras,
mastiga-as de olhos fechados.
Trinca, mastiga, trinca, mastiga
sorve as palavras uma-a-uma.

Respira.
Leva calmo o teu afã, já que ler não é voragem,
é o entranhar da maçã!
Não leias de empreitada, que a gula não é nada.

Lê, ergue os olhos, embebe.
Depois, por fim, guarda o caroço
- que é a lombada do livro que acabas de ler,
que se foi cada página saboreada,
fica eterno na tua estante
na biblioteca do saber!



JOÃO MORGADO
in, CONTINUUM - ANTOLOGIA POÉTICA




quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Les larmes se ressemblent





Sob o céu cinzento com os seus anjos de barro 
Sob o céu cinzento com os seus soluços abafados
Recordo aqueles dias em Mainz 
Onde junto ao negro Reno choravam as pequenas fadas

Encontrávamos por vezes no fim dos becos 
Um soldado morto pelo golpe de uma faca 
Encontrávamos por vezes essa paz cruel
Apesar do vinho branco novo nas colinas 

Bebi o álcool transparente do licor das cerejas 
Bebi aqueles juramentos murmurados 
Como eram belos os palácios as igrejas 
Tinha vinte anos 
Nada compreendia 

Que sabia eu então de derrota 
Quando o teu país surgia como um amor proibido 
Quando ansiavas pela voz dos falsos profetas 
Para trazer de volta a esperança perdida 

Lembro-me de músicas que me tocavam 
Lembro-me dos sinais feito com giz 
Que descobríamos de manhã nas paredes 
Sem saber decifrar os seus segredos 

Quem poderá dizer onde começa a memória
Quem poderá dizer onde termina o tempo presente 
Onde o passado tomará o romance 
Onde a desgraça não passará já de um papel amarelado 

Tal como a criança surpreendida pelos seus sonhos 
Os olhares melancólicos dos vencidos permaneciam inquietos
Aos passos do render da guarda
Que faziam estremecer o silêncio do Reno.


Louis Aragon




terça-feira, 13 de agosto de 2019

Com a tua letra





Fala-se de amor para falar de muitas coisas
que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco





domingo, 11 de agosto de 2019

E O ABISMO POR CIMA





Claro que não é para o nosso
tempo.
.
Nós, os de olhos vorazes,
os tombados do alto de um penhasco
em que vigora a impureza:
o filme exigiria
um vagar de louco.
.
A única via então
— admitamo-lo —
é supor um recorte fulminante
na meticulosa ordem
das coisas
onde seja possível
nadar de costas,
desalmadamente,
.
sem ver para onde.
.
Impuros, sim,
mas inteiros de ignorância e fome,
com um lume intransmissível
numa arcada
do peito.
.
E o abismo por cima,
a estender-nos
as mãos.


VASCO GATO
in,  UM PASSO SOBRE A TERRA 





sábado, 10 de agosto de 2019

Dia 281





Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota 
de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas ve- 
zes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, 
outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, re- 
cordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual 
consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé. 

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que masti- 
gam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das 
pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com 
uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se a- 
ninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do 
desejo, bem acima do sofrimento. 

Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, 
ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, con- 
tigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, con- 
tigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repar- 
tirei até o que é indivisível. 

Tu sabes onde estou. Sabes como me chamo. Estarei presente 
quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a ho- 
ra decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua 
antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. 

Haverá decerto algumas flores derrubadas, 
mas haverá igualmente um sol lim- 
po que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, 
entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, 
as mais sábias e as mais livres. 

Conta comigo. Sempre. 



Joaquim Pessoa
in, Ano Comum




quinta-feira, 8 de agosto de 2019

SÍSIFO SIN EMBARGO








Es triste que el destino de un hombre sea Sísifo,

que hayamos de llevar sobre los hombros

la misma piedra siempre, que parece

ya nuestro pensamiento, y tropecemos

en ella tantas veces como vidas

quisiéramos tener y sin embargo.


Es triste trepar riscos cargados de razón

y dejarla caer al alcanzar la cumbre

para después volver al mismo error

un día y otro, como el alma al vicio,

condenados a ser, sedientos, quienes somos:

quienes quisimos ser y sin embargo.


Es triste repetirse como la misma historia,

dar vueltas a la noria, día y noche,

moliendo una manera de ser y de mirar

que te lleva a sufrir y a hacer sufrir.


Llevo mi piedra en mí, mi pensamiento,

y dentro yo, esperando ser tallado,

esculpido, salvado y sin embargo.




Juan Vicente Piqueras

in, Adverbios de lugar






quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Vem sentar-te comigo






Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
.
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses:
.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no
regaço.



RICARDO REIS
in, ODES DE RICARDO REIS




terça-feira, 6 de agosto de 2019

Learning to sing





There is a brokenness
out of which comes the unbroken,
a shatteredness
out of which blooms the unshatterable.
There is a sorrow
beyond all grief which leads to joy
and a fragility
out of whose depths emerges strength.

There is a hollow space
too vast for words
through which we pass with each loss,
out of whose darkness
we are sanctioned into being.

There is a cry deeper than all sound
whose serrated edges cut the heart
as we break open to the place inside
which is unbreakable and whole,
while learning to sing.


Rashani Réa





segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Poema De Agradecimento À Corja





Obrigado, excelências.

Obrigado por nos destruírem o sonho 
e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.

Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar 
de como é possível viver 
sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.

Obrigado por nos roubarem. 
Por não nos perguntarem nada. 
Por não nos darem explicações.

Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos 
e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono. 
E a tranquilidade. 
E a alegria.

Obrigado pelo cinzentismo, 
pela depressão, 
pelo desespero.

Obrigado pela vossa mediocridade. 
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.

Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias 
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.

Obrigado por não disfarçarem 
a cobiça, a corrupção, a indignidade. 
Pelo chocante imerecimento 
da vossa comodidade e da vossa felicidade 
adquirida a qualquer preço. 
E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, 
o que nunca deveremos fazer, 
o que nunca deveremos aceitar.

Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. 
Para que não sejamos também assim. 
E para que possamos reconhecer facilmente 
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa







domingo, 4 de agosto de 2019

Desfloramento





Venho das noites escuras 
e aprendi a ver nas trevas 
e a ler nas trevas. 
Venho das noites escuras 
e sei o grande soluço das sombras 
e os cânticos impotentes dos peregrinos. 
Venho das noites escuras 
daí o meu amor imenso pela luz! 
Quanto mais treva era a treva 
melhor eu aprendia a amar a luz do sol
e dos meus olhos sempre mais e mais abertos 
a luz interior irradiando aniquilava as sombras... 
E sendo sempre noite já a pouco e pouco era mais manhã. 
E cada vez mais enorme e definitiva a manhã subia
apesar da treva apesar do silêncio apesar de tudo! 
O negrume da noite era uma incandescência prenhe.

A flor romântica da treva esfolhou-se-me nos dedos. 
E então nasci. 
E então vi que estava nu
e alegrei-me por estar nu
enfim! 
Sorvi os frutos da terra
e já não me souberam a papel impresso! 
Sacudi a poeira do que me tinham ensinado
e comecei a saber. 

Sob as palavras surgiu enfim a voz
e a canção ardente da vida já não encontrou algodão 
nos meus ouvidos. 

Ah! Só quem veio das trevas e das noites escuras 
pode amar assim o imenso mundo do sol! 


Adolfo Casais Monteiro





sábado, 3 de agosto de 2019

Love was the antidote


Alexander Eravoev





I fell In love with a wound,
then I let go.
Walking through a dark corridor haunted by my past. 
I began to close those doors. 
One by one. 
Each door representing a wound, a trauma, an attachment. 
I let go, I let go of the old stories.
Some of which weren’t mine to carry. 
I had become a prisoner of others fate. 
So I reclaimed my sovereign self.
Remembered who I was.
Turned my love unto myself, 
As if by magic, 
that dark corridor filled with open doors to my past 
disappeared. 
The spell was broken, the needs vanished. 
The trauma cycle broken.
I fell in love with me again. 
Illuminated from the inside, 
centered within my own power. 
Grace returned to my heart. 
Forgiveness was the gift I gave to myself. 
Focus and alignment was the task at hand. 
Self worth was the medicine.
Love was the antidote. 
Healed, Renewed, Reborn....


Saffron Hughes






sexta-feira, 2 de agosto de 2019

INSTANTES





Se eu pudesse viver novamente minha vida, Na próxima,
trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão
perfeito, relaxaria mais, Seria mais tolo ainda do que
tenho sido, Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico, correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria
mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da vida: claro que tive momentos
de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feita
avida, só de momentos; não perca o agora. Eu era um desses
que nunca ia a parte alguma sem um termómetro, uma bolsa de
água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse
a viver viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no
começo da primavera e continuaria assim até o fim do
outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo.


Nadine Stair