quinta-feira, 28 de agosto de 2014

És a melhor maneira de viver





És a melhor maneira de viver. 
Podia dizer-te que te quero por tudo o que és. 
Mas estaria a mentir. 
Quero-te por tudo o que sou contigo. 
Quero-te pelo que sou. 
Porque me sinto, em ti, a pessoa que quero ser. 
És a minha melhor maneira de viver. 
Quero-te por egoísmo. 
É isso. 
Quero-te por egoísmo. 
Espero que me queiras pelo mesmo motivo.


in, "Prometo falhar" 
Pedro Chagas Freitas




quarta-feira, 2 de julho de 2014

Recuerda en tu vientre






"Soy hija de un pasado de mujeres que encendieron el fuego
Que regaron la tierra con su sangre
Que parieron con placer y nutrieron con sus tetas
Soy hija de los hombres que honraban el vientre de mis abuelas
Y nos sabían serpientes, lobas, hermosas

Soy hija de las mujeres-bosque
Que corrían desnudas por la tierra mojada
Y mojaban sus vientres con ella
Soy hija de las mujeres-madre
Que amaban a los árboles como a sus hij@s
Y ofrecían su cuerpo como alimento

Soy la mujer que recuerda
Soy la mujer que corre desnuda por el bosque
La loba
La que se arranca la ropa
Y se da cuenta de que también respira por el coño
Y por los brazos
Y por los pies
Y por el pecho
Y que la ropa es la red, la trampa!

Soy la que sabe que la tierra cura
Y abre las piernas y se cura con ella
Ungüento sagrado

Mujer sagrada

Mujer de luz
Mujer de sombra

Diosa de la muerte y de la vida

Que lleva en su vientre el recuerdo

Recuerda en tu vientre, mujer
Recuerda en tu vientre
Recuerda en tu vientre

Y enciende la hoguera"





domingo, 29 de junho de 2014

you are welcome to elsinore





Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny
in, Uma Grande Razão






sexta-feira, 27 de junho de 2014

Nomina Nuda





Maldita sea tu ingenuidad y la mía,
maldito el amor de los libros y del cine,
y ese momento de dicha
cuando todos creemos que aquello existe.
Olvídalo porque es mentira,
lo oirás en canciones antiguas, en boleros
que ponen la tarde amarilla y ociosa.

Ya ves que nos han mentido en todo,
que no hay nada bajo los nombres,
y el sonido amor vuela extraño
sobre nosotros
y parece un labio negro
como los hombros de un pájaro lejano.

Ya ves que es mentira el amor,
bautizo falso y doloroso,
que sólo existe un descuido y una red
y un océano finito de placeres,
pero el amor, ya lo ves,
es únicamente su nombre.

**

No sé llegar a tu casa perdida,
a tu casa enredada en las antenas
como un jirón olvidado y miserable.

No sé llegar a tu patio ni a tu vida,
a tu vida de puzzles y palmeras,
a tu patio de lata y de corazas.

No sé llegar desde mi vida hasta tu barrio,
tu barrio hinchado de perguntas,
mi vida extraña sin respuestas.
y sin embargo llegaré. Porque me llamas



Belén Sánchez
in, El Amor y sus Ciudades- 30 poemas de amor 





quarta-feira, 11 de junho de 2014

The New Macho





He cleans up after himself.
He cleans up the planet.
He is a role model for young men.
He is rigorously honest and fiercely optimistic.

He holds himself accountable.
He knows what he feels.
He knows how to cry and he lets it go.
He knows how to rage without hurting others.
He knows how to fear and how to keep moving.
He seeks self-mastery.

He has let go of childish shame.
He feels guilty when he's done something wrong.
He is kind to men, kind to women, kind to children.
He teaches others how to be kind.
He says he's sorry.

He stopped blaming women or his parents or men for his pain years ago.
He stopped letting his defenses ruin his relationships.
He stopped letting his penis run his life.
He has enough self-respect to tell the truth.
He creates intimacy and trust with his actions.
He has men that he trusts and that he turns to for support.
He knows how to roll with it.
He knows how to make it happen.
He is disciplined when he needs to be.
He is flexible when he needs to be.
He knows how to listen from the core of his being.

He's not afraid to get dirty.
He's ready to confront his own limitations.
He has high expectations for himself and for those he connects with.
He looks for ways to serve others.
He knows he is an individual.
He knows that we are all one.
He knows he is an animal and a part of nature.
He knows his spirit and his connection to something greater.

He knows that the future generations are watching his actions.
He builds communities where people are respected and valued.
He takes responsibility for himself and is also willing to be his brother's keeper.

He knows his higher purpose.
He loves with fierceness.
He laughs with abandon, because he gets the joke.


The ManKind Project





segunda-feira, 9 de junho de 2014

Julgava que te tinha dito adeus





Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.


Amalia Bautista





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos






Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. 
Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. 
Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes. 
Nem desejo saber. 
Basta-me lembrar-te como quem relembra uma música. 
Eu quis-te com uma violência que desconhecia. 
Tu levaste-me para paragens inóspitas, repletas de perigos. 
Por ti senti pavor. 
Por ti senti raiva. 
Por ti senti desespero. 
Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. 
Tu eras em tudo um bicho indomável. 
Nunca te oferecias. 
Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos.


Pedro Paixão





terça-feira, 3 de junho de 2014

Não tenho planos






Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago as portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


Maria do Rosário Pedreira






sexta-feira, 25 de abril de 2014

Não posso desesperar da humanidade






Não posso desesperar da humanidade. E como
Eu gostaria de! Mas como não posso
Pensar que há povos maus, há maus costumes?
A América é detestável. Mas deu - americanos - 
Walt Whitman e Emily Dickson. Posso
não confiar neles? A Rússia é
detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
São máus os japoneses? Como podem
sê-lo, se têm Kurosowa e o sr. Roberto
que me vendia hortaliças lá no Brasil?
E o meu Brasil tão infeliz amor, e tão
ridículo? Mas não são brasileiros Euclides 
e o coração dos meus amigos? E
Portugal, como pode ser mau e detestável,
se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
o amo - ao mundo - como português?
A humanidade e as patrias são uma chatice, eu sei.
Mas como desesperar delas, desde que
não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
dos usos e dos costumes, da vaidade,
mas uma forma de ser-se humano e solitário
Acompanhadamente?


In, 40 ANOS DE SERVIDÃO 
- JORGE DE SENA
1965






Portugal





(...) 
Torpe dejecto de romano império; 
babugem de invasões; salsugem porca 
de esgoto atlântico: irrisória face 
de lama, de cobiça, e de vileza, 
de mesquinhez, de fátua ignorância; 
terra de escravos, cu pro ar ouvindo 
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto; 
terra de funcionários e de prostitutas, 
devotos do milagre, castos 
na hora vaga da doença oculta: 
terra de heróis a peso de ouro e sangue, 
e santos com balcão de secos e molhados 
no fundo da virtude; terra triste, 
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha, 
cheia de afáveis para os estrangeiros 
que deixam moedas e transportam pulgas... 
(...) 


Jorge de Sena 
in, QUARENTA ANOS DE SERVIDÃO





DEIXEM-SE DE FINGIR





Deixem-se de fingir de heróis da esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.

Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.

O único ismos em consonância com os arrotos
de bem comidos, e rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.


Jorge de Sena






terça-feira, 22 de abril de 2014

O Virgem Negra II





O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formando o quadrado
Era quando o Aleyster Crowel aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.


Mário Cesariny
in, "O Virgem Negra:
Fernando Pessoa explicado às criancinhas nacionais e estrangeiras"





segunda-feira, 7 de abril de 2014

Há mulheres





Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
Não pela cor 
Mas pela vastidão da alma 
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos 
Ficam para além do tempo 
Como se a maré nunca as levasse 
... Da praia onde foram felizes 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos 
pela grandeza da imensidão da alma 
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens... 

Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma. 


Sophia de Mello Breyner Andresen





segunda-feira, 31 de março de 2014

O ser humano






O ser humano 
é uma casa de hóspedes.
Todas as manhãs chega alguém novo.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, 
como visitantes inesperados.
Receba e entretenha todos, 
mesmo que seja uma multidão de dores
que violentamente varrem a sua casa 
e roubam os seus móveis.
Ainda assim 
trate os seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar limpando-o 
para um novo prazer.
O pensamento escuro, 
a vergonha, a malícia, 
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem, porque 
cada um foi enviado 
como um guardião do além.

Rumi




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sejamos Pornográficos





Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos)
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher de trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?


Carlos Drummond de Andrade
in, Brejo das almas 
(1934)