segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Contrariedades

 



Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 


Cesário Verde
in "O Livro de Cesário Verde"






domingo, 18 de dezembro de 2016

Impossível

 






Nós podemos viver alegremente, 
Sem que venham com fórmulas legais, 
Unir as nossas mãos, eternamente, 
As mãos sacerdotais. 

Eu posso ver os ombros teus desnudos, 
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura, 
E até beijar teus olhos tão ramudos, 
Cor de azeitona escura. 

Eu posso, se quiser, cheio de manha, 
Sondar, quando vestida, pra dar fé, 
A tua camisinha de bretanha, 
Ornada de crochet. 

Posso sentir-te em fogo, escandescida, 
De faces cor-de-rosa e vermelhão, 
Junto a mim, com langor, entredormida, 
Nas noites de verão. 

Eu posso, com valor que nada teme, 
Contigo preparar lautos festins, 
E ajudar-te a fazer o leite-creme, 
E os mélicos pudins. 

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo, 
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac, 
Hinos de amor, vestidos de veludo, 
E botas de duraque 

E até posso com ar de rei, que o sou! 
Dar-te cautelas brancas, minha rola, 
Da grande loteria que passou, 
Da boa, da espanhola, 

Já vês, pois, que podemos viver juntos, 
Nos mesmos aposentos confortáveis, 
Comer dos mesmos bolos e presuntos, 
E rir dos miseráveis. 

Nós podemos, nós dois, por nossa sina, 
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate, 
Beber na mesma chávena da China, 
O nosso chocolate. 

E podemos até, noites amadas! 
Dormir juntos dum modo galhofeiro, 
Com as nossas cabeças repousadas, 
No mesmo travesseiro. 

Posso ser teu amigo até à morte, 
Sumamente amigo! Mas por lei, 
Ligar a minha sorte à tua sorte, 
Eu nunca poderei! 

Eu posso amar-te como o Dante amou, 
Seguir-te sempre como a luz ao raio, 
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou, 
Lá essa é que eu não caio! 



Cesário Verde 
in "O Livro de Cesário Verde" 






sábado, 17 de dezembro de 2016

Eu e Ela

 






Cobertos de folhagem, na verdura, 
O teu braço ao redor do meu pescoço, 
O teu fato sem ter um só destroço, 
O meu braço apertando-te a cintura; 

Num mimoso jardim, ó pomba mansa, 
Sobre um banco de mármore assentados. 
Na sombra dos arbustos, que abraçados, 
Beijarão meigamente a tua trança. 

Nós havemos de estar ambos unidos, 
Sem gozos sensuais, sem más idéias, 
Esquecendo para sempre as nossas ceias, 
E a loucura dos vinhos atrevidos. 

Nós teremos então sobre os joelhos 
Um livro que nos diga muitas cousas 
Dos mistérios que estão para além das lousas, 
Onde havemos de entrar antes de velhos. 

Outras vezes buscando distração, 
Leremos bons romances galhofeiros, 
Gozaremos assim dias inteiro, 
Formando unicamente um coração. 

Beatos ou apagãos, via à paxá, 
Nós leremos, aceita este meu voto, 
O Flos-Sanctorum místico e devoto 
E o laxo Cavaleiro de Faublas... 


Cesário Verde
in "O Livro de Cesário Verde" 







sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Que Me Venha Esse Homem

 




Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco
Que me venha esse homem
Que me arranque do sono
Que me machuque um pouco.



Bruna Lombardi






quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Caí no silêncio há vários dias

 



Quero falar-te das horas incandescentes 
que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. 

Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais 
improvável, que nos sentamos diante do rio 
e ficamos a trocar pedaços de coisas 
subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. 

Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas 
de todos os dias, esperam-me apenas as aves que 
ninguém sabe de onde partiram.


| Vasco Gato |





quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O Tempo Passa? Não Passa

 




O tempo passa? Não passa 
no abismo do coração. 
Lá dentro, perdura a graça 
do amor, florindo em canção. 

O tempo nos aproxima 
cada vez mais, nos reduz 
a um só verso e uma rima 
de mãos e olhos, na luz. 

Não há tempo consumido 
nem tempo a economizar. 
O tempo é todo vestido 
de amor e tempo de amar. 

O meu tempo e o teu, amada, 
transcendem qualquer medida. 
Além do amor, não há nada, 
amar é o sumo da vida. 

São mitos de calendário 
tanto o ontem como o agora, 
e o teu aniversário 
é um nascer toda a hora. 

E nosso amor, que brotou 
do tempo, não tem idade, 
pois só quem ama 
escutou o apelo da eternidade. 


Carlos Drummond de Andrade
in, "Amar se Aprende Amando"





domingo, 11 de dezembro de 2016

Céu de Amianto

 




porque nos tornaram assim estreitos
assim impossíveis de asas
assim cautelosos de falas
acanhados, espreitados
fizeram de nós uma ameaça

assaltaram nossa alma, revistaram
nossas gavetas, deixaram
marcas na nossa intimidade
mexeram coisas sutis em nosso passado
nos transformaram em bichos acuados
servis, obedientes.

Não sei resolver o mundo, eu mal resolvo
meu próprio coração
e tudo me consome.

Mas sei que há uma luta. Não existe assombração.
Nesse mundo desincerto
tudo é o homem.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão







quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Amar!

 



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!…
Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… para me encontrar…


Florbela Espanca








domingo, 4 de dezembro de 2016

IDENTITY

 




This is how I am,
no time for guilt,
playing with fate and quick to bore.
Promises that implode betrayed with neglect.

It’s useless to change me.
Certainty is a stranger to me
because of the panic love causes,
because of imagination,
because I’m only
fit
for laziness.

My time is arranged in the last minute
or in premature withdrawals ,
in a sun that does not suffice
and in night that never ends,
in impetuous leaps between thirst and its slaking.

This how I am—
silence to reassemble my parts ,
a slow terror to shatter me,
silence and terror to heal me from a wicked memory
No hope that light will guide me.
I own nothing except my errors.


JOUMANA HADDAD






terça-feira, 29 de novembro de 2016

WHO IS STEALING MY FOREST?

 

Shlomi Nissim





I light my green leaves
and warm my self .
I exhale
and slip
with the ecstasy of one falling into the enemy ’s embrace
with the delight of one accepts his tortureer ’s judgment
or with the ravenousness of one who shares the murder his guilt

I flee
from innocent weakness to absolute frailty
from sex to a pleasure that sex cannot kill off
from my own wisdom
to the ice of escape.
I find shelter in the land of a brazen angel,
in brimstone growing within its own secrets ,
from my intelligent misery
to a storm of cruelty purified of hope
like the like return of the prodigal daughter to her last escapade
to the wedding that follows the sun
where I will neither live nor vanish .

And my spirit calls me toward a reasonable, foolish kind of madness
that has ebbed and flowed through my life
So I began to sway from rebellion to infatuation
and from ecstasy to dispersion
completely unaware

Here I am returning
Here I am returning to love
like the return of the she-lion to her husband the lion
So who will steal the forest from me now


JOUMANA HADDAD








sábado, 26 de novembro de 2016

DEVIL

 



When I sit before you,stranger,
I know how much time you’ll need
to bury the distance between us.
You are exceedingly intelligent
and I am in the midst of my feasting.
You are deliberating how to flirt
and I, under my curtain of modesty,
am already done devouring you 


| Joumana Haddad |







quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BAD HABITS

 




She said love is like gambling
and she always loses.
She said it’s a bad habit
that she does not dare give up.

She said she’s afraid of light
even though the light she’s spent was
not little
She’s content with her solitude
and she does not care for
companionship.
Still she falls from her cloud
whenever rain guides her to her land.

She said she’s ro bust but futile
and gentle despite herself.
Still she feigns roughness
because affection like love
is a bad habit
and so is silence
which she’ll never quit.

She said she’s bored
not even good enough for sleep
but she sleeps to remain like a fetus
drowned in the waters of oblivion.

She says she’s a tired woman
bleeding from her wound
wishing to never heal.

She said she’s loser by nature,
a loser so that she’ll deserve her
victory.
She said at last that life is a bad habit
which she hopes to maintain
with a little bit of will power
and a great deal of forgetfulness.


| Joumana Haddad |






quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Se existe uma chave

 



Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.


Vasco Gato




terça-feira, 22 de novembro de 2016

To anyone who tries to love her the way I do

 





"If you try to sing her to sleep,
You'll never sing in the right tune.
And don't even get me started 
On when it comes to bringing her
Flowers on a bad day.
Because if you really loved her
A fraction of the way I do,
You would know that she despises flowers,
Because of how they remind her
Of her mother's funeral.
Or how she can't drink her tea too hot,
Because of how she severely burned her tongue
That time her grandmother made her milk
A little too warm when she was a child.
But most of all, I despise
How she might let you in, and fool her
Into heartbreak she was never prepared for,
Because I too, know how that once felt.
And till this day, I have not quite recovered."







domingo, 20 de novembro de 2016

Não sei como ir da minha vida à tua rua

 



Não sei como entrar no teu bairro na tua vida,
a tua vida de puzzles e de palmeiras,
o teu bairro de lata e de armaduras.
Não sei como ir da minha vida à tua rua,
a tua rua cheia de perguntas,
a minha vida estranha sem respostas.
Mas chegarei.
Porque tu me chamas.


| Belén Sánchez |